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“Antes de seguir em frente, eu tenho que voltar atrás”: ou de quando a História é também íntima!

“Antes de seguir em frente, eu tenho que voltar atrás”: ou de quando a História é também íntima!

No dia 19 de junho de 2019, a plataforma Netflix estreou o filme mais recente da diretora Petra Costa, “Democracia em Vertigem”. Disseminado em mais de uma centena de países, o filme logo causou comoção imediata, em razão da urgência de seu tema, o estado comatoso da democracia presidencialista no Brasil.

Famosa por realizar documentários em primeiríssima pessoa, em que compartilha situações bastante íntimas de sua família, a diretora tomou este mesmo procedimento como ponto de partida para sua mais recente obra, agora direcionada a um escopo mais geral, saindo do particular em direção ao público. Entretanto, por algum motivo, ela abandona justamente o recurso narrativo que lhe é tão caro e faz com que esta obra soe datada pouco tempo após o rebuliço crítico que vem causando. Como é típico da Netflix, aliás.

Analisemos mais a fundo: se, em seu filme anterior mais famoso – o longa-metragem “Elena” (2012), sobre o suicídio de uma irmã da cineasta – Petra Costa possuía todas as razões para investir no tom lacrimoso e poético, neste filme recente de âmbito político, este mesmo tom poderia soar contraproducente, em termos de incitação participativa ao discurso esquerdista que ela apregoa. Entretanto, a despeito do que se temia, a narração em voz ‘over’ imbui o filme de uma legitimidade documental bastante necessária: averígua, em primeira pessoa, os efeitos demarcadores das contradições extremadas de uma vivência pessoal entre os dois meandros ideológicos que configuram a polarização atualmente em voga no Brasil. De um lado, a ascendência elitizada e a vinculação familiar a uma das empreiteiras mais importantes de Brasília, capital do país. Do outro, a continuidade de ideais revolucionários herdados pelas atividades militantes de seus pais. Entre um e outro, a reflexão.

Como era esperado, “Democracia em Vertigem” desencadeou um embate intenso de apreciações contrárias: os defensores da direita atualmente no poder incomodaram-se com o tom evidentemente panfletário do filme, enquanto os defensores da esquerda confessaram-se sumamente emocionados perante os eventos que a diretora relembra em sua montagem audiovisual. Mas é nas omissões que o relato doumental mais se destaca. Afinal, apesar de não ser um mau filme – nos dois sentidos do termo: suas intenções são boas e ele é orquestrado de maneira condutivamente eficiente – lamenta-se que a diretora recue em relação ao foco denuncista quando o bibelô do conservadorismo hipócrita que atende pelo nome de Jair Messias Bolsonaro passa a ganhar tempo de tela. A demonstração dos efeitos agressivos do agendamento midiático é providencial, mas a diretora abandona este viés no quartel final de seu documentário, que torna-se, portanto, arritmicamente desenxabido.

Em razão de trabalhar, em sua maior parte, com a edição de material preexistente e de ter acesso a filmagens exclusivas de Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a exibição dos fatos políticos compartilhados por Petra Costa possui um aspecto amplamente repisado, ainda que válido enquanto reinvestigação de fatos recentes da história política do Brasil. Mas, quando a diretora utiliza-se de imagens do acervo íntimo de sua família ou de situações filmadas por ela, o filme alcança um impacto reflexivo e emocional de caráter inquestionável.

Vamos aos exemplos: quando entrevista algumas zeladoras sobre o que elas acham do ‘impeachment’ sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff ou quando ela reitera que a maioria de seus parentes foram eleitores bolsonaristas. Nestes momentos, a diretora traz algo de efetivamente diferente para o debate, apresenta-nos a aspectos íntimos de uma história em curso, esfacelando o oportunismo diferencial entre as esferas pública e privada, levado a cabo pelos deflagadores do poder, continuadores de uma emulação escravista. O instante em que Petra Costa encontra o nome da empreiteira de seu avô mencionado nas placas de agradecimentos por ações voluntárias de reforma da residência presidencial em contextos governamentais radicalmente opostos denota o quanto a perscrutação subjetiva da diretora é valiosa. Pena que não se sustenta…

Insistindo em citações literárias e comparações filosóficas acerca da catastrófica situação político-representativa do Brasil, a diretora incorre numa espetacularização factual bastante similar àquela que ela critica nas práticas investigativas da equipe do então juiz Sérgio Moro, quando à frente da Operação Lava-Jato, que prendeu diversos políticos e empresários brasileiros, entre eles o já citado Lula, com interesses eleitorais assaz evidentes.

Ao repetir ostensivamente – através da expressão “de novo!” – trechos selecionados de conversas já bastante conhecidas dos espectadores, Petra Costa limita a sua argumentação a um enfoque quase partidário, o que não ocorre quando insere uma trilha musical idílica quando ela, mais jovem, é mostrada bailando nas ruas, numa filmagem doméstica, ao comemorar a vitória do Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições presidenciais de 2002. Ou seja, o documentário falha justamente quando tenta referendar aquilo que seu público-alvo esquerdista já concorda, abdicando das obsessões comiserativas que, querendo ou não, assumem-se como traço autoral de sua curta porém elogiada filmografia.

Por fim, um comentário sobre os elogios comumente recebidos pela diretora: num primeiro momento, em “Elena”, advêm do elã identificativo, da comunhão afetiva em relação ao seu enfrentamento corajoso das mazelas depressivas em seu seio familiar, ainda que a conformação fílmica decorrente seja forçada em seus intentos realisticamente melodramáticos; neste terceiro momento, em “Democracia em Vertigem”, os adjetivos laudatórios surgem de um desamparo generalizado por parte da esquerda, que vê-se emaranhada numa tessitura pessimista de traições e cisões internas. Não por acaso, alguns dos momentos mais inteligentes do documentário são quando analisam-se as posturas corporais suspeitosas do ex-vice presidente Michel Temer, convertido maquiavelicamente em sucessor de Dilma Rousseff. Mas isso também é abandonado na narração xaroposa da diretora, quiçá limitada pelas diretrizes gananciosas da Netflix, verdadeira beneficiada do sucesso imediato deste filme, a despeito de sua qualidade apenas mediana e de sua funcionalidade propagandística sobremaneira direcionada. O segundo momento decisivo estaria no filme “Olmo e a Gaivota” (2015, co-dirigido por Lea Glob), pouquíssimo visto, experiência ficcional da diretora que talvez seja a antítese necessária à compreensão da falibilidade sintética do documentário ora em debate. Um debate que continua, não obstante o filme desistir do mesmo em seu ápice.

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