O que tu achas da filmografia do cineasta Alonso Ruizpalacios? Nascido em 11 de setembro de 1978, na cidade do México, ele foi indicado à categoria Melhor Direção nas cerimônias do Prêmio Ariel, por seus quatro longas-metragens, e foi laureado em metade das oportunidades, além de receber vários troféus em outras categorias e festivais, como os prêmios de Melhor Longa Metragem de Estréia e de Melhor Roteiro, no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2014 e 2018, respectivamente. A despeito disso, trabalhou recentemente em três episódios da telessérie “Andor”, produzida pela Disney, e está creditado como responsável por uma minissérie baseada no desenho animado “Yu-Gi-Oh!”. Por qual de suas obras ele é mais lembrado? Enquanto isso, nos amistosos recentes da Seleção Brasileira de Futebol, quem recebeu vaias da platéia, no estádio? Por favor, não respondam. Foi uma pergunta meramente retórica!
O questionamento acima é um pretexto para que reflitamos acerca daquilo que é amplamente noticiado e divulgado até mesmo pelos veículos especializados em assuntos culturais. Há centenas de filmes ainda não vistos (ou até mesmo descobertos) nas décadas iniciais do cinema, mas os críticos acavalam-se para redigirem as mesmas opiniões “de manada” sobre as derradeiras temporadas de alguma produção seriada, que acabou de estrear. A lógica deletéria dos ‘spoilers’ – que acostumou os leitores e espectadores a concederem maior relevância às surpresas tramáticas e à imposição de reviravoltas que ao desenvolvimento narrativo em si – faz com que as resenhas anseiem por “furos” avaliativos, sem que se possa comentar a contento o que foi visto. Além da superficialidade, a celeridade. Deste modo, voltamos à pergunta inicial: o que tu achas da filmografia de Alonso Ruizpalacios?
Caso o leitor não tenha sequer ouvido falar dele, adiantamos que “Museu” (2018) e “Um Filme de Policiais” (2021) estão disponíveis no catálogo da plataforma Netflix, enquanto “A Cozinha” (2024) pode ser visto através do serviço de ‘streaming’ HBO-Max. O seu elogiadíssimo longa-metragem de estréia, “Güeros” (2014), encontra-se acessível via Mubi – e é sobre ele que falaremos agora, pois há, neste filme, um tipo de observação citadina que, além de estimular-nos sinestesicamente, confronta os espectadores mexicanos acerca da história do cinema local [diálogos de “Os Esquecidos” (1950, de Luis Buñuel) são recitados, por exemplo, e membros da equipe técnica questionam os atores sobre o que eles acham do roteiro em que estão atuando] e oferece uma combinação entre montagem e desenho sonoro que assemelha-se bastante às produções de Paul Thomas Anderson, para utilizar um contraponto hollywoodiano afirmativo.
Na trama, acompanhamos o relacionamento em construção de dois irmãos que moram distantes um do outro, e precisam conviver após um incidente envolvendo o mais novo, Tomás (Sebastián Aguirre), que precisa se afastar, às pressas, de sua vizinhança, depois que uma brincadeira envolvendo bexigas cheias de água intensifica o estresse de uma mãe que passeava pela calçada com seu bebezinho. Na primeira seqüência do filme, acompanhamos os gritos e o desespero desta mãe (Sophie Alexander-Katz) – que não voltará a aparecer, confirmando o modo peculiar de exposição de personagens e situações, voltados para os encontros cotidianos, para as belezas do acaso. Tomás é enviado para a residência de seu irmão mais velho, estudante universitário, conhecido por todos como Sombra (Tenoch Huerta), que vive com seu amigo Santos (Leonardo Ortizgris). Ambos estão sem trabalhar e estudar, pois a Cidade do México está convulsionada por uma greve geral dos estudantes, mas Sombra e Santos afirmam que estão “em greve em relação à greve”. Até que entra em cena a militante Ana (Ilse Salas)…
O instante em que Ana aparece, discursando para manifestantes estudantis que a convertem em mero objeto sexual, é bastante pungente, acrescentando um quinhão de melancolia ao enredo, que possui como instaurador emocional o fascínio que Tomás sente por uma fita cassete do músico ficcional Epigmenio Cruz, que teria “feito Bob Dylan chorar”, conforme é noticiado pelo menos três vezes. Em determinado momento, os irmãos e amigos saem em busca deste cantor e compositor (interpretado por Alfonso Charpener), que aloja-se num zoológico e que, aparentemente, encontra-se em estágio de senilidade. Pede-se que ele autografe a fita cassete em questão, mas ele adormece antes de reagir às declarações de afeto que os irmãos lhe destinam, ao comentarem que aquela fita era a favorita de seu pai. A fotografia em preto-e-branco de Damián García – que voltará a trabalhar com o realizador, em mais de uma oportunidade – ressalta o aspecto de abandono nas ruas percorridas pelo quarteto central. Porém, não obstante o aspecto mui melancólico do filme (ainda mais doloroso por conta das contradições entre ação e discurso verificadas na seqüência dos atos grevistas na universidade), o realizador prefere exortar os seus personagens – e, por extensão, os espectadores – à ressignificação através das descobertas fortuitas. Um beijo em ‘close-up’ e a imagem meta-fotografada do rosto de Sombra, no fotograma final, convertem a tristeza anterior em maturação afetiva. Alonso Ruizpalacios é um cineasta que merece a nossa atenção e recomendação, em meio à pletora de anúncios repetitivos da contemporaneidade. Fica a dica! Podemos regressar, agora, aos intervalos comerciais?
Wesley Pereira de Castro.
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