“Quando foi a última vez que te masturbaste no banho, debaixo do chuveiro?” (o cotidiano, a beleza, a circunstancialidade, os efeitos colaterais: uma reflexão)

Numa tarde de quarta-feira como qualquer outra, a pergunta acima foi disparada, via SMS, para alguns usuários, através de um instituto improvisado de pesquisas sobre o dia-a-dia. Nas respostas recebidas, surpreendeu a quantidade de pessoas que tinham afirmado que acabaram de se masturbar, justamente durante o banho. É uma prática corriqueira, mas não abordada com naturalidade em análises comportamentais de interesse sociológico ou psicológico: quando o assunto surge em conversas ou produções artísticas e de entretenimento, o enfoque tende a ser zombeteiro, eventualmente demeritório. Como se a masturbação, por mais corriqueira (e fisiológica) que seja, estivesse atrelada a alguma falha de caráter ou assunção parafílica…

Esta percepção não é casual: em razão dos códigos internos de (auto)censura – transmitidos como “etiqueta social” –, algumas discussões são negligenciadas ou evitadas, no afã por cumprirem o programa lucrativo de adoecimento sob o Capitalismo. No caso da masturbação, tão acessível enquanto método de relaxamento, houve uma hábil conversão em tabu, por parte de religiões que, precisamente por constatarem a sua facilidade, tornaram-na um pecado. Tem algo mais funcional, em termos de implantação da culpa, que fazer com que algo que pode acontecer a qualquer instante seja merecedor de punição – pior: uma punição que vem “dos céus”? Ao mesmo tempo, multiplicam-se as psicopatias: quanto mais se reprime os desejos, mais eles explodem como tumores societais, geralmente em faceta criminosa. Repetimos: tudo isso faz parte do projeto capitalista!

Para quem acompanha semanalmente esta coluna, dedicada prioritariamente às resenhas de filmes e análises eventuais sobre o agendamento midiático, pode parecer estranho que tal tema seja abordado em formato de crônica, num texto genericamente mais “livre”. Porém, este tipo de discussão atravessa perpendicularmente todos os nossos escritos, confirmando a alegação freudiana de que tropos vinculados ao sexo e à morte estão contidos nas interações elementares entre os indivíduos: de um lado, a necessidade de adiar o nosso desaparecimento, a esperança de legar algo para as futuras gerações, à guisa de exemplo; do outro, a vontade de gozar, de satisfazer outrem e de satisfazer a si mesmos. Como reagiriam os humanos, em suas tarefas diuturnas, se pusessem em prática aquilo que fazem os macacos bonobos? Para resolver uma briga, que tal sexo? Se estamos chateados com algo, sexo. Tem-se algo para comemorar? Hora da suruba, então. Mediante consentimento, obviamente (o que é quase um pleonasmo, pois sexo sem consentimento é estupro!). Enquanto isto não é possível – e, mais uma vez, Sigmund Freud [1856-1939] explica muito bem o porquê em “O Mal Estar na Civilização”, escrito em 1929 –, recorramos sem vergonha à masturbação. E conversemos sobre isto!

Transladando tais reflexões para um exemplo fílmico, falamos sobre “A Paixão Segundo G.H.B.” (2026, de Gustavo Vinagre & Vinícius Couto), exibido na seção Novos Olhares da décima quinta edição do Festival Internacional de Curitiba, Olhar de Cinema, que ocorreu entre 04 e 13 de junho de 2026. No longa-metragem em pauta, que parafraseia o título do romance “A Paixão Segundo GH”, de Clarice Lispector – que surge como aporte psicanalítico –, o protagonista é recém-chegado de Portugal e está vivendo em São Paulo, onde costuma relacionar-se com homens que conhece através de um aplicativo destinado a encontros sexuais. Paradoxalmente, o orgasmo é menos desejado, nestes encontros, que o prazer induzido pelo consumo desenfreado de substâncias químicas – algumas delas, injetáveis. A euforia toxicomaníaca instaura-se como substituto vendável e imediato do gozo, o que traz consigo alguns inevitáveis efeitos colaterais.

Sem que incorram na perspetiva julgamental – afinal, eles retratam algo praticado por eles próprios e por amigos comuns –, os diretores inserem o depoimento de um trabalhador negro e homossexual que, por causa da euforia advinda destes encontros, tornou-se progressivamente viciado em metanfetamina e outras substâncias, o que fez com que ele tentasse se suicidar, em mais de uma oportunidade. O que, na maior parte da duração do filme, parece uma celebração do “prazer sem limites” revela-se, em verdade, um recorte analítico sobre as condições de classe daqueles consumidores de substâncias ilícitas, que utilizam as “drogas da moda” de maneira desenfreada, o que ocasiona a overdose de um dos personagens (interpretado por Igor Mo). É interessante, neste sentido, como o livro mencionado aparece na trama, ora lido pelos personagens, ora através da encarnação da protagonista metalingüística (vivificada por Christiane Tricerri), que surge como terapeuta: os devaneios da personagem acronímica funcionam como uma espécie de comentário sobre o vazio experimentado pelos amantes – que, numa estratégia sagaz da direção, inalam literalmente o nada, já que as drogas não são visíveis –, metonimizado nos trechos lidos durante as penetrações e felações. Não é preciso repetir o ato de mastigar uma barata, como acontece no romance, pois isto significaria “ir para o chão”, experimentar uma sensação desagradabilíssima após momentos de aflição. Eis o que o Capitalismo deseja para nós, mediante anulação dos prazeres, seja via proibição, seja através do excesso automático de consumo. A propósito: quando foi a última vez em que tu te masturbaste no banho?

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: ‘print’ de tela do ‘trailer’ do filme, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=xkIkDIKWfQU

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