“Se tu não queres dinheiro e poder, o que tu queres?”: em noventa anos, o que mudou no cinema hollywoodiano?

Por causa do incentivo à nostalgia que toma de assalto as redes sociais – o que nunca ocorre por coincidência, atentemos! – , é costume deparar-nos com lamentos sobre a dificuldade em surgir astros cinematográficos tão duradouros quanto os de outrora. Ainda que, em âmbito superficial, o lamento faça sentido, as diretrizes do ‘star system’ traziam consigo nuanças mui desagradáveis de exploração do trabalho artístico e estandardização extrema das personalidades dos atores, que costumavam encarnar papéis semelhantes, muitas vezes ao lado dos mesmos parceiros actanciais. Vide as célebres parcerias, como Ginger Rogers & Fred Astaire, Nelson Eddy & Jeanette MacDonald, Spencer Tracy & Katharine Hepburn ou Errol Flynn & Olivia de Havilland, que, muitas vezes, revelavam-se desarmônicas fora das telas…

Além disso, as prerrogativas do ‘studio system’ faziam com que os componentes fílmicos se combinassem de maneira mecânica, com vistas a um resultado planejado minuciosamente, com pouca abertura à espontaneidade. Os realizadores destacavam-se pela acurácia na execução de tarefas e controle de grandes equipes, não pela autoralidade ou detecção de um “estilo”. Ainda assim, pouco a pouco, eles eram reconhecidos. Mervyn LeRoy [1900-1987], por exemplo, recebeu um Oscar especial (prêmio Memorial Irving G. Thalberg) em 1976 e, hoje, é reconhecido por sua versatilidade, ainda que um de seus maiores sucessos, “Adversidade” (1936), tenha sido indicado a sete prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (A.M.P.A.S.), mas não à categoria de Melhor Direção.

Vencedor dos prêmios de Melhor Fotografia, Melhor Trilha Musical, Melhor Montagem e Melhor Atriz Coadjuvante (para Gale Sondergaard, na primeira edição desta categoria), “Adversidade” é baseado num romance homônimo, “Anthony Adverse”, de Hervey Allen [1889-1949], dividido em três volumes (cada um deles, por sua vez, com três seções): “As Raízes da Árvore”, “O Outro Menino de Bronze” e “O Gêmeo Solitário”. Trata-se de um calhamaço com mais de mil e duzentas páginas, e foi o livro mais vendido nos EUA nos anos de 1933, quando foi lançado, e 1934. Conta a história de um rapaz órfão que, após ser adotado por um mercador, aos dez anos de idade, apaixona-se pela filha da cozinheira da residência daquele que, sem que ele soubesse, era o seu avô.

Interpretado por Frederic March [1897-1975], Anthony Adverse reivindica, no desfecho do filme, a honra de ter adquirido uma mente, uma alma e um coração, a partir de três influências basilares em sua vida, dois párocos e a mulher por quem se apaixona. A adaptação cinematográfica desconsidera a última das nove seções do romance, quando o protagonista se estabelece comercialmente nos Estados Unidos da América, mas, ainda assim, é impregnado da ideologia colonial deste país, travestida em seu ideário histórico europeu: tudo se inicia no final do século XVIII, quando descobrimos como ocorreu a concepção deste personagem, enquanto flerte adúltero. Sua mãe foi entregue em casamento a um cruel marquês, Don Louis (Claude Rains), mas permanece apaixonada por um rapaz com quem tem encontros fortuitos. Após a descoberta deste caso, Don Louis assassina o seu pretendente, numa luta de espadas, e deixa o pequeno Anthony num convento, até que ele seja convenientemente entregue ao mercador John Bonnyfeather (Edmund Gwenn), como aprendiz, onde apaixonar-se-á por Angela (Olivia de Havilland). Mas diversas reviravoltas acontecerão até que eles possam consumar o seu amor: enquanto ela consagra-se como cantora de ópera, ele tornar-se-á um mercador de escravos, viajando para Cuba e para um país indeterminado da África, onde “adoece de corpo e na alma”, conforme aparece num letreiro…

Deveras assemelhado a tantas produções de aventuras daquele período, o que fez com que este filme fizesse tanto sucesso – a partir da consagração da trama literária que lhe serviu de base – foi o exotismo de sua encenação, visto que as situações acontecem em diversos países, num período histórico que tematizava, elipticamente, tanto a independência das colônias norte-americanas quanto a Revolução Francesa, em 1789. O próprio Napoleão Bonaparte (Rollo Lloyd) surge enquanto personagem, deslumbrado pela beleza de Angela e provocando o ciúme do protagonista. Em que uma trama como esta é diferida dos enredos que são lançados hoje em dia? Numa constatação imediata, notamos que os romances de capa-e-espada não obtêm atenção dos públicos contemporâneos. As tramas históricas, idem. As superproduções são investimentos cada vez mais arriscados – e, por isso mesmo, formulaicos – e investem sobremaneira em clímaces de ação, acumulados de maneira incoesa, com vistas a interações com as platéias que se assemelham às participações em jogos eletrônicos. Os astros são meros avatares funcionais e os indicados e vencedores do Oscar são logo esquecidos. O que mudou em noventa anos? Ou especificamente por que mudou? O que interessa aos espectadores de cinema, hoje em dia? Quando convidado para ir ao teatro, Anthony Adverse responde: “não sou um homem de lazer, tenho muito trabalho a fazer”. É importantíssimo (re)ver os clássicos!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: https://en.notrecinema.com/communaute/v1_detail_film.php3?lefilm=7750

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