Na tarde do dia 06 de junho de 2025, uma sexta-feira, como parte da programação associada à décima sexta edição do Unimídia, evento anual do curso de Comunicação Social — Midialogia, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), no Estado brasileiro de São Paulo, três críticos reuniram-se num debate sobre as suas atividades profissionais: Juliano Gomes, Marcelo Hessel e Rian Oliveira. Cada um deles possui afinidades com públicos distintos: o primeiro é editor da revista Cinética, e sobremaneira admirado pelos fãs de filmes contra-hegemônicos e de produções advindas de nacionalidades inóspitas e/ou vinculadas a esquemas distributivos paralelos; o segundo é co-fundador do ‘site’ Omelete, e um modelo para quem possui formação universitária e deseja se estabelecer devidamente no mercado de trabalho; e o terceiro é um chamariz neogeracional, famoso por divulgar uma página de chistes cinematográficos, conhecida como Hulk Cinéfilo.
Ao longo de duas horas, os críticos supramencionados expuseram detalhes de suas trajetórias e preferências, além de responderem às perguntas da platéia e, numa demonstração metonímica mui efetiva do panorama cinefílico contemporâneo, estimularam-nos a utilizar este debate como ponto de partida para uma reflexão sobre tendências que não deveriam ser excludentes, mas sim complementares: afinal, na idealização orgânica de um espectador versátil de cinema, pode-se apreciar tanto produções herméticas do Sudeste Asiático ou das ex-repúblicas soviéticas quanto alguns lançamentos hollywoodianos, o que vale também para o ambiente de apreciação cineclubista, já que diversas opções de programação são amplamente disponibilizadas, hoje em dia, graças à facilidade de encontrar os arquivos fílmicos na Internet…
Por ser assaz maduro (em mais de um sentido), Juliano Gomes insiste numa perspectiva historicizada, em suas intervenções no debate, destacando como se tornou crítico, após ter contato com exibições alternativas de filmes ‘cult’, no Rio de Janeiro do início do Século XXI. Ele refere-se às videolocadoras como ambientes de “formação de repertório” e defende metodologias consideradas obsoletas, como escrever à mão e opor-se explicitamente ao “jornalismo cultural de consumo”, assumindo que ele e seus companheiros são “péssimos em ganhar dinheiro”. Acrescenta ele, noutro momento: “as microdopaminas diminuíram o tomo geral do desejo”, chamando a atenção para um conformismo espectatorial, que recusa enfrentamentos mais complexos e menos egóicos.
Destacamos estas falas porque, em termos de influência, Juliano Gomes é bastante assertivo em sua politização das escolhas cinematográficas que fazemos, sendo particularmente interessante acompanhar as suas reações corporais durante o debate, quando não estava se pronunciando oralmente. Não faremos elucubrações acerca destes gestos — ainda que tenhamos as nossas próprias interpretações e concordâncias —, pois recomendamos a audiência completa à transmissão da referida palestra, disponível no canal de YouTube do Unimídia, porém declaramos a nossa adesão à fala do crítico, quando ele afirma que, ao estudar para apresentar algum título numa exibição cineclubista, apende-se muito mais, em termos pragmáticos, que através dos exercícios da graduação.
Com isso, passamos às observações acerca das falas dos outros dois convidados, que atuaram como estímulos presenciais para os integrantes mais jovens da plateia, já que tanto Marcelo Hessel quanto Rian Oliveira são bastante atuantes nas redes sociais, como Twitter e Instagram. Não por acaso, quando recomendou que um colega fosse convidado a palestrar, numa edição posterior do evento, o avatar humano do Hulk Cinéfilo enfatizou o seu número de seguidores, ao invés de alguma tendência curricular específica. Graduando em História, Rian Oliveira declarou-se influenciado pelo crítico lusitano João Bénard da Costa [1935–2009] e escolheu “Johnny Guitar” (1954, de Nicholas Ray) como seu filme favorito, não obstante a página virtual que representa ser dedicada às caricaturas de cinéfilos arrogantes, ao invés de textos mais elaborados. Marcelo Hessel, por sua vez, partiu de um comentário sobre o declínio qualitativo do cinema norte-americano da última década para exortar “novas maneiras de se apaixonar pelo que faz”, sintetizando aspectos das atividades de críticos atrelados a órgãos tradicionais de imprensa, que migraram das “indicações de finais de semana”, nos jornais impressos, para as discussões conjuntas em vídeo — em formato de ‘podcast’, por exemplo. Para além de qualquer discordância acerca de comentários eventuais dos falantes, este debate foi uma demonstração magistral do escopo expandido de intervenções críticas na contemporaneidade. Voltaremos a algumas das situações comentadas em nossa prática hebdomadária, eis uma garantia!
Wesley Pereira de Castro.
Crédito da imagem: ‘print’ de tela, efetuado pelo autor do artigo, durante audiência televisiva à palestra disponibilizada em https://www.youtube.com/watch?v=HB1TWq9Q1ds



