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A religiosidade exacerbada como legítima crítica social: um estado de exceção em meio à laicidade?

A religiosidade exacerbada como legítima crítica social: um estado de exceção em meio à laicidade?

Enquanto reação direta às atrocidades do atual (des)governo brasileiro contra o fomento cultural no país, são diversos os filmes que afrontam aberta e incisivamente o retrocesso bolsonarista. Os dois filmes brasileiros premiados no Festival Internacional de Cinema de Cannes deste ano – “Bacurau” (2019, de Kléber Mendonça Filho & Juliano Dornelles) e “A Vida Invisível” (2019, e Karim Aïnouz) – tornaram-se rapidamente merecedores de muita noticiabilidade política, antes mesmo de estrearem comercialmente. Já que estes ainda não foram conferidos, convém elogiar os méritos abundantes de “Divino Amor” (2019, de Gabriel Mascaro), lançado nos cinemas brasileiros em 27 de junho de 2019…

Quando começaram a ser divulgadas as primeiras imagens deste filme, teve-se a impressão de que ele abordaria a tendência impositiva de um protofascismo religioso a partir de uma lógica zombeteira e/ou direcionada, repetindo ficcionalmente o escandaloso jargão que balizou a campanha eleitoral de Jair Messias Bolsonaro: “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”. Como trata-se de um projeto antigo do diretor, não houve necessidade deste recurso. O roteiro preferiu uma abordagem sutil, devolvendo aos esquerdistas uma autoanálise da importância da fé que o fanatismo neopentecostal surrupiou de maneira oportunista. Continuemos:

Em “Divino Amor”, a protagonista – superlativamente vivificada por Dira Paes – chama-se Joana, e trabalha num cartório governamental, que auxilia casais em processo de divórcio. Crente na igualdade idealizada via burocracia, Joana não hesita em intervir “humanamente” em seus atendimentos, sempre tentando direcionar os clientes para a reconciliação matrimonial, preferencialmente através de encontros heterossexuais no culto eclesiástico que freqüenta. Neste lugar, trocas copulares entre casais são estimuladas de forma ritualística, desde que as ejaculações ocorram de maneira conjugal, ou seja, intrauterinamente e mediante apresentação prévia de documentação comprobatória do casamento alegado. Parece escandaloso, mas é uma prática prevista no estatuto doutrinário intrafílmico. Faz sentido, portanto.

Sigamos em frente: situada no ano vindouro de 2027, a trama de “Divino Amor” apresenta-se inicialmente como mais descritiva que efetivamente narrativa. Dessa maneira, acompanhamos os eventos empregatícios e práticas religiosas de Joana e conhecemos o seu marido Danilo (Júlio Machado), que trabalha como preparador de coroa de flores para funerais. Também freqüentador do culto religioso de sua esposa – no qual ela só pode participar ao lado do esposo – Danilo padece da suspeita de infertilidade. O sonho do casal é gerar um filho e, para isso, recorrem às práticas mais desesperadas, como a importação de um caro maquinário chinês, que requer que Danilo fique de ponta-cabeça e sem roupa, enquanto uma forte luz infravermelha é direcionada sobre a sua genitália. Obviamente, isso não resolve (de imediato, ao menos) o problema, e eles cogitam até mesmo uma adoção. Porém, há implicações morais – convertidas em restrições legislativas – nesta opção. Não seria algo amplamente recomendado, infelizmente.

Tudo isso é narrado por uma voz infantil e robotizada, que somente no quartel final anunciará a sua origem, culminando num mote frasal que empunhará o libelo militante do filme: “quem nasce sem nome, cresce sem medo”. Trata-se, por conseguinte, de um filme intensivamente político, mas que não deslegitima gratuitamente os histrionismos evangélicos, por mais que, eventualmente, apresente alguns estratagemas ‘kitsch’, como um local de atendimento espiritual que assemelha-se a um ‘drive-in’ ou a descrição do grande evento comemorativo nacional, que corresponde justamente ao título do filme. Neste clímax pretensamente epifânico – uma ‘rave’ ‘gospel’ de larguíssimas proporções – a direção de arte do filme chega a um de seus píncaros, servindo-se de um estilo ‘neon’-realista literalmente brilhante!

Além da grandiosidade reflexiva de seu roteiro, que erige um universo quase distópico que, não por acaso, lembra bastante o Brasil atual, “Divino Amor” é agraciado por um trabalho minucioso de construção e decoração de espaços, todos eles providos de um aspecto hipertrofiado dos anseios decorativos dos cristãos mais exibicionistas. As boas intenções humanitárias de Joana em meio ao ambiente burocrático são condenadas por soarem tendentes ao privilégio de uns em detrimento de outros, o que esfacela a eqüidade desenvolvida pelos ideólogos sumamente burocratizados. Numa fala exemplar, quando é solicitado por uma cliente reclamante que ela apresente o seu superior, Joana retruca com firmeza: “meu superior não é deste mundo!”. Isso será muito importante para a compreensão da magistralidade teorético-discursiva do audacioso desfecho do filme.

Enquanto problemas estruturais de “Divino Amor”, lamenta-se a demora ambígua nalgumas cenas de sexo – que diferem da leveza com que é apresentada a nudez ostensiva de alguns atores – e uma digressão narrativa, imitativa da situação-chave que inaugura o Novo Testamento bíblico. Mas são defeitos menores numa estupefaciente representação de um contexto opressor que destaca-se em seu viés político por não agredir quem aceita crer nalgo que vai de encontro justamente ao público-alvo dominante do filme: o cristianismo exacerbado. A grandiosidade da seqüência de batismo religioso apresentada no filme, que conta com a composição própria de hinos pentescostais assaz verossímeis, confirma o quanto o diretor foi respeitoso em relação àquilo que critica. Afinal, sua intenção é convencer através do diálogo e da identificação em primeira pessoa, e não apresentar um modelo certeiro de correção democrática. É nisso que o filme acerta impressionantemente. Aguardemos as reações aos demais títulos supramencionados para traçarmos um perfil cauteloso desta tendência positivamente reativa do cinema brasileiro hodierno. Por ora, uma curiosidade supraevangélica: não é por acaso que muitos termos aparecem de maneira anglofílica (devidamente entre apóstrofos) nesse texto. O projeto criticado é um mesmo, vendido ‘in English’ nos cultos de vários países!

 

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