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“Às vezes, mesmo quando tu perdes, és o vencedor” ou “de onde eu venho, é cada um por si”: reconhecem a lógica nacional cinematográfica embutida nestas frases?

“Às vezes, mesmo quando tu perdes, és o vencedor” ou “de onde eu venho, é cada um por si”: reconhecem a lógica nacional cinematográfica embutida nestas frases?

Na capa da edição 828 da revista Cahiers du Cinéma, lançada em fevereiro de 2026, uma foto sorridente de Timothée Chalamet segurando uma raquete com a bandeira dos Estados Unidos da América é superposta à legenda “estado de alerta”, em menção ao cinema contemporâneo daquele país. Trata-se de uma imagem do filme “Marty Supreme” (2025, de Josh Safdie), indicado a nove categorias do Oscar 2026, incluindo os prêmios principais e sendo o absoluto favorito para Melhor Ator. Segundo o texto de divulgação desta revista, o filme supracitado, junto a alguns títulos alternativos [“The Mastermind” (2025, de Kelly Reichardt), por exemplo], serve-se do humor e da verve picaresca para “resistir à ideologia expansionista do atual presidente dos EUA”, Donald Trump. Em que sentido isto ocorre?

Baseado num personagem real, Marty Reisman [1930–2012], que se tornou o jogador mais velho a vencer uma competição aberta de raquete, em 1997, aos sessenta e sete anos de idade, “Marty Supreme” tem como protagonista Marty Mauser, um excelente funcionário de sapataria que é, também, um hábil jogador de tênis de mesa. Ocorre que este Marty ficcional é mentiroso e acostumado a trapacear para conseguir aquilo que deseja: a fim de conseguir viajar para um campeonato em Londres, ele aponta uma arma para um colega da loja em que trabalha, pois o proprietário da mesma, segundo ele, havia lhe prometido setecentos dólares, que seriam utilizados em sua viagem. É apenas o primeiro dos golpes que testemunhamos neste filme. Na verdade, o segundo: o primeiro é ilustrado na seqüência de créditos iniciais, quando ele engravida Rachel (Odessa A’Zion), a moça casada, e amiga de infância, por quem é apaixonado…

Apesar de o filme ser situado na primeira metade da década de 1950, a trilha cancional de “Marty Supreme” é recheada de sucessos da década de 1980, instaurando um anacronismo que implica a continuidade de um modo de vida, de um tipo de estratégia de sobrevivência que é um constitutivo transversal do ‘american way of life’, visto que, neste país, o sucesso é eventualmente associado à trapaça — e isto é naturalizado a partir da simpatia direcionada aos pequenos criminosos. Desta maneira, os delitos de Marty Mauser vão acumulando-se, sobretudo porque Rachel é tão trapaceira quanto ele. Em defesa de ambos, o que se instaura como ideologia sustentacular: as pessoas a quem eles enganam são geralmente imorais, o que faz com que o espectador torça para que o casal se dê bem, no desfecho. Escolhe-se o mal menor, portanto.

Dirigindo sem a cooperação de seu irmão Benny Safdie — cuja interrupção súbita de uma parceria longeva está envolta em diversas polêmicas —, o realizador deste filme confirma um frenesi rítmico associado à ansiedade progressiva e incessante, recorrente em obras como “Bom Comportamento” (2017) e “Jóias Brutas” (2019), bastante elogiadas pela crítica especializada. Porém, este elemento autoral revela um descompasso entre a direção eficiente e o roteiro escrito em comunhão com o parceiro habitual Ronald Bronstein: os atores gritam o tempo inteiro e isto faz com que não se perceba que as conseqüências de seus atos não são tão cumulativas quanto deveriam. Vide a facilidade com que Marty e seus companheiros de ilicitude conseguem se esquivar de algozes violentíssimos, numa conjuntura em que “não se tem direito a segundas chances”. O enredo recorre ao tipo de autodifamação formulaica que sustenta seriados televisivos como “Um Amor de Família” (no original, ‘Married With Children’) ou “Os Simpsons”, enquanto registros cômicos de pais de família que vivem às turras com os seus parentes, mas que sempre renovam os votos de amor por eles. Não é justamente o que acontece aqui? A pretensa abjeção de caráter é conveniente apenas até certo ponto. Ou seja, mesmo aderindo à descrição dos atos de desespero de quem está à margem do ‘american dream’, é justamente isto que faz com que tal “sonho possível” continue a ser vendido aos borbotões. Mesmo derrotado, Marty vence algo, tal qual diz um perverso contratador, Milton Rockwell (Kevin O’Leary), empresário do ramo de canetas, que é casado com uma ex-estrela do cinema mudo, Kay Stone (Gwyneth Paltrow), com quem Marty tem um envolvimento sexual sobremaneira oportunista…

Dentre as virtudes de “Marty Supreme”, uma das maiores é o afeto legítimo que o diretor demonstra pelas personalidades cinematográficas que desempenham pequenas participações: o cineasta Abel Ferrara surge como um gângster obcecado por um cachorro que Marty deixa fugir, em determinada situação; as comediantes Fran Drescher e Sandra Bernhard, aparecem como mãe e vizinha de Marty, respectivamente; o dramaturgo e também realizador David Mamet vivifica um diretor teatral; o húngaro Géza Röhrig interpreta um tenista sobrevivente de campo de concentração nazista, que narra um impactante ‘flashback’; e o mágico Penn Jillette vivifica um fazendeiro acumulador e antissemita. Cada uma destas participações valida o carinho que o diretor Josh Safdie demonstra por seus personagens, por mais que eles cometam deslizes e/ou crimes em suas atitudes cotidianas. “Eu sou o fruto de minhas escolhas”, gaba-se Marty, numa discussão com sua namorada grávida, confirmando a interpretação sintética levada a cabo pela revista Cahiers du Cinéma, enquanto observação nacional: Hollywood, mesmo sub-repticiamente, serve-se de caracteres contrários ao modelo dominante para inocular a sua ideologia. O Capitalismo a tudo assimila, jamais nos deixam esquecer!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: https://s.yimg.com/ny/api/res/1.2/T5v_O6TRpd21zJKuPb9RQQ–/YXBwaWQ9aGlnaGxhbmRlcjt3PTk2MDtoPTU0MDtjZj13ZWJw/https://media.zenfs.com/en/cinemablend_388/7cec58933ccd4c354d95dc9dc0f25b6b

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