No primeiro capítulo do ‘best-seller’ “A Biblioteca da Meia-Noite”, do autor britânico Matt Haig, sabemos que a protagonista Nora Seed “decidiu morrer”. Há um intervalo de dezenove anos entre um primeiro evento e a tentativa de suicídio propriamente dita: em ambas as situações, esta protagonista deparar-se-á com uma personagem tão marcante quanto bondosa, uma bibliotecária, chamada Sra. Elm, que a acolhe em momentos difíceis: primeiramente, quando o seu pai morre; a posteriori, quando ela própria está prestes a morrer, por vontade própria. Nos capítulos subseqüentes, esta protagonista abrirá um cabedal de livros com capas esverdeadas, contendo linhas paralelas de vidas, a partir da tentativa de corrigir seus arrependimentos mais determinantes.
Na capa da edição do exemplar literário lançado no mercado brasileiro em 2022, pela editora Bertrand Brasil, lemos a informação de que “mais de quatro milhões de exemplares [foram] vendidos no mundo”. O chamariz do romance, portanto, está em seu sucesso vendável, não obstante a trama conjugar clichês românticos com o tom de autoajuda para-religiosa que encontramos em obras como “A Cabana”, de William P. Young, por exemplo. Ao invés de uma versão feminina de Deus, temos aqui um avatar carinhoso de uma entidade ‘post mortem’, que instiga a curiosidade tanto em Nora quanto nos leitores, acerca do que acontecerá em relação àquela mulher que poderia ter sido uma nadadora olímpica, uma roqueira de sucesso, uma professora bem-sucedida de Filosofia ou uma mulher casada e feliz, mas que se percebe depressiva e lidando com a morte súbita de um gato.
Não é preciso uma resenha muito detalhada sobre o que acontece no enredo deste romance para saber como ele termina, e que frases edificantes acompanham o despertar desta mulher potencialmente suicida, que, em determinado momento, percebe que “poderia plantar uma floresta dentro de si”. Uma versão cinematográfica já está em desenvolvimento, a ser protagonizada pela atriz Florence Plugh, e, obviamente, chamará a atenção dos quatro milhões de indivíduos que adquiriram o livro, sabe-se lá com quais intenções. Será que os quase cinqüenta e oito milhões de votantes de Jair Bolsonaro, na eleição presidencial brasileira de 2018, interessar-se-ão pelo lançamento da cinebiografia “Dark Horse”, programada para ser lançada em setembro de 2026, sob direção do norte-americano Cyrus Nowrasyteh? O assunto é tão recorrente, até mesmo em publicações de esquerda, que, infelizmente, um inesperado sucesso de bilheteria pode ser direcionado a este filme, por parte de seus opositores. Afinal, desde que ainda era um projeto suspeitoso, não se parava de falar sobre ele. Recentemente, uma das versões do roteiro foi oportunamente “vazada”. O que a mídia esquerdista fez? Publicou o arquivo, com um anúncio imperativo, afirmando que aquilo precisava ser lido…
Num esforço de não-instauração de curiosidade, anunciamos, aqui, que o acesso ao arquivo supracitado desemboca na aquisição de um documento em PDF com cento e sete páginas, em que o protagonista do filme (interpretado pelo ator estadunidense Jim Caviezel) é apresentado como um baluarte da democracia e como um pai exemplar, que “acredita tanto na família, que teve filhos de seus três casamentos”. Em inglês, ele dispara o mote de campanha do então candidato à presidência do Brasil, que foi eleito para o mandato de 2018 até 2022: “Brazil above everything, God above everyone!” [“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”]. Patriotismo e religião surgem, unificados, como um instrumento de esmagamento. Uma repórter, descrita apenas como atraente, interpela o personagem, numa das seqüências iniciais, alegando que há rumores de que os militares estariam por detrás da campanha dele. O biografado, então, solta uma pérola de questionável sabedoria: “rumores são como peidos: eles provêm de cuzões” (sic). Tu crês que precisas ler este roteiro e/ou assistir ao filme dele adaptado?
Tais provocações servem para reiterar algo que é comentado desde o primeiro texto desta coluna, no que tange à necessidade de filtrar aquilo que efetivamente desperta o nosso interesse, em termos de incitações e sugestões midiáticas. Outro exemplo: na noite de 21 de maio de 2026, o longa-metragem espanhol “La Bola Negra” (2026), dirigido pela dupla de realizadores Javier Ambrossi e Javier Calvo – conhecidos mundialmente através da alcunha compartilhada “los Javis”, responsáveis pela minissérie televisiva “Veneno”, de 2020, sobre a artista transexual Cristina Ortiz Rodríguez [1964-2016] – recebeu uma acachapante acolhida de vinte minutos de aplausos, após a sessão de estréia, no Festival Internacional de Cinema de Cannes. Entraram para uma lista de recordes, portanto, de modo que, por causa desta recepção efusiva, a despeito de críticas variadas, especula-se que o filme seja um dos óbvios laureados nesta edição do festival. Não se duvida que, caso isto aconteça, seja algo merecido, visto que os diretores ousaram adaptar uma peça teatral inacabada de Federico García Lorca [1898-1936], apresentando, ao longo de duas horas e quarenta minutos de duração, os destinos entrecruzados de homens perseguidos por suas tendências homossexuais, em 1932, 1937 e 2017. Uma válida reivindicação política, portanto. O que a quantidade de aplausos tem a ver com isto? E os exemplares vendidos de um romance formulaico? Insistamos em decidir, individual e passionalmente, aquilo que de fato, precisamos ler, ver, ouvir, divulgar e, por extensão, votar. Agendamento midiático é uma ferramenta pseudodemocrática do Capitalismo, que põe em evidência quem paga mais – e é nas mãos dos neofascistas quer estão as somas vultuosas de dinheiro. Proíbo-me, neste momento, de conceder mais audiência ao anunciadamente tétrico roteiro subcinematográfico mencionado acima!
Wesley Pereira de Castro.
Fonte da imagem disponível em: https://www.portalveneza.com.br/wp-content/uploads/abibliotecadameianoite-1200×900.jpg