Na tarde do dia 17 de dezembro de 2025, uma quarta-feira, milhares de espectadores que apreciam futebol assistiam, pela TV, à grande final da Copa Intercontinental, decidida nos pênaltis, com vitória do time francês Paris Saint-Germain, vencedor da Supercopa Europeia, sobre o time brasileiro Flamengo, vencedor da Copa Libertadores da América. Ao mesmo tempo, alguns veículos midiáticos alternativos transmitiam a notícia do falecimento do cineasta naturalizado alemão Rosa von Praunheim [1942–2025], autor, entre inúmeros trabalhos militantes, do excelente “Não é o Homossexual que é Perverso, mas a Situação em que Ele Vive” (1971). Há opções simultâneas de divertimento para todos os públicos, afinal de contas.
Tal preâmbulo, por motivos inauditos, permite que façamos associações entre filmes lançados em 2025: ainda que a safra anual seja considerada não tão contundente por mais de um crítico, várias produções abordaram questões políticas de frente, com envergaduras radicalmente opostas. Pensemos na aproximação temática que pode ser estabelecida entre “Foi Apenas um Acidente” (2025 de Jafar Panahi) e “Bugonia” (2025, de Yorgos Lanthimos). Em ambos os roteiros, alguém é aprisionado e torturado, por suspeitas de ser culpado por crimes generalizados contra a sociedade/humanidade: no primeiro caso, um pai de família é supostamente reconhecido por um homem simples, apelidado de “Jarra”, por causa do modo recorrente com que põe uma das mãos nas costas, depois de ser espancado por protestar contra um atraso salarial de oito meses. Isto fez com que ele fosse aprisionado, sob a acusação de difamar o regime nacional do Irã; no segundo caso, a poderosa gerente executiva de uma empresa química é sequestrada por um autista e por seu primo, ainda não recuperado dos abusos (quiçá sexuais) perpetrados por um policial, há alguns anos. Ela é acusada de ser alienígena. Em ambos os filmes, as pessoas detidas podem ser efetivamente culpadas pelos crimes atribuídos. Mas há uma diferença crucial de abordagem nestas obras: num dos casos, o perdão é sufocado pelo trauma da perseguição; no outro, o cinismo misantrópico é ostensivo e amplamente destrutivo. Quem tem razão?
Esta é uma pergunta francamente equivocada: o que faz com que estes filmes, para além de suas distinções qualitativas, sejam recorrentemente mencionados em listas de melhores do ano tem a ver com o modo como eles refletem os posicionamentos morais de seus realizadores, em consonância com as expectativas, frustradas ou confirmadas, dos espectadores. O cinema permite que os debates sejam continuados através do desenvolvimento dos enredos, de modo que uma obra como “Kontinental ‘25” (2025), do cineasta romeno Radu Jude, surge como contraponto delicado: o seu diretor é conhecido pelo uso da ironia e da sátira, na exposição das contradições acachapantes de seu país natal e, nesta obra em particular, parte de um clássico de Roberto Rossellini [1906–1977], “Europa ‘51” (1952), sobre a esposa de um industrial que, deveras alienada quanto às condições sociais dos empregados de seu marido, torna-se uma ativista, depois que seu filho adolescente comete suicídio. No filme antigo, as boas intenções da protagonista correspondem a uma espécie de santificação compensatória. No filme contemporâneo, acontece exatamente o contrário…
No longa-metragem mais recente, também acontece um suicídio, porém ainda mais agressivo: Orsolya (Eszter Tompa), uma agente judicial responsável por despejos de moradores que ocupam prédios restituídos a ricos proprietários, entra numa espiral progressiva de culpa, depois que um idoso sem-teto se enforca num radiador. O cômodo no qual ele estava alojado está prestes a ser demolido para a construção de um hotel de luxo (o Kontinental do título), e ela lamenta que seus atos profissionais financiem, mesmo que sob a égide legislativa, as diretrizes corruptas da especulação imobiliária. Ao longo da projeção, ela conversa com diversos interlocutores, contando o mesmo fato trágico pelo menos cinco vezes, e lidando com situações recorrentes de xenofobia. O estilo discursivo do realizador, comumente associado a uma metralhadora giratória de opiniões, soa excessivamente julgamental nesta obra, praticamente ridicularizando Orsolya pela auto-responsabilização que ela atribui à sua função pública: sua crise de consciência é abordada de maneira zombeteira, chegando-se ao cúmulo quando a personagem reza o “Pai Nosso” no mesmo parque de dinossauros mecatrônicos onde o sem-teto passeava no início. Após a intervenção oportunista de um padre ortodoxo, resta o vazio das construções de aço, vidro e concreto…
Entulhado de referências e subtextos, o roteiro deste filme — merecedor do prêmio recebido no Festival de Cinema de Berlim — recria camadas de intertextualidade, seja a partir do filme que Orsolya assiste na TV [“Curva do Destino” (1945, de Edgar G. Ulmer)], seja através dos cartazes entrevistos no restaurante de um saguão cinematográfico [“Kuhle Wampe: Ou A Quem Pertence o Mundo?” (1932, de Slatan Dudow), “O Bruto” (1953, de Luis Buñuel) e o supracitado “Europa ‘51”] onde ela bebe com Fred (Adonis Tanta), um ex-aluno de Direito, que agora trabalha como entregador de aplicativos, além das piadas envolvendo citações brechtianas e anedotas concernentes à aceitação zen-budista da crueldade no mundo, enquanto, ao redor de Orsolya, são evidentes as hostilidades entre húngaros e romenos, por causa de questões históricas de propriedade envolvendo a região da Transilvânia. Ela chega a brigar com a sua mãe, impiedosamente nacionalista, que ignora o neofascismo crescente da Hungria. Para o diretor, é como se não houvesse redenção para ninguém, o que obriga o espectador a confrontar reflexivamente o próprio desamparo, a partir da constatação de que todas as nossas ações, direta ou indiretamente, referendam a exploração capitalista. E quando isso tem a ver com uma conjuntura socialista agressiva, tal qual aconteceu nos países que estiveram sob o jugo do stalinismo? Não há o que inserir no lugar do que está defeituoso, segundo a exposição cumulativa de hipocrisias, neste filme romeno. O suicídio, portanto, seria uma solução viável de expiação? Não referendamos a possibilidade afirmativa de resposta a esta pergunta. Ao invés disso, propomos um diálogo, a ser continuado após a leitura a este texto e a audiência a parte considerável dos filmes nele citados…
Wesley Pereira de Castro.
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