“O prato que eu vi do Lula foi uma comestia boa (maçã, uva, pêra). Não foi arma!”: uma declaração cinematográfica de voto!

Para proteger os eleitores de ameaças e/ou imposições, a declaração de voto, no Brasil, é secreta, enquanto direito. Infelizmente, isso não impede que continuem a acontecer os assédios relacionados ao “voto de cabresto” – sobretudo no Nordeste –, de modo que a venda de votos ainda é prática comum: ganhou-se um saco de cimento de algum candidato, o votante humilde retribui desistindo de um direito inalienável. E isso se estende em diversos âmbitos, seja através das personalidades da TV ou da internet que resolvem se candidatar a cargos públicos, seja através das chantagens religiosas de pastores evangélicos. O traço quantitativo dos procedimentos democráticos é atravessado por este tipo de suborno – e, mesmo assim, o Brasil está francamente polarizado entre duas tendências: de um lado, os defensores e apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva, prestes a competir pela Presidência da República pela quarta vez; do outro, quem é filiado ao projeto de destruição do bolsonarismo. Há também outros candidatos, que são obrigados a posicionarem-se a favor de uma ou outra tendência no segundo turno eleitoral.

No dia 23 de agosto de 2026, estava programado um debate com os candidatos presidenciáveis do Brasil, num canal aberto. Os dois principais concorrentes não puderam estar presentes, mas seus nomes foram amplamente citados: houve quem defendesse um “banho de sangue para a bandidagem”, por exemplo. Como de praxe, os candidatos de direita precisam radicalizar o discurso apoiado na raiva que decorre do medo, estimulando a desumanização. Poucos dias depois, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro, os dois principais oponentes, foram entrevistados pela Rede Globo de Televisão. As perguntas dos jornalistas priorizavam as suspeitas de corrupção relacionadas a pessoas diretamente relacionadas aos candidatos. As propostas governamentais revelaram-se secundárias, embutidas em seus respectivos projetos de oposição. Não há uma escolha efetiva em si, mas uma necessidade premente de sobrevivência.

É neste contexto que o documentário “Não Existe Almoço Grátis” (2023, de Marcos Nepomuceno & Pedro Charbel) estréia nos cinemas, depois de receber um prêmio de Público e uma Menção Honrosa do Júri Oficial na quinquagésima sexta edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. E é assaz oportuna esta estréia, no sentido de que, apesar de não ser inventivo em termos de linguagem cinematográfica, este filme defende um senso de trabalho comunitário e esforço coletivo que tem tudo a ver com aquilo em que acreditamos, em termos de organicidade política: o registro inicia-se em 29 de dezembro de 2022, quando faltavam três dias para a cerimônia de posse do presidente Lula, que fôra eleito naquele ano. E acompanhamos os cotidianos de três cozinheiras, designadas para preparar refeições para os militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que se dirigiam, em caravanas, para Brasília, a fim de acompanharem aquele evento histórico…

Moradoras da Favela Sol Nascente, no Distrito Federal – anunciada, num letreiro, como “a maior favela do Brasil” – estas mulheres dedicam-se à luta cotidiana por moradia e trabalham num estabelecimento que fornece refeições solidárias para os trabalhadores desta localidade. Uma delas, Jurailde, é evangélica, mas orgulha-se de sua ascendência indígena, explicando assim o seu fascínio pela terra e pelo conhecimento de chás. Na primeira seqüência, ela enfia as mãos na terra e recomenda que equipe e espectadores do filme façam o mesmo, nalgum momento de suas vidas, reiterando o quão terapêutica é esta atitude. Ela sente muito orgulho de sua família e cozinha com satisfação, tanto quanto o fazem as outras duas companheiras, Socorro e Bizza. A primeira, aliás, a despeito das dificuldades que enfrentou desde que migrou do Nordeste, não abdica de alguns pequenos caprichos, como evitar tomar café em copos de plástico. Idem quanto ao vinho: “quem compra a garrafa, deve também comprar as taças”. Seu sorriso freqüente é contagiante!

Mas é Bizza que, de maneira espontânea, assume algum protagonismo no filme: sobremaneira atuante e decidida, ela surpreende quando confessa que, nas eleições de 2018, votou em Jair Bolsonaro. Utiliza a própria trajetória como exemplo de conscientização política, e não hesita em tomar a dianteira nas ações que privilegiam o bem-estar das pessoas que estão ao seu lado: “sozinhas, não somos ouvidas pelo Governo. Em grupo, sim”, diz ela, ao também confessar que, às vezes, ocorrem brigas entre as companheiras, logo sanadas porque, afinal, há um projeto maior que as unifica, de modo que deve-se abdicar de discordâncias esporádicas. Elas trabalham em turnos contínuos nos dois dias finais do ano, a fim de garantir as refeições necessárias para quem prestigiará a cerimônia de posse. Durante o ‘revéillon’, elas ainda estão organizando as quentinhas, enquanto a equipe do filme testemunha a tudo de maneira respeitosa, sendo eventualmente interpelada pela gentileza das mulheres, que oferece café em qualquer oportunidade. No tarde de 01 de janeiro de 2023, o discurso presidencial é acompanhado com expectativas e muitos aplausos, o que serve como impulso para que nós, em 2026, concordemos plenamente com aquilo que foi publicizado pela atriz Dani Nefussi, em seu perfil pessoal no Facebook: “não é mais tempo de ficar justificando, porque votar no Lula (ou qualquer outra esquerda) é impedir que a família Bolsonaro, a direita, o sionismo, e o imperialismo nos roubem o país. Ninguém está ignorante de quem são as pessoas candidatas. (…) Qualquer voto do centro à direita põe em risco a minha vida, da minha família, da minha comunidade religiosa, da minha comunidade política, do meu povo, do meu país. Então, é Lula sem negociação”. Este é também o nosso posicionamento, e o filme ora resenhado incita a nossa decisão. Vejam-no nos cinemas, portanto!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em: https://i.ytimg.com/vi/Mrszx9R0RrQ/maxresdefault.jpg

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