Penso que não será exagerado dizer que a grande maioria das pessoas, mesmo aquelas que não estão minimamente sensibilizadas para as questões ambientais, já perceberam que o plástico, lato sensu, é um problema para a nossa sociedade, e com tendência para se agravar.
Felizmente, a grande quantidade de notícias a circular sobre este assunto vai alertando até os mais cépticos: mares de plástico, ilhas de plástico, lixeiras de plástico, espécies animais mortas pelo plástico (directa ou indirectamente), expressões e imagens que fazem parte do quotidiano e que mostram os efeitos do excesso de plástico no ambiente, e o descontrolo na gestão destes resíduos. Se o problema está em “nós”, espécie humana (também em sentido lato), também em nós estará a solução, e que passa, naturalmente, por mudanças nos nossos hábitos.
Apesar da elevada capacidade de mudança que a humanidade tem sempre demonstrado ao longo de séculos consecutivos, e que nos permite estar hoje aqui como espécie dominante (seremos a espécie dominante?! – é tema para outro artigo…), não menos demonstrável é a resistência à mudança, aquilo a que está na moda chamar-se a “zona de conforto”, ou ainda a “lei do menor esforço”, ou de um modo mais pacífico: estabilidade. Na verdade, talvez seja neste equilíbrio fino entre mudança e estabilidade que as sociedades assentam. Uma boa maneira de gerar mudança é criar leis, e quanto mais punitivas forem mais rapidamente se aplicam, porque as infracções à lei “pesam”. Neste nosso velho continente, a lei da punição mede-se pelo dinheiro, e uma lei será tanto mais punitiva quanto maior for a coima associada ao seu incumprimento. E isto resulta, porque o dinheiro custa a ganhar, mas custa ainda mais a ser gasto, nomeadamente se for em coimas…
Contudo, se estivermos à espera da força de argumentos, de pensamentos, de boas vontades, e de sensibilidades, bem podemos esperar sentados pois nada acontece. A dor e a guerra são sempre mais mobilizadoras do que o bem-estar e a paz…
Há meses que se conhece a directiva da União Europeia (EU) que visa proibir o uso de plásticos descartáveis, com efeitos a partir de 2021. E, como bons membros da EU que somos, Portugal, vamos transpor esta directiva para a nossa lei. A notícia que inspira este artigo, e que surgiu nos últimos dias, anuncia que o governo Português decidiu antecipar-se a este prazo. Portanto, desta vez, e ao contrário do costume, vamos andar à frente da Europa e proibir o plástico descartável seis meses antes (pelo menos!) dos restantes países da União Europeia, que são 28 (incluindo o Reino Unido, que entre o sai e fica vai contando…).
Vamos a datas: Portugal Julho de 2020, UE 2021. Que orgulho em ser Português! Até diria que não há tanta pressa em outros assuntos, quiçá mais importantes (parece-me, por exemplo, que o assunto da limpeza de matas e florestas parece algo esquecido este ano, quando ainda há poucos dias se atingiram valores de temperatura de 26 graus Celsius, em pleno Inverno…), mas não quero ser mal interpretado e portanto acho muito bem que estejamos à frente de todos no que concerne à sustentabilidade e gestão de resíduos, pois no fundo é disto que se trata, certo? Estarmos em ano de eleições é pura coincidência, certo? Serem as eleições europeias as que se seguem é obra do acaso, certo? Certamente… Convenhamos que, dum ponto de vista prático, esta diferença de 6 meses é irrelevante mas convenhamos também que esta é uma boa notícia para o ambiente de Portugal, da Europa, e de todo o Mundo.
Começa-se a discorrer sobre política e é contagiante falar-se muito e dizer-se pouco; sendo cientista, comecemos por esclarecer as bases como o óbvio e fundamental ponto de partida: o que é o plástico? Penso que toda a gente tem uma noção prática do que é o plástico, por ser algo tão presente nas nossas vidas, e a abrangência de plásticos existente torna difícil uma definição concreta, mas podemos dizer que os plásticos são compostos orgânicos moldáveis (ou seja, com plasticidade, e esta pode-se definir como uma deformação irreversível por aplicação de uma força). Trocando por miúdos: um plástico é um material que vai para um molde, adquire a forma em que é moldado e consegue mantê-la. Simples. Etimologicamente falando, e porque as palavras também falam quando são lidas, plástico tem origem no grego plastikos que significa, exactamente, aquilo que pode ser moldado. Já brincaram com plasticina? O nome é parecido? Não é por acaso: brincar com plasticina é, somente, moldar (o que, sendo simples, não é pouca coisa).
A diversidade de plásticos, a facilidade de fabrico e o baixo custo levaram à sua ampla difusão, nomeadamente ao longo do século XX. Os exemplos de plásticos são, de facto, imensos: acrílico, baquelite, fórmica, nylon, poliéster, silicone, … . Das várias divisões possíveis neste grande grupo, podemos pensar em duas “tendências”: os plásticos mais baratos e produzidos em maiores quantidades, com características termofixas (origem num material líquido com o objectivo de ser moldado numa forma fixa final, geralmente de difícil reciclagem, como a baquelite) e plásticos mais caros, produzidos em menor quantidade, com características termoplásticas (de um modo geral mais moldáveis e menos estáveis, portanto mais recicláveis).
O primeiro grupo compreende os candidatos ideais para a descartabilidade, como por exemplo as garrafas de plástico PET – o poliéster. Os problemas começaram a surgir quando se verificou que estes plásticos, usados em grande escala, pouco recicláveis, e frequentemente descartáveis, se acumulam no ambiente (e acumulam-se a um ritmo elevado e preocupante), com várias consequências indesejáveis, desde as questões estéticas às de saúde ambiental e pública. Parece bastante necessário acabar com esta praga, e limitar o uso de plásticos descartáveis – neste sentido, a directiva da UE parece-me totalmente acertada. Espero que não fiquemos por aqui, e que se sucedam outras medidas que ajudem a reduzir o plástico no ambiente, assim como outros materiais cuja sustentabilidade e reciclagem são ineficazes ou inexistentes.
Para concluir, a minha opinião é que 2021 pode ser, efectivamente, o começo do fim do plástico descartável, embora me pareça mais razoável pensar que será o começo de um longo caminho de necessárias mudanças de hábitos de consumo, e acima de tudo de mentalidades. Se a questão for, contudo, se o plástico vai acabar, a minha resposta é um rotundo não. E como ecologista moderado, a minha opinião é que não faz sentido o plástico acabar, não abruptamente, não nos próximos anos, embora seja desejável acabar com o plástico – o que, na prática, considero impossível excepto em caso de hecatombe…
Coloque-se a tónica na redução de materiais – plásticos ou outros -, seguida da reutilização dos mesmos e só por fim a reciclagem. Não esqueçamos também os plásticos biodegradáveis, que se deverão generalizar e substituir os que entrarão em desuso por força da lei, além da redescoberta dos materiais substituídos pelos plásticos descartáveis. Aumente-se o investimento na investigação cientifico-tecnológica, que pode encontrar meios para reciclar o que hoje não é reciclável, e que descobrirá novos materiais de uso sustentável, além do aumento da eficiência dos materiais e processos actuais. O planeta, que é só um, e é o melhor que temos, agradecerá todas estas atenções.
A foto desta semana, para os mais curiosos, é um semáforo verde visto de perto: assim esteja aberto o caminho para uma sociedade mais “verde” e sustentável.
Nota: o autor opta por não seguir o Acordo Ortográfico de 1990.



