EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish
EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish

As lusofonias: unidade nas diversidades

As lusofonias: unidade nas diversidades

Não há dúvida de que a expressão “lusofonia” tem um sentido de unidade, de um conjunto que estaria unido por algum elemento central. No nosso caso, esse elo seria a língua portuguesa. Entretanto, a ideia de lusofonia é muito mais complexa do que imaginamos, ou do que busquemos enquadrar aos vários interesses.

A “língua comum” produz um vínculo extremamente significativo entre as pessoas, mas ele não é o único. Existem outros encadeamentos, principalmente, quando essa língua atravessa culturas para além das fronteiras, dos oceanos e continentes. Em outras palavras, ao recorrermos à lusofonia é fundamental considerar inúmeras possibilidades interpretativas, libertando-a de conceitos ou preconceitos que a aprisionam nela mesmo, em imaginários de “colonialidade”, na expressão do sociólogo Aníbal Quijano.

Um primeiro e, talvez, decisivo aspecto é saber de onde se fala. Por exemplo, que ideia tem um brasileiro sobre lusofonia? Teria ele a mesma compreensão sobre ela de um português? Como os timorenses se enxergam na comunidade lusófona? Qual o sentido de lusofonia para angolanos, cabo-verdianos, guineenses, guinéu-equatorianos, moçambicanos, são-tomenses?

Não é difícil perceber que as respostas para essas questões serão direcionadas para a diversidade, e não para uma suposta unidade linguística. O que deve ser levado em consideração para melhor compreender a lusofonia é uma série de outros elementos, como os profundos troncos históricos que a constituem, a tensão permanente em torno das identidades, as conturbadas relações políticas, os mais variados interesses econômicos, os intensos trânsitos culturais, entre tantos outros fatores.

Assim, esse primeiro ponto de reflexão – e que não se encerra aqui – exige que utilizemos a lusofonia no plural, não por um capricho gramático, muito longe disso, mas como uma opção política consciente de suas dimensões múltiplas.

Apenas do ponto de vista linguístico: as lusofonias têm uma grande, profunda e resistente raiz na língua portuguesa. Isso é inconteste. Todavia, reconheçamos que esse suporte é atravessado agudamente por inúmeras outras “falas” dos povos espalhados pelo mundo, na África, na América, na Ásia, na Europa, e é isso faz a ideia de “língua portuguesa” uma das expressões humanas mais ricas, sonoras, musicais e repletas de sentimentos do mundo.

Alguém poderia perguntar qual o sentido de lusofonia, destacando a unidade que nos faz comunidade, sendo ela constituída por uma diversidade radicalizada e incontrolada? Que espírito de vínculo existe se não há uma lusofonia, mas lusofonias, no plural? Talvez esteja aqui a chave de leitura para o desafio de sua compreensão, ou seja, são exatamente essas diferenças e diversidades que nos une com qualidade, e não uma unidade linguística supostamente rígida e comum.

O exemplo mais nítido desse processo está entre nós: a própria língua portuguesa. Ora, as expressões em português em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste (países da língua oficial) são abundantemente heterogêneas, valorosas, criativas e elas não comprometem o português, muito ao contrário.

Ora, se José Saramago diz que não há uma língua portuguesa, mas línguas em português, temos, assim, várias lusofonias e que nos desafia a pensar, permanentemente, nas riquezas das diferenças, nos valores das diversidades como objetos de unidade.

Descarregar artigo em PDF:

Download PDF

Partilhar este artigo:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

TAGS

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

LOGIN

REGISTAR

[wpuf_profile type="registration" id="5754"]