Sobre a chacina última orquestrada pelo Estado no Rio de Janeiro, em 28/10.
Flavia Pinheiro Fróes
Marcio Costa Ruzon Xavier
O Brasil vive, desde sua invasão, um revezamento gerencial partidário que, a despeito de um avanço aqui e outro acolá, pune, oprime e mata. E tem alvo certo: minorias e vulneráveis. Motivos? Os de sempre. O lobo troca os pêlos, não os hábitos.
Antônio Conselheiro pregava uma sociedade justa e fraterna no sertão baiano. Essa subversão deu origem à guerra dos Canudos. Buscar a igualdade gera conflito, perseguição e morte pelo Estado.
Foi na Bahia também que ocorreu a Revolta dos Alfaiates, um movimento que lutava pela independência do Brasil, guiados pela Revolução Francesa. Negros escravizados, brancos pobres e artesãos tinham como objetivo uma vida digna, longe da mão pesada da Corte Portuguesa. Resultado? Perseguição e desmantelamento da turba.
Poderíamos investir intermináveis linhas para mostrar que, num país invadido, formado por um povo que veio para cá ser explorado e outro que aqui já estava e teve sua terra e identidade roubadas, era de se esperar que estávamos acendendo um pavio no barril das devoluções.
O que isso tem a ver com a chacina orquestrada pelo Estado do Rio de Janeiro? Tudo! O povo “à margem” precisou criar seu próprio Estado, com leis e equipamentos próprios, para poder sobreviver. O menino que tem a porta da educação, do lazer, da cultura, do esporte fechadas e a do tráfico escancarada, carrega em si esse Antônio Conselheiro, este alfaiate indignado. Quer um mundo que nunca teve, paradoxalmente, que lhe fora roubado. E o que o Estado faz? Como precisa justificar que toda subversão é um crime, escolhe um totem. Antônio Conselheiro era uma ameaça ao fim da mão de obra barata.
Os Alfaiates eram o grito contra os pesados impostos portugueses. A biqueira leva famílias à destruição. O lobo troca os pêlos, não os hábitos. O silenciamento e morte das reações sociais (popularmente conhecidas como “crimes”) não é um caso isolado, tampouco de improviso. Segue uma lógica minuciosamente engendrada para que a manutenção do poder se perpetue nas mãos dos mesmos, no mais do mesmo.
Paixão nossa? Absolutamente! Segundo a Polícia Federal (2024), mais da metade da ALERJ tem envolvimento com o crime organizado. O terno consome a droga, mas ele não fede à vala. E consequentemente, não morre nela.
E nessas mortes do dia 28 de outubro, o Instituto Anjos da Liberdade, incansável na Defesa dos “bandidos não eleitos ou não concursados”, que sempre que há necessidade (como é o caso), bate à porta da Corte Interamericana de Direitos Humanos, tem algumas perguntas a fazer: Se o Estado do Rio de Janeiro alega que houve manipulação do local de crime, fraude processual por parte da população que despiu as vítimas para facilitar seu reconhecimento por algum sinal, tatuagem, visto que estavam desfigurados , o que dizer então das dezenas de corpos nesta e em outras operações, que são empilhados feitos carnes em açougue, sem qualquer preservação do local de crime para perícia?


Se, tradicionalmente, em toda operação policial, o que se apreende são drogas, armas e dinheiro, onde está este último, que até agora ninguém viu? Se uma operação desse tamanho, que levariam horas ou dias para acabar, por que não teve baterias suficientes para manter as câmeras corporais ligadas?
O Secretário da PM disse que nem tudo foi registrado por “falta de bateria”? O Estado tem responsabilidade objetiva por descumprimento de normas, o que então a PM quer esconder? Por que há vítimas com tiros na nuca e outras esfaqueadas? Que tipo de incursão é essa? Por que a ALERJ tentou aprovar, dias antes da operação, a “gratificação faroeste”, que premiaria policiais que neutralizassem mais criminosos? Coincidência? A faxina dos indesejáveis tem uma lógica, (desde Antônio Conselheiro até o cantor de funk) e um motivo: a lógica é inventar a doença. O motivo é vender a cura. O alvo é sempre à margem.
E como diz Bertolt Brecht, que viveu os horrores do nazismo, bem parecido com os campos de concentração das periferias brasileiras: “Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.
Referências:
BARBOSA, F. Antonio Conselheiro incomoda porque, onde há luta, Canudos renasce’, diz historiador do CE. (2023). Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2023/03/11/antonio-conselheiro-incomoda-porque-onde-ha-luta-canudos-renasce-diz-historiador-do-ce/. Acesso em 28.out.25.
COELHO, H. Parte de imagens de câmeras de agentes de megaoperação pode ter se perdido por falta de bateria, diz secretário da PM (2025). Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/10/29/parte-de-imagens-de-cameras-de-agentes-de-megaoperacao-pode-ter-se-perdido-por-falta-de-bateria-diz-secretario-da-pm.ghtml. Acesso em 30.out.25
NUNES, V. Para a PF, metade da Assembleia Legislativa do Rio tem ligação com o crime (2025) Disponível em : https://blogs.correiobraziliense.com.br/vicente/para-a-pf-metade-da-assembleia-legislativa-do-rio-tem-ligacao-com-o-crime/. Acesso em 29.out.25.
ZIBORDI, M. Chacina no Rio é denunciada na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (2025) Disponível em: https://www.terra.com.br/visao-do-corre/pega-a-visao/chacina-no-rio-e-denunciada-na-comissao-interamericana-de-direitos-humanos,7e7c71071425afbc7eece6e912153709yf9qqbsw.html?utm_source=clipboard. Acesso em 30.out.25.


