Sem polêmica, a despeito do sensacionalismo titular: por mais que estejamos dispostos a divulgar e elogiar a empreitada de incentivo à autoaceitação que é “Quinze Dias” (2026, de Daniel Lieff) – baseado num livro juvenil homônimo de Vítor Martins, co-roteirista do filme –, a submissão da obra a clichês narrativos de cariz classista dificulta a adesão emocional ao que é romanticamente embalado, enquanto arremedo hollywoodiano. Neste sentido, a anedótica oposição entre “o pior filme brasileiro” e o “melhor filme norte-americano” fica prejudicada em seu viés militante, pois é atravessada por uma assunção imitativa, que homogeneiza aquilo que deveria ser evitado…
Indo direto ao ponto: por mais simpáticas que sejam algumas tentativas do cinema brasileiro em consolidar-se através de gêneros tradicionais, estas geralmente ficam reféns de modelos narrativos internacionais (leia-se: globalizados e neoliberais), o que nos leva a questionar em que perspectiva podemos considerar um filme produzido no país como “nacional”? A vinculação patrícia é suficiente para validar a adesão nacionalizante? No terreno político, encontramos “patriotas” vestindo camisetas verde-e-amarelas enquanto empunham orgulhosamente bandeiras estadunidenses, do mesmo modo que alegados cristãos defendem de maneira subserviente o Estado genocida de Israel. Precisamos ter cuidado no modo como utilizamos alguns adjetivos pátrios, portanto!
Voltando ao filme supracitado: desde que o seu ‘trailer’ foi anunciado, alguns meses antes da estréia nos cinemas, em 18 de junho de 2026, os atores e a equipe técnica foram alvos de comentários maldosos, devido à suposta inverossimilhança do romance central ou das características físicas dos personagens, entre outros detalhes. Cumprindo um requisito elementar das redes sociais, balizadas pelo ódio genérico às alteridades, racismo, lipofobia e homofobia foram recorrentes em análises demeritórias sobre o longa-metragem, antes mesmo de seu lançamento. A estréia ocorreu em salas reduzidas e, apenas dois meses depois, o filme chegou à plataforma de ‘streaming’ Netflix. Obterá o sucesso de público almejado?
Na trama, Felipe (Miguel Lallo), um adolescente mimado e sob tratamento psicológico – em razão de sofrer ‘bullying’ em seu condomínio e na escola, por estar acima do peso ditado como “padrão” –, descobre que sua mãe, Rita (Débora Falabella), foi convencida por uma vizinha a cuidar de Caio (Diego Lira), também com dezesseis anos de idade, quando seus pais saem em viagem. Como os pais de Caio cuidaram do jardim de Rita, quando ela viajou para Gramado com o filho – na verdade, deixaram que as flores morressem, como reclama Felipe –, ela sente-se na obrigação de acolher o rapaz, que não pode ficar sozinho em seu apartamento, já que sua mãe (Mariana Santos) é bastante controladora e desgosta de suas amizades, incluindo um casal lésbico. A princípio, como tende a acontecer neste tipo de enredo, Felipe sente-se irritado e discute o tempo inteiro com Caio, mas logo apaixona-se por ele. Até que a própria agressividade que Felipe destina a si mesmo, por causa dos traumas referentes à sua aparência física, surge como empecilho tanto para o seu relacionamento com Caio quanto para a convivência com a sua mãe…
Não obstante o romance adolescente ser o grande chamariz deste filme, o modo como Felipe lida com as suas crises de baixa auto-estima desempenham importante função acolhedora, visto que o filme é repleto de frases de efeito – muitas delas pronunciadas pela psicóloga Olívia (Olívia Araújo) – que explicam porque os livros de autoajuda estão comumente entre os mais vendidos no mercado editorial. Descobrimos, eventualmente, que Caio e Felipe foram amigos na infância, quando fingiam que eram sereias, no fundo da piscina, mas que se afastaram à medida que cresceram. É difícil demonstrar empatia por Felipe, em diversas situações, devido ao modo iracundo com que ele reage às pessoas ao seu redor, mas pouco a pouco compreendemos as suas motivações: a fim de escapar das atribulações da “vida real”, ele refugia-se em filmes e seriados, imaginando o seu próprio cotidiano como se fosse uma comédia romântica. Nestas situações, fica evidente a associação do realizador Daniel Leiff à linguagem televisiva, malgrado ser divertido acompanhar a contagem de dias, numericamente identificada nos cenários. Na trilha cancional, sucessos garantidos entre os adolescentes, como: “Idiota”, de Jão; “Teu Beijo”, de Duda Beat; “K.O.”, de Pabllo Vittar; “Carnaval”, de Marina Sena; “Minto para Quem Perguntar”, de Anavitória; e “Flutua”, de Johnny Hooker (com participação de Liniker), além de “I Love You”, de Billie Eilish e da canção de abertura do musical “Hairspray – Em Busca da Fama” (2007, de Adam Shankman), oportunamente assistido pelos protagonistas no ritual familiar das “quartas musicais”. É tudo muito previsível – e estranhamente assexuado –, mas o filme cumpre de maneira esquemática e afirmativa aquilo a que se pretende, em suas intenções identitaristas. O problema é que, por vezes, parece que a obra tem receio em assumir-se brasileira, em feitura, ainda que a fotografia de Daniel Primo enfatize as belezas da cidade mineira de Cataguases, onde o filme foi rodado. Caio, lendo uma saga fantasiosa de J. R. R. Tolkien [1892-1973], diz, em dado momento, que, para sentir-se feliz, “precisa sair deste condado”… Voltaremos a este assunto, tá?
Wesley Pereira de Castro.
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