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Diplomacia Populista no Gramado Global: Trump e o Teatro do Poder

Diplomacia Populista no Gramado Global: Trump e o Teatro do Poder

“Na era dos líderes populistas, a diplomacia é menos sobre tratados e mais sobre teatros.” A cena montada nos jardins da Casa Branca, em agosto de 2025, com Donald Trump ao lado de Volodymyr Zelenskyy e líderes europeus, parecia saída de um guião cuidadosamente encenado. A retórica foi conciliadora, os gestos cuidadosamente cronometrados, e o cenário construído para a câmara. O que deveria ser um encontro diplomático de alto nível tornou-se um espetáculo global, transmitido em direto para milhões, consumido como produto mediático e interpretado como sinal de liderança. Mas por detrás da cortina de cordialidade, encontrava-se uma nova configuração da diplomacia contemporânea: a diplomacia populista como performance.

A política externa, que tradicionalmente operava nos bastidores da negociação estratégica, entrou agora no palco da espetacularização. Trump não é o primeiro a teatralizar a diplomacia, mas é certamente o mais eficaz na sua apropriação populista. Como descreve o Atlantic Council (2025), a sua atuação em Washington não visava tanto o avanço de soluções concretas, mas a construção de imagem — de poder, de conciliação, de liderança global. A diplomacia torna-se assim um jogo de perceções, em que o conteúdo cede lugar à forma e a negociação se converte em encenação.

A literatura contemporânea sobre populismo tem vindo a expandir-se para além da análise da política interna. Mudde & Rovira Kaltwasser (2024) sustentam que o populismo opera também no campo externo, moldando a política internacional em torno de discursos simplificados, polarizações morais e centralidade do líder. Trump é arquétipo deste modelo: desprezo por mediações institucionais, preferência por contacto direto com o público e uma política externa que se traduz em símbolos mais do que em tratados. A reunião com Zelenskyy, neste sentido, não foi um espaço de negociação substancial, mas um palco onde Trump ensaiou o papel de pacificador carismático.

A teatralidade da diplomacia atual não é acidental — ela é estratégica. Cornut (2025) argumenta que a diplomacia do século XXI está progressivamente marcada por espetacularização, em que imagens e gestos substituem os bastidores negociais. Cimeiras tornam-se reality shows globais, e a linguagem performativa — como “trégua realista” ou “grande amizade entre os povos” — é calibrada para manchetes, não para resoluções. Trump não ofereceu compromissos tangíveis, mas insinuações simbólicas, flertes retóricos e promessas vagas que alimentam a narrativa do poder sem custo político real. O impacto imediato é mediático; o impacto duradouro, incerto.

Esta diplomacia performativa impõe também custos aos aliados. Os líderes europeus, conscientes da fragilidade da coesão transatlântica, viram-se pressionados a participar do espetáculo, mesmo diante de desconfianças quanto à seriedade da proposta. A política externa transforma-se, assim, numa arena onde a aparência de unidade se sobrepõe à sua substância. Em vez de coerência estratégica, temos coordenação visual. Em vez de compromissos multilaterais, temos selfies diplomáticas. O dilema é grave: resistir à encenação é correr o risco de parecer obstrucionista; participar nela é legitimar uma diplomacia superficial.

Este modelo, embora eficaz em conquistar atenção, é arriscado no plano geopolítico. Weiss (2024) alerta que a performance diplomática cria uma ilusão de consenso que pode ser letal. Aparentar estabilidade quando há divisão; sugerir compromissos onde não existem acordos — são gestos que aumentam a entropia internacional. No caso do encontro em Washington, a ausência de compromissos concretos com a defesa da Ucrânia contrastou com a abundância de declarações genéricas sobre paz. O perigo é que adversários, como Vladimir Putin, interpretem este vácuo como oportunidade, e que aliados passem a duvidar da firmeza do Ocidente.

A diplomacia populista também levanta questões éticas relevantes. Ao transformar negociações que envolvem vidas humanas — como a de um país em guerra — em peças mediáticas, corre-se o risco de trivializar o sofrimento. A estética sobrepõe-se à responsabilidade. O tempo da política passa a ser o do ciclo de notícias e das redes sociais, não o da construção de soluções duradouras. A performance substitui a prudência. A diplomacia, que deveria ser prática de contenção e escuta, converte-se em espetáculo efémero e autoindulgente. Como advertiu Nye (2025), o soft power não se sustenta apenas em imagem, mas na credibilidade por detrás dela.

O caso Trump ilustra com clareza esta dinâmica. Em vez de usar a sua influência para avançar negociações concretas, preferiu a projeção de uma imagem conciliadora. Isto permitiu-lhe ocupar o centro da narrativa internacional — não como responsável, mas como protagonista. A diplomacia populista é, neste sentido, profundamente centrada no ego. É uma diplomacia do selfie: todos os atores querem aparecer bem enquadrados, mesmo que a cena seja vazia de conteúdo. A consequência é que os processos multilaterais perdem densidade, e a arquitetura internacional baseada em confiança e continuidade é corroída.

A questão não se limita a Trump. Outros líderes — de Bolsonaro a Modi, de Erdogan a Orbán — utilizam estratégias semelhantes de teatralidade diplomática. Trata-se de uma tendência global, em que a política externa torna-se extensão da imagem interna, e em que as relações internacionais são adaptadas ao ritmo do espetáculo mediático. O palco é global, mas o roteiro é local: cada gesto internacional visa reforçar a posição doméstica. O resultado é um paradoxo: quanto mais visível torna-se a diplomacia, menos substancial ela é.

Conclui-se que a diplomacia populista representa uma mutação estrutural na forma como os líderes se relacionam com o mundo. O caso de Trump em 2025 não é exceção, mas sintoma. A sua atuação no “gramado global” da Casa Branca revelou um estilo eficaz em curto prazo — capturar manchetes, reforçar imagem, confundir adversários — mas perigoso no médio e longo prazo. Ao privilegiar a performance em detrimento da estratégia, enfraquece-se a capacidade de construir acordos robustos e duradouros.

A política externa não pode ser reduzida a espetáculo. O mundo não é um palco — é um sistema complexo de interesses, alianças, equilíbrios e consequências. Substituir negociação por encenação é brincar com a estabilidade global. A diplomacia, como prática ética e estratégica, exige mais do que aplausos: exige profundidade, coerência e responsabilidade. Os líderes que a tratam como teatro devem lembrar-se de que, na história, as peças mal escritas tendem a terminar em tragédia.

Referências Bibliográficas

Atlantic Council. (2025, August 20). Was Trump’s summit with Zelenskyy and European leaders a turning point for Russia’s war in Ukraine? Washington, DC.

Cornut, J. (2025). Diplomacy as Performance: Images, Gestures and the Global Stage. International Studies Review, 27(3), 401–419.

Mudde, C., & Rovira Kaltwasser, C. (2024). Populism in the Global Arena. Cambridge University Press.

Nye, J. (2025). Soft Power in the Age of Populist Leaders. Foreign Policy Analysis, 21(2), 189–204.

Weiss, T. (2024). The Dangers of Theatrical Diplomacy. Ethics & International Affairs, 38(4), 377–392.

The Guardian. (2025, August 20). European leaders scramble to shield Ukraine in high-stakes Trump talks.

Washington Post. (2025, August 20). Limits of Trump’s diplomacy clear as Moscow balks at Ukraine plan.

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