As narrativas orais constituem, desde tempos imemoriais, um veículo privilegiado de transmissão de valores, crenças e lições de vida entre gerações. Na relação entre avós, pais e netos, este processo assume uma dimensão de continuidade cultural que ultrapassa o ato de contar histórias, funcionando como um mecanismo de preservação da memória coletiva e como prática pedagógica. Em contextos insulares, como o da Região Autónoma da Madeira, a tradição oral adquire um significado especial, não apenas pela preservação de identidades locais, mas também pelo papel que desempenha na resiliência comunitária face à vulnerabilidade geográfica e histórica das ilhas.
Entre as expressões mais conhecidas encontra-se a frase “a ilha de Arguim vai surgir junto com D. Sebastião com a sua espada e a Madeira vai afundar”. Esta narrativa, transmitida em diferentes gerações, combina temor, esperança messiânica e metáfora cultural. A ilha de Arguim, evocada como território misterioso que emergiria do oceano, é associada ao mito sebastianista, segundo o qual o rei D. Sebastião regressaria um dia, armado de justiça, para salvar a nação e restaurar a sua glória perdida. O anúncio da Madeira que afunda introduz, em contraste, o medo da perda, do colapso do espaço vital, da destruição do lar coletivo.
O valor destas expressões não reside na sua veracidade literal, mas na sua função simbólica. Lemos (2024) defende que os ditos populares funcionam como dispositivos de aprendizagem social, ensinando prudência e alertando para a instabilidade da existência. Assim, a imagem de uma ilha que emerge e outra que se afunda remete para a consciência de que tudo é transitório, mas também de que cada fim abre espaço a novos começos. Santos e Oliveira (2025) acrescentam que estas parábolas insulares traduzem simultaneamente medo e esperança: o receio do desaparecimento do território e a crença na renovação ou redenção.
O mito de D. Sebastião acrescenta densidade histórica a esta tradição. Considerado “o rei encoberto”, desaparecido em Alcácer-Quibir, transformou-se num símbolo da espera messiânica e da esperança de regeneração nacional. Ao ser integrado na tradição oral madeirense, este mito ganha contornos insulares, fundindo a memória coletiva portuguesa com a experiência atlântica. Como nota Jardim (2025), as ilhas funcionam como “laboratórios culturais de reinvenção simbólica”, onde mitos nacionais são reinterpretados à luz da vulnerabilidade geográfica. A evocação de D. Sebastião com a espada traduz-se, assim, em promessa de justiça, coragem e renovação espiritual.
Do ponto de vista psicológico, estas narrativas desempenham um papel importante no fortalecimento da identidade. Garcia e Mendes (2025) demonstram que histórias transmitidas por avós aumentam o sentido de pertença das crianças, reforçando a ligação ao passado e ajudando a enfrentar incertezas. No caso desta parábola, a mensagem transmitida não é o medo da catástrofe, mas a preparação para a mudança, a noção de que a vida comporta perdas e renascimentos.
A verdade destas histórias não se mede pela sua correspondência factual, mas pela sua capacidade de orientar atitudes. Parreira (2024) e Jardim (2025) sublinham que “a parábola é verdadeira quando transforma a ética do ouvinte”. Assim, dizer que a Madeira pode afundar e que uma nova ilha pode surgir é lembrar que tudo é impermanente e que a resiliência exige aceitar a mudança como constante. A invocação de D. Sebastião reforça a dimensão messiânica desta lição: em tempos de crise, a esperança coletiva é alimentada por símbolos de coragem e salvação.
Na educação, estas narrativas desempenham também funções pedagógicas. Almeida (2025) mostrou que o uso de parábolas populares em ambientes escolares facilita a aprendizagem de conceitos abstratos e incentiva a capacidade interpretativa. Ao escutar uma frase como “a ilha de Arguim vai surgir com D. Sebastião e a Madeira vai afundar”, a criança aprende a diferenciar literalidade de simbolismo, a interrogar significados ocultos e a pensar criticamente sobre as incertezas da vida.
A insularidade intensifica o impacto destas histórias. Jardim (2025) argumenta que as parábolas madeirenses são mecanismos de sobrevivência cultural que ajudam as comunidades a lidar com fenómenos naturais imprevisíveis, desde tempestades a erupções vulcânicas. Ao falar de ilhas que emergem e afundam, os avós projetam narrativas de instabilidade que refletem a experiência concreta de viver rodeado pelo mar. Mas a invocação de D. Sebastião introduz também a dimensão da esperança coletiva: mesmo quando o território parece em risco, há sempre uma promessa de redenção.
Na contemporaneidade digital, estas narrativas continuam relevantes. Streitz (2025) mostra que, mesmo em ecossistemas saturados de informação, as pessoas continuam a procurar parábolas que deem sentido à existência. O mito sebastianista e a lenda da ilha de Arguim, reinterpretados no contexto insular, sobrevivem como metáforas de resiliência e esperança.
A UNESCO (2025) reforça a necessidade de proteger tradições orais enquanto património cultural imaterial. A frase que junta Arguim, D. Sebastião e a Madeira é parte desta herança: um testemunho da criatividade popular, da fusão entre mito nacional e imaginário insular, e da capacidade das comunidades de traduzir os seus medos e esperanças em narrativas transmissíveis.
Em conclusão, as parábolas transmitidas entre avós, pais e netos não são superstições sem fundamento, mas lições de vida profundamente enraizadas na experiência coletiva. Ao dizer que “a ilha de Arguim vai surgir junto com D. Sebastião com a sua espada e a Madeira vai afundar”, os mais velhos transmitem às novas gerações a consciência da impermanência, o valor da resiliência e a esperança na renovação. A lição maior é esta: nenhuma terra é eterna, nenhuma geração é imutável, mas é na palavra partilhada e nos símbolos transmitidos que se constrói a continuidade da identidade. A verdadeira “ilha de Arguim” é, afinal, a memória viva que ressurge em cada geração, e a espada de D. Sebastião é a metáfora da coragem necessária para enfrentar as incertezas da vida.
Referências Bibliográficas
Almeida, T. (2025). Oralidade e pedagogia: O papel das narrativas populares na educação crítica. Revista Portuguesa de Educação e Cultura, 12(1), 44–59.
Garcia, L., & Mendes, P. (2025). Family narratives and resilience: The psychological value of intergenerational storytelling. Journal of Family Psychology, 39(2), 188–202. https://doi.org/10.1037/fam0001223
Jardim, G. (2025). Insularidade e memória cultural: Narrativas orais como património de resiliência. Revista de Estudos Insulares, 3(1), 77–95.
Lemos, A. (2024). Parábolas populares e pedagogia social: Uma leitura crítica. Estudos de Antropologia e Cultura, 41(2), 133–150.
Parreira, P., & Leite, E. (2024). Sabedoria popular e práticas educativas: Entre a tradição e a ciência. Revista Portuguesa de Ciências Sociais, 29(3), 211–227.
Santos, C., & Oliveira, R. (2025). A parábola como fenómeno social: Tradição oral e identidade coletiva. Anthropology & Society, 18(1), 55–70.
Streitz, N. (2025). Narratives in digital ecosystems: The persistence of parables in modern societies. Journal of Cultural Futures, 5(2), 102–119.
UNESCO. (2025). Safeguarding intangible cultural heritage: Oral traditions in focus. Paris: UNESCO Publishing.



