A pergunta titular é capciosa, mas não é nossa intenção condenar quem adere à balela pretensamente apolítica propagada pelos organizadores do evento: transmitido desde 1956 e interrompido apenas em 2020, por causa da pandemia da COVID-19, o Eurovision Song Contest (ESC ou Festival Eurovisão da Canção) proíbe que os participantes apresentem canções com teor político explícito, o que costuma acontecer com freqüência, visto que a Europa é marcada por conflitos seculares entre vários de seus países. E, pior que isso: a despeito dos atos genocidas cometidos pelo Estado de Israel, que sequer é um país europeu, é permitido que aristas vinculados a esta nação possam se destacar neste certame musical, obtendo posições vantajosas na classificação final, menos pelos atributos qualitativos em si que por causa de agressivas campanhas de apoio sionista ao redor do mundo. Não seria um ato de cumplicidade em relação ao mal assistir a este evento, portanto?
Não discordamos do que foi efetivado por Espanha, Irlanda, Países Baixos, Eslovênia e Islândia na edição de 2026: recusaram-se a partir do evento, em razão da influência que Israel detém sobre os administradores do Eurovision, ocasionando a exclusão de participantes – conforme ocorreu em 2024, em relação ao cantor holandês Joost Klein, então um dos favoritos – e consolidando-se num dos principais patrocinadores da transmissão televisiva. A Rússia foi banida por bem menos, desde 2022…
Controvérsias à parte, percebemo-nos fascinados pelo impacto cultural deste evento, cuja grande final da edição deste ano – programada para acontecer num sábado, 16 de maio de 2026 – será sediada na cidade de Viena, capital da Áustria, já que este país foi vencedor na edição do ano anterior, 2025, quando o cantor JJ (acrônimo para Johannes Pietsch) encantou os jurados com “Wasted Love” (mais informações aqui), e sua mistura entre música ‘pop’ e ópera, enquanto a candidata israelense, Yuval Raphael, ficou em segundo lugar, sobretudo por causa dos votos telefônicos advindos do que foi organizado como “Resto do Mundo”, ou seja, países que não participam do festival, mas que o assistem, internacionalmente.
Apelidado de “Copa do Mundo ‘gay’”, o Eurovision ficou relativamente popular no Brasil a partir de 2021, justamente por causa do confinamento pandêmico, pois a transmissão das duas semifinais e da grande final são disponibilizadas no canal de YouTube do certame. E, assim, artistas como a banda italiana Måneskin (mais detalhes, aqui), o holandês Duncan Laurence, a armênia Rosa Linn, os portugueses da banda Napa e o italiano de ascendência egípcia Mahmood ficaram bastante conhecidos. Tanto que a canção vencedora de 2023, “Tattoo”, da sueca Loreen, foi regravada em versão forró, sob o título “Daqui pra Sempre”.
Perante todos os problemas supracitados – a anuência da organização do evento em relação aos atos nefastos de Israel e a manipulação de regras em favor da participação deste país –, seria delicado e até não recomendado divulgar entusiasmadamente este evento. Mas incorreríamos num contra-senso apreciativo se ignorássemos as interessantíssimas faixas que compõem a edição atual deste certame, como a favorita “Liekinheitin”, da dupla finlandesa Linda Lampenius & Pete Parkkonen ou a balada australiana “Eclipse”, da cantora Delta Goodrem. Os portugueses do grupo Bandidos do Cante não foram exitosos em fazer com que a lenta “Rosa” conseguisse classificar-se, na primeira semifinal, mas ela chamou positivamente a atenção de vários críticos. Idem quanto à agressiva “Kraj Mene” petardo ‘heavy metal’ da banda sérvia Lavina, cujo refrão gritado diz mais ou menos o seguinte, em tradução literal: “ainda estou guardando um lugar para ti, ao meu lado/ Este amor unilateral está me matando/ Tu não vês o quanto estou a autodestruir-me? / Quanto mais eu dou, menos recebo de ti”. Um primor, tanto quanto as dançantes “Bangaranga”, de Dara da Bulgária, “Jalla”, da cipriota Antigoni, ou a faixa grega “Ferto”, do cantor Akylas. Dentre as faixas roqueiras, a polêmica “Choke Me”, da romena Alexandra Căpitănescu, se sobressai, ainda que a letra incomode muitos ouvintes, por despertar gatilhos referentes a agressão sexual. Não obstante ser um festival em que a competição entre os países é central, o mais interessante neste evento é a intenção de unir povos distintos através da música, conforme apregoa um de seus jargões. Os israelenses, infelizmente, empurram o evento em direção contrária, justificando o compreensível boicote, por parte de diversos espectadores e países. Se tu lidas bem com as contradições referentes ao que é perguntado no título deste texto, esperamos que a audiência ao evento seja entretenedora e que proporcione uma válida reflexão acerca de nossas responsabilidades políticas, que têm a ver com todas as escolhas do dia a dia – inclusive estéticas. Basta constatar o quanto é emulado, em termos de identidade histórico-nacional, numa faixa etérea como “Andromeda”, da banda ‘folk’ Lelek (formada exclusivamente por mulheres), representante da Croácia. Será que este evento sobreviverá à sua septuagésima edição, e ainda ocorrerá em 2027, com Israel insistindo em participar? Mais que uma simples pergunta ou expectativa comercial, este é um desafio midiático de cariz discursivo: afinal, a música é um receptáculo mui oportuno para a transmissão de ideologias!
Wesley Pereira de Castro.
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