Lendo os sonetos de Florbela Espanca é impossível não comparar a sua obra à de outros grandes nomes da poesia portuguesa, como Fernando Pessoa. Um poema dedicado à autora encontrado no espólio de Pessoa inclui a passagem “Dorme, dorme, alma sonhadora,/Irmã gémea da minha!”. Parte da possível semelhança entre os poetas retratada nessas palavras é também visível nas suas obras.
Existem diversas coletâneas de poemas de Florbela Espanca. Estas podem incluir os vários livros escritos pela autora, como o “Livro das Mágoas (1919), o “Livro de Soror Saudade” (1923) e o “Charneca em Flor” (1930), que inclui o famoso soneto “Ser Poeta”.
Todos os sonetos das obras mencionadas seguem a estrutura do soneto italiano de forma irrepreensível. Florbela Espanca destaca-se pela descrição sumária e isenta de pudor de eventos e sentimentos. Cada palavra conquista o seu lugar na página. Sendo que praticamente todos os poemas dos livros mencionados são escritos na primeira pessoa e abordam temas universais, o leitor facilmente se identifica com as palavras do narrador.
A abordagem repetitiva de tópicos melancólicos pode tornar a leitura dos sonetos de Florbela Espanca numa experiência ora reflexiva ora aborrecida, dependendo do leitor em questão. A maioria dos seus sonetos aborda situações de transtorno para o narrador, como desgostos amorosos e solidão. No entanto, também se encontram sonetos que celebram o que de bom o narrador encontra na sua vida, como a literatura ou até mesmo o Alentejo.
Uma semelhança entre as obras de Fernando Pessoa e de Florbela Espanca é os tópicos nelas retratados, como o significado da vida e o papel do poeta. Ainda no poema dedicado a Espanca podemos ler “Tua alma, assim como a minha,/Rasgando as nuvens pairava/Por cima dos outros,/À procura de mundos novos,/Mais belos, mais perfeitos, mais felizes.” Embora com estilos literários bastante distintos, ambos artistas conseguem transportar sentimentos de angústia para as suas obras. Enquanto Pessoa faz uso da metalinguagem e tem um estilo a roçar o críptico, Espanca recorre principalmente à descrição. Embora utilizando estratégias distintas, ambos poetas conseguem, em poucas palavras, retratar complexas imagens e conceitos.
A vida de Florbela Espanca foi pontuada por eventos trágicos. A autora nasceu em 1894 em Vila Viçosa e começou a escrever poesia desde os seus anos de infância. Em termos de educação, foi uma das primeiras a ingressar no liceu e, mais tarde, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Casou com três homens, divorciando-se duas vezes. Um dos acontecimentos que mais a parecem ter marcado é a morte do seu irmão Apeles em 1927. Três anos depois, em 1930, após duas tentativas anteriores, Florbela Espanca suicida-se.
As vidas de Florbela Espanca e de Fernando Pessoa tomaram por vezes rumos similares, o que pode explicar algumas semelhanças nas suas obras. Pessoa nasceu anos antes de Espanca, em 1888. Ambos cresceram sem a presença de uma figura paterna – Espanca por nascer de pai incógnito e Pessoa pela morte do seu pai quando ele era ainda uma criança. Também Pessoa sofreu a perda de um irmão. Pessoa morreu anos depois de Espanca, em 1935.
Concluindo, os sonetos de Florbela Espanca são adequados para aqueles que apreciam a estrutura dos sonetos italianos, que procuram poesia provocadora de reflexão e que pretender aprofundar o seu conhecimento acerca da cultura portuguesa. A sua obra é também marcada pela expressão do desassossego tão presente na poesia de Fernando Pessoa.
Fontes:
- DIANA, Daniela. “Fernando Pessoa”. Toda Matéria
- GALVÃO, Rolando. “Florbela Espanca”. Vidas Lusófonas
- PIRES, Sandra Mendonça. “Enantidromia de Florbela Espanca: um percurso, ao contrário, através da vida e dos lugares da poetisa”. Tinta lusa. Instituto Camões


