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Uma canção para a mamãe enquanto hino de vitória: sim, isso é algo absolutamente político!

Uma canção para a mamãe enquanto hino de vitória: sim, isso é algo absolutamente político!

A fim de confirmar a tese de que só conseguimos compreender adequadamente uma obra de arte “fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra”, justificada pelas relações entre a posição do artista, a configuração da própria obra e os caracteres do público, o crítico literário Antônio Cândido [1918-2017] compartilha uma anedota verídica em seu clássico “Literatura e Sociedade”: segundo ele, num concerto ocorrido em Paris, no ano 1837, o compositor Franz Lizst [1811-1886] anunciou a execução de duas peças musicais, uma atribuída ao celebrado Ludwig van Beethoven e outra ao obscuro Johann Peter Pixis. Ocorre que houve uma confusão nos créditos e cada uma das peças foi executada com nomeação invertida. Sendo assim, a platéia cobriu de aplausos aquela que pensava ser a composição beethoveniana, enquanto manifestou desprezo em relação à que achavam que era do tal Pixis. Conclusão do autor: “mesmo quando pensamos ser nós mesmos, somos público, pertencemos a uma massa cujas reações obedecem a condicionantes do momento e do meio”.

No dia 14 de maio de 2022, quando ocorreu a Grande Final da sexagésima sexta edição do concurso de canções Eurovision, a banda ucraniana Kalush Orchestra teve uma vitória esmagadora, com a canção “Stefania”. Apesar de ter ficado em mero quarto lugar após a apuração dos votos dos júris nacionais, a participação do público foi decisiva: mais de quatrocentos pontos foram obtidos através dos televotos, de modo que a diferença entre o primeiro colocado e o segundo (no caso, o candidato do Reino Unido, Sam Ryder, e sua canção “Space Man”) foi acachapante. A Ucrânia ganhou de lavada!

Quando o resultado foi anunciado, não foi algo de todo surpreendente: desde o início que a canção ucraniana era uma das favoritas, mesmo advindo de uma controversa substituição, já que a candidatura de Alina Pash, premiada na seleção nacional do país, foi indeferida [mais detalhes, aqui]. Entretanto, muitos espectadores ficaram chateados, alegando que esta decisão “foi muito mais política que estética”. Ou seja, ter-se-ia privilegiado uma comoção internacional envolvendo a Ucrânia – país em guerra, desde que o seu território foi invadido pela Rússia – ao invés dos apanágios musicais da mesma. Há quem concorde, há quem discorde. Mas reflitamos: há separação entre estes aspectos, no que tange aos critérios levados a cabo pelo concurso?

Deixaremos a pergunta em aberto, enquanto mencionamos alguns dos demais candidatos. De fato, confirmou tanto a ausência de favoritismo do candidato alemão [Malik Harris, com “Rockstars”], que ficou em último lugar, quanto a consagração popular das candidatas da Espanha [Chanel, com “SloMo”], Suécia [Cornelia Jakobs, com “Hold Me Closer”] e Sérvia [Konstrakta, com “In Corpore Sano”], que ficaram respectivamente em terceiro, quarto e quinto lugar. Esta última, após uma virada surpreendente (e merecida) com o recebimento dos votos do público.

Tendo recuperado o interesse mundial da audiência depois que o evento foi descoberto por muitas pessoas durante a quarentena imposta pelo CoronaVírus, o Eurovision ofertou-nos uma valiosa safra este ano: a candidata portuguesa, por exemplo [“Saudade, Saudade”, interpretada por Maro], ficou em nono lugar e emocionou muita gente. Idem para as representantes de Grécia [Amanda Tenfjord, “Die Together”, oitavo lugar], Holanda [S10, “De Diepte”, décimo primeiro lugar], Polônia [Ochman, “The River”, décimo segundo lugar], Austrália [Sheldon Riley, “Not the Same”, décimo quinto lugar], Azerbaijão [Nadir Rustamli, “Fade to Black”, décimo sexto lugar] e Armênia [Rosa Linn, “Snap”, vigésimo lugar]. A dupla escolhida para representar o país anfitrião, Itália, foi o veterano Mahmood e o neófito Blanco, com a inebriante “Brividi”. Ficaram apenas em sexto lugar!

Duas surpresas, uma positiva e outra negativa: no primeiro caso, a consagração numérica da banda da Moldávia, Zdob si Zdub & Advahov Brothers, e seu petardo de ‘gipsy rock’ “Treneletul”, que recebeu mais de duzentos pontos através do televoto, ficando em sétimo lugar; e, no segundo caso, a falta de adesão à bela composição bretã “Fulenn”, da dupla Alvan & Ahez, que ficou em penúltimo lugar, com apenas dezessete pontos. Para muitos dos obcecados pelo evento, esta era uma das melhores e mais criativas canções da noite…

Voltemos a “Stefania”: o que fez com que esta canção, composta em homenagem à mãe de um dos integrantes da banda, fosse tão aplaudida e consagrada? Sem dúvida, a iminência dos bombardeios nas cidades ucranianas foi significativa, o que confirmou-se no videoclipe lançado na manhã seguinte ao resultado, em que a plangente letra é sobreposta a imagens de uma mulher caminhando por cidades bombardeadas. Se este vídeo fosse publicizado antes da votação, a banda poderia até ser desclassificada, pois as regras do Eurovision rejeitam quaisquer declarações ostensivamente políticas de seus participantes. Da maneira como este videoclipe surgiu, ele ratifica algo que repetimos constantemente em nossos textos: cada um de nossos atos, por mais trivial que inicialmente pareça, é irrevogavelmente político. Viva à Ucrânia, portanto!

Enquanto regra associada à premiação, o país vencedor torna-se a sede do campeonato vindouro. Como os ataques russos contra a Ucrânia ainda não cessaram, e há a lamentável possibilidade de a capital Kiev não estar apta para sediar um espetáculo tão dispendioso, o Reino Unido assume imediatamente esta função de hospedaria, o que reitera um aspecto mui pitoresco no certame ora descrito: coincidentemente, este país ficou em segundo lugar no cômputo geral (além de ter sido o mais votado pelos júris oficiais), pondo fim a uma maldição cumulativa de vários anos recebendo zero pontos – por motivos igualmente políticos. Para quem ainda não assiste a este evento, ousamos recomendá-lo de maneira entusiástica. Afinal, o Eurovision diz muito sobre as relações sociológicas hodiernas – e também sobre arte, cultura, erotismo, entretenimento e os demais aspectos inter-relacionados. Tudo isso, confirmamos musicalmente, tem a ver com política!

Wesley Pereira de Castro.

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