Quando foi noticiado, em dezembro de 2025, que a empresa Netflix comprara a produtora/distribuidora Warner Bros. e o serviço de ‘streaming’ HBO-Max, os fãs de cinema ficaram amedrontados: o que periga acontecer a um dos acervos cinematográficos mais variados e representativos, ao mesmo em que se pergunta como esta aquisição interferirá nos modos de produção de conteúdos audiovisuais característicos de ambas as produtoras, visto que a Netflix é acostumada a um modo de produção enredístico automatizado, centrado nas fórmulas de geração de expectativa, enquanto o canal HBO é responsável por um “padrão de qualidade” deveras singular, cada vez mais reconhecido por público e crítica, a ponto de suas produções eventualmente serem citadas em listas de “melhores filmes do ano”. Eis um assunto que merece o nosso acompanhamento…
Paralelamente a esta preocupação assimiladora, deparamo-nos com as recorrentes mazelas do agendamento midiático, em que há o estímulo noticioso intencional às produções mal-feitas, que geram engajamento de público, justamente por serem ruins. Como estas são frequentemente citadas, à guisa de exposição dos defeitos, no Twitter e em outras redes sociais, elas costumam ficar em primeiro lugar entre as produções mais vistas das plataformas de ‘streaming’. Destacamos o exemplo da série “Stranger Things”, na Netflix, que usurpa referências oitentistas, as imita enquanto arremedos de sagas famosas, não desenvolve adequadamente os seus personagens e, ainda assim, não raro está entre os ‘trend topics’ da semana…
Uma grata surpresa, entre os assuntos recorrentes deste final de ano, foi a produção disponibilizada pela Apple TV, “Pluribus”, do mesmo criador da consagrada série “Breaking Bad”, Vince Gilligan. Em apenas nove episódios – alguns deles dirigidos por ele próprio –, acompanhamos o dilema da escritora Carol Sturka (Rhea Seehorn), que, de repente, percebe-se isolada num mundo em que os seres humanos foram contaminados por um vírus alienígena, que os conjuga numa unidade integrada, em que todas as pessoas experimentam as mesmas sensações, ao mesmo tempo, havendo um estímulo programado à desindividualização. Carol é uma das poucas pessoas imunes ao referido vírus e, enquanto é persistentemente assediada pelos alienígenas, que desejam que ela adira ao modelo imposto de felicidade comunal que eles apregoam, tenta compreender o que aconteceu com ela, ao mesmo tempo em que busca saber se existem (e como estão) outras pessoas com a mesma condição de imunidade.
Lésbica e irritadiça, Carol lida com o falecimento súbito de sua esposa Helen (Miriam Shor), que não suportou o processo de contaminação extraterrestre. Elas estavam saindo do lançamento do mais recente livro de Carol, o novo capítulo de uma série romântica de aventuras, cujo personagem principal é um pirata, e cuja aparência física na capa será reproduzida através de uma mensageira recrutada pela entidade alienígena conjugada, a fim de conversar com ela. Trata-se de Zosia (Karolina Wydra), dotada de um conhecimento mais que enciclopédico e que desenvolverá um relacionamento cada vez mais próximo (e suspeitoso) com a protagonista, no afã por convencê-la quanto aos benefícios da ausência de instintos iracundos e da propriedade privada: “lar é onde eu posso pendurar o meu chapéu”, diz ela, em determinado instante, com um indisfarçado sorriso no rosto, quando mostra a Carol onde os seus companheiros “contaminados pela felicidade” dormem, à noite.
Atualizando as referências esperadas a clássicos da ficção científica [“Vampiros de Almas” 1956, de Don Siegel) e “No Mundo de 2020” (1973, de Richard Fleischer), à frente], o roteiro desta série surpreende pelo modo como mantém a atenção do espectador ativa, sem subestimar a nossa inteligência, mesmo em episódios em que apenas Carol está em cena, enfrentando uma solidão crônica, agravada por problemas decorrentes de sua sujeição passada ao vício em substâncias tóxicas e ao trauma de uma tentativa de suicídio. Pouco a pouco, o ponto de partida científico será a deixa para valiosas reflexões dramáticas e para um questionamento político sobre o que nos caracteriza enquanto indivíduos e se é defensável a supressão do livre-arbítrio, quando isto nos leva a cometer erros graves. Vide o instante em que Carol solicita uma granada de mão e é atendida. Há alguns problemas na representação um tanto caricatural de personagens não-estadunidenses, mas, a despeito disso, esta série merece a nossa recomendação, como abertura textual para o ano que se inicia, já repleto de promessas audiovisuais atravessadas pela mesmice, como as inúmeras continuações de filmes de ação, infanto-juvenis ou de terror adolescente. O ciclo recomeça: tópicos pretensamente polêmicos nas redes sociais abundarão. Cabe a nós discutir com seriedade acerca do que oferece algo minimamente diferenciado, principalmente numa narrativa seriada: “Pluribus” é um destes casos.
Wesley Pereira de Castro.
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