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‘Almost no surprises!’: saíram as indicações ao Oscar 2026. E daí?

‘Almost no surprises!’: saíram as indicações ao Oscar 2026. E daí?

Antes da disponibilização da atual pletora de serviços de ‘streamings’, o que induziu uma aguardada crise no modo como consumíamos TV — seja ela aberta ou fechada —, os cinéfilos de todo o mundo aguardavam com ansiedade a divulgação dos indicados ao Oscar. A cerimônia de premiação, televisionada desde 1953, era um grande evento, no qual a entrega dos troféus em si não era tão relevante quanto a emoção de acompanhar os discursos, as apresentações musicais e os recorrentes videoclipes com trechos de filmes. Hoje em dia, a premiação obedece a uma cadência maquínica, em que tudo acontece às pressas, enquanto os intervalos comerciais são maiores que os segmentos da transmissão: a entrega de láureas interessa muito mais aos estabelecimentos de apostas pagas que àqueles que insistem em ter a presunção de que os filmes indicados/premiados são efetivamente os “melhores” daquela temporada. A audiência ao Oscar decai ano após ano…

Seja como for, a divulgação dos indicados ao Oscar 2026, ocorrida em 22 de janeiro de 2026, despertou expectativas nos brasileiros, acerca de quais categorias o longa-metragem “O Agente Secreto” (2025, de Kleber Mendonça Filho) seria lembrado. Já falamos sobre ele aqui e aqui, de modo que celebramos o feito, em termos industriais, para o cinema nacional, visto que a produção brasileira foi nomeada em quatro categorias [Filme, Ator (Wagner Moura), Filme Internacional e a recém-criada Seleção de Elenco]. Porém, conforme esperado, os filmes mais celebrados foram as produções estadunidenses “Pecadores” (2025, de Ryan Coogler) — com o recorde de dezesseis indicações — e “Uma Batalha Após a Outra” (2025, de Paul Thomas Anderson), nomeado a treze categorias, além do vencedor de Globo de Ouro — Drama, “Hamnet — A Vida Antes de Hamlet” (2025, de Chloe Zhao), com oito indicações. Tudo indica que a concessão do principal prêmio da noite acontecerá entre um desses três filmes, que já foram sobremaneira reconhecidos em premiações anteriores. As certezas da noite de 15 de março de 2026, quando acontecerá a cerimônia: o contemplado com o prêmio de Melhor Direção será Paul Thomas Anderson, enquanto Jessie Bukley receberá o troféu de melhor interpretação feminina (pelo citado “Hamnet — A Vida Antes de Hamlet”) e o jovem Timothée Chalament será exitoso ao conquistar o Oscar de Melhor Ator por “Marty Supreme” (2025, de Josh Safdie), filme indicado a nove estatuetas.

Para quem relembra com nostalgia os bons tempos do Oscar, quando a competição não era mais noticiada que o ‘zeitgest’, recomendamos o documentário “A História do Oscar: os Primeiros 50 Anos (1927–1977)” (1994, de Mark Bozeman) que, através de dez episódios, comenta não apenas os vencedores das principais categorias como traça um panorama histórico e político do que o cinema hollywoodiano representou internacionalmente nas cinco décadas registradas. Ao longo de sete horas e meia de duração, relembramos cenas de filmes, fofocas de bastidores, repercussões das premiações e um tipo de cinefilia orgânica que ressignifica o caráter assaz ideológico das produções norte-americanas. Chama positivamente a atenção o terceiro episódio, que dedica quase uma hora de duração aos filmes produzidos em 1939, considerado “o ano da boa safra”. Aprende-se muito assistindo ao documentário.

Narrado por Ned Lochman e musicado por Phil Kimbrough, este filme — lançado como seriado televisivo, em verdade — insere, em seus créditos finais, a informação de que “não foi nem autorizado nem endossado pela A.M.P.A.S. (Academia de Artes e Ciências Cinematográficas)”, o que explica o tom não-oficial de alguns trechos de filmagens, além de as cenas das produções premiadas serem extraídas de ‘trailers’, em sua maioria. Ainda assim, o cabedal de informações disponibilizado acerca destas primeiras cinqüenta cerimônias é abundante, fazendo com que o documentário possua apelo didático para quem se interessa pelo impacto da Sétima Arte nas decisões comerciais das nações, por exemplo. Os títulos dos episódios, no que tange às classificações de cada período, são deveras precisos: “A Era de Ouro (1933–1938)”, “Hollywood Vai Para a Guerra (1940–1945)”, “Um Método e uma Mensagem (1949–1951)” e “Os Filmes Épicos (1956–1959)” são alguns deles.

Voltando para a safra atual: mesmo que estejamos insatisfeitos com a qualidade dos filmes indicados, podemos encontrar válidas abordagens políticas em seus roteiros, como a sátira sobre o envelhecimento do elã revolucionário em “Uma Batalha Após a Outra”; o empoderamento afro-americano através da música, em “Pecadores”; uma denúncia vigorosa das torturas em “Foi Apenas um Acidente” (2025, de Jafar Panahi), indicado a dois prêmios; ou a rememoração das violentas perseguições ditatoriais, em “O Agente Secreto”. Temos, além destes: a exposição das trapaças associadas ao ideário do “sonho americano” em “Marty Supreme”; a associação entre poderio econômico e destruição planetária em “Bugonia” (2025, de Yorgos Lanthimos), nomeado em quatro categorias; e o questionamento dos sofrimentos pessoais por detrás de grandes obras cinematográficas, em “Valor Sentimental” (2025, de Joachim Trrier), contemplado com nove indicações, para mencionar alguns dos títulos lembrados na principal categoria. Infelizmente, dois ótimos filmes estadunidenses foram ignorados no anúncio: “Depois da Caçada” (2025, de Luca Guadagnino) e “Luta de Classes” (2025, de Spike Lee). O primeiro aborda uma denúncia de assécio sexual ocorrida em ambiente acadêmico, com diversos atravessamentos de gênero, raça e classe social, enquanto o segundo é uma atualização de um clássico japonês [“Céu e Inferno” (1963, de Akira Kurosawa)], com atravessamentos discursivos semelhantes, numa trama que supera as convenções iniciais de filme sobre sequestro. Estas são as nossas reprimendas quanto às indicações recém-divulgadas. Que venha a cerimônia e que vençam os indicados previsíveis…

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: ‘print’ de tela do anúncio dos indicados ao Oscar 2026, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=ZaLpXqSoTlE

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