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“A Bahia está órfã – e a cabeça branca vai rolar!”, ou de quando o cinema combate (e contamina-nos com o mais sincero afeto)

“A Bahia está órfã – e a cabeça branca vai rolar!”, ou de quando o cinema combate (e contamina-nos com o mais sincero afeto)

Este texto será uma declaração de amor. Aliás, ele é, verno no presente perpétuo. E há amores que surgem da revolta, da necessidade de reagir à malevolência. É o que se pode dizer, para alguns, do violentíssimo curta-metragem “O Fim do Homem Cordial” (2004, de Daniel Lisboa), que dura menos de três minutos, mas causou um rebuliço no panorama nordestino brasileiro, quando lançado. O título, aliás, faz referência a um conceito adotado pelo historiador e sociólogo brasileiro Sérgio Buarque de Holanda [1902-1982], no livro “Raízes do Brasil”, que serviu como compreensão expandida para traços de personalidade que se associaram ao “jeitinho brasileiro”, como a generosidade, o caráter hospitaleiro e as emoções excessivas. Isto explica a sujeição ao colonialismo?

O curta-metragem supracitado rejeita isto de maneira frontal, inspirando-se nos experimentos do ‘Cine de La Base’ argentino, capitaneado pelo realizador militante Raymundo Gleyzer [1941-1976], que foi seqüestrado e torturado por causa de suas atividades cinematográficas de guerrilha. Pensar e agir são verbos que incomodam os ditadores, pois preocupam quem deseja legitimar-se no poder, subtraindo, assim, os anseios políticos e as manifestações individuais da população. É imperativo resistir, sobretudo contra os Aparelhos Ideológicos de Estado, que encontram nos meios de comunicação de massa a ferramente adequada para a inoculação do veneno da paralisia pensamental…

O filme em questão inicia-se com o que parece uma simples transmissão telejornalística, um padrão cotidiano, no qual os apresentadores sorriem enquanto mencionam notícias eventualmente terríveis, sobre “tragédias” que poderiam ser evitadas se houvesse um legítimo incremento governamental em medidas de valorização à vida em comunidade. Na tela, um horário: meio-dia, oito minutos, quarenta segundos. A manchete: “a Bahia está chocada!”. Segundo o apresentador, depois de cinco dias longos de agonia, um grupo considerado terrorista (SUB v2.7) assumiu a autoria do seqüestro de um senador. Um detalhe perturbador nesta seqüência inicial: o apresentador fala de trás para a frente!

Cumprindo seu papel institucional de espalhar o medo, o telejornal “Bahia Meio-Dia” exibe imagens do grupo terrorista supracitado, direcionando-se raivosamente à “burguesia”, xingando-os enfaticamente, enquanto o senador é espancado. Aos gritos, o porta-voz dos seqüestradores grita, repetidamente: “acabou, a gente também sabe fazer malvadeza!”. Sua intenção: acabar com os laivos de coronelismo no Estado. O apresentador do telejornal – também “cabeça branca”, conforme reclamado pelos agressores do político – abaixa a cabeça, enquanto uma música em árabe (“El Leila”, do cantor egípcio Amr Diab) é executada e os créditos finais sobem. Somente isso, mas causou um enorme frenesi: no início do Século XXI, o curta-metragem era recorrentemente exibido e debatido nos congressos de estudantes de Comunicação Social…

Para além de qualquer insatisfação (moral, discursiva, formal) quanto ao curta-metragem descrito – que, por exemplo, não é apreciado pelo autor deste texto –, ele foi bastante contributivo na percepção de uma conjuntura cinematográfica lingüisticamente combatente na Bahia contemporânea, onde encontramos os integrantes do Coletivo Urgente de Audiovisual (Cual). Já falamos sobre um deles, Marcus Curvelo, noutra oportunidade. Agora, é o momento de elogiar Ramon Coutinho, cujo longa-metragem “Jamex e o Fim do Medo” (2025) foi objeto de um acaloradíssimo debate na noite de 07 de maio de 2026, em Aracaju, capital do Estado de Sergipe, como parte de sessões especiais promovidas pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), em várias cidades do Brasil. Neste debate, o filme – que aborda os dissabores de uma distopia tropical, Salvadolores, na qual um pintor alternativo atravessa áreas contaminadas para entregar um quadro a um misterioso comprador – foi ovacionado por aquilo que tematiza, na prática: o experimentalismo enquanto ato de resistência; os encontros interpessoais enquanto impulsionadores de sobrevivência; e a especulação imobiliária como sendo o desencadeador-mor do adoecimento urbano. Trata-se de um filme que adota a lisergia afetiva como recuperadora dos apanágios identitários e sentimentais dos personagens, assumindo a lógica da amizade como virtude salvaguardadora. Daí, a importância fundamental de uma festa, ao final, onde encontramos os membros revezados da equipe técnica, realizando as suas funções enquanto atuam no filme. No debate em questão, o mestrando em Cinema e realizador audiovisual Lwidge de Oliveira declarou que “há amor em Sergipe”, por conta das reuniões cineclubistas freqüentes (muitas delas, organizadas e/ou com a participação dele) que acontecem no Estado; a também mestranda Julie Jaeger, baiana, disse que o filme de Ramon Coutinho lhe apresentou a uma “Bahia que ela deseja”, parafraseando o jargão “este é o Brasil que queremos”, utilizado como clichê identitário capitalizado pela Rede Globo de Televisão. O crítico Marcelo Ikeda, patrono do “cinema de garagem”, esteve presente nesta sessão. Eis o que faz validar tudo o que foi mencionado neste artigo: quando amamos o Cinema, amamos, por extensão, as pessoas que o fazem!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: ‘print’ de tela realizado a partir de disponibilização do curta-metragem “O Fim do Homem Cordial” (2004, de Daniel Lisboa) no YouTube, em https://www.youtube.com/watch?v=X9qIwXpLbgc

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