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O Sistema de Saúde em Portugal no Contexto Internacional: Balanço e Desafios em 2024/2025

O Sistema de Saúde em Portugal no Contexto Internacional: Balanço e Desafios em 2024/2025

O balanço do sistema de saúde em Portugal no período de 2024/2025 revela um conjunto de tendências contrastantes quando analisado à luz das médias da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico e de referenciais internacionais, evidenciando simultaneamente ganhos estruturais consolidados e desafios persistentes em termos de sustentabilidade, organização e resposta às necessidades emergentes da população. Esta leitura comparativa permite situar o desempenho do sistema de saúde português num contexto global, contribuindo para uma avaliação mais robusta das políticas públicas em saúde.

Do ponto de vista do estado de saúde da população, Portugal mantém um perfil globalmente favorável. A esperança média de vida ao nascer atingiu aproximadamente 82,7 anos em 2024, posicionando o país acima da média da União Europeia e da OCDE, estimada em cerca de 81,5 anos. Este indicador reflete melhorias acumuladas ao longo das últimas décadas em determinantes sociais, acesso universal aos cuidados de saúde e controlo de causas de mortalidade evitável. Todavia, persistem desafios relevantes associados a fatores comportamentais, nomeadamente a prevalência de obesidade e padrões de consumo de álcool, que continuam a influenciar negativamente a carga de doença evitável e a mortalidade prematura. Em termos de saúde ambiental, Portugal apresenta uma exposição média a partículas finas (PM2.5) inferior à média da OCDE, o que se associa a menores riscos respiratórios e cardiovasculares, constituindo um fator protetor adicional no perfil global de saúde da população (OECD, 2024, 2025).

No que respeita ao acesso e à cobertura dos cuidados de saúde, Portugal destaca-se pela cobertura praticamente universal de um conjunto central de serviços essenciais, superando ligeiramente a média dos países da OCDE. Este resultado confirma a robustez do modelo de acesso universal do Serviço Nacional de Saúde. No entanto, os indicadores subjetivos revelam uma perceção menos favorável por parte da população, com níveis de satisfação relativamente mais baixos no que se refere à disponibilidade e qualidade dos cuidados. Esta discrepância sugere a existência de constrangimentos estruturais, nomeadamente em termos de tempos de espera, acessibilidade efetiva e conforto organizacional, que condicionam a experiência dos utentes, apesar da elevada cobertura formal. Ainda assim, o nível de necessidades de saúde não satisfeitas em Portugal permanece inferior à média da OCDE, indicando que o acesso efetivo aos cuidados se mantém relativamente elevado quando comparado internacionalmente (OECD, 2024).

A análise dos indicadores de qualidade clínica revela um desempenho heterogéneo. Portugal apresenta taxas significativamente mais baixas de admissões hospitalares evitáveis por doenças crónicas do que a média da OCDE, o que sugere uma maior eficácia dos cuidados de saúde primários e dos mecanismos de acompanhamento clínico. Em contrapartida, alguns indicadores de mortalidade em fase aguda, nomeadamente a mortalidade aos 30 dias após enfarte agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral, situam-se ligeiramente acima das médias internacionais, apontando para oportunidades de melhoria na resposta hospitalar, na articulação entre níveis de cuidados e na prevenção secundária (OECD, 2024).

No domínio do financiamento, Portugal apresenta um padrão misto quando comparado com outros países de rendimento elevado. Embora a despesa total em saúde per capita, ajustada pelo poder de compra, permaneça abaixo da média da OCDE, a percentagem do produto interno bruto dedicada à saúde é superior à média internacional. Este desfasamento reflete um esforço orçamental relativamente elevado num contexto de base económica mais limitada, o que coloca desafios acrescidos à sustentabilidade financeira do sistema de saúde. Em paralelo, a proporção da despesa destinada à prevenção continua abaixo da média da OCDE, evidenciando margem para reforçar políticas de promoção da saúde e prevenção primária como estratégias centrais para melhorar resultados em saúde e conter o crescimento futuro da despesa (OECD, 2024).

A execução orçamental recente do Serviço Nacional de Saúde confirma estas pressões estruturais, tendo sido registado em 2024 um défice significativo, associado sobretudo ao aumento dos custos com recursos humanos, medicamentos e tecnologias de saúde. Esta tendência é consistente com o que se observa noutros sistemas universais, particularmente em contextos de envelhecimento populacional e crescente complexidade clínica, mas assume especial relevância num sistema fortemente dependente de financiamento público (Conselho das Finanças Públicas, 2024).

No que se refere aos recursos humanos, Portugal apresenta uma densidade de médicos por mil habitantes superior à média da OCDE, contrastando com uma dotação de enfermeiros inferior ao padrão internacional. Este desequilíbrio estrutural tem implicações diretas na eficiência organizacional, na continuidade dos cuidados e na capacidade de resposta integrada do sistema de saúde, sendo particularmente relevante num contexto de aumento da prevalência de doenças crónicas e de necessidades de cuidados de longa duração. Adicionalmente, a reduzida disponibilidade de profissionais dedicados aos cuidados continuados e de longa duração evidencia fragilidades na resposta ao envelhecimento da população, quando comparada com os países da OCDE com melhores desempenhos neste domínio (OECD, 2024; WHO, 2020).

Finalmente, numa perspetiva mais ampla de inovação e desempenho sistémico, Portugal posiciona-se numa posição intermédia em rankings internacionais de inovação em saúde, apresentando resultados relativamente favoráveis na dimensão da qualidade dos cuidados, mas fragilidades persistentes nos domínios da ciência, da tecnologia e da capacitação dos utentes para escolhas informadas. Esta leitura complementa os indicadores tradicionais de saúde e de financiamento, oferecendo uma visão mais integrada do desempenho do sistema no contexto global.

O quadro seguinte apresenta uma síntese comparativa dos principais indicadores de desempenho do sistema de saúde em Portugal no período de 2024/2025, em confronto com as médias da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico e referenciais internacionais. Esta síntese integra indicadores de estado de saúde da população, cobertura e qualidade dos cuidados, financiamento e recursos humanos, permitindo uma leitura estruturada e comparável do posicionamento do sistema de saúde português no contexto internacional.

Quadro 1 — Síntese Comparativa do Sistema de Saúde: Portugal e Contexto Internacional (2024/2025)

DimensãoPortugal (2024/2025)Média OCDE / Internacional
Esperança de vida ao nascer~82,7 anos~81,5 anos (OCDE/UE)
Cobertura de serviços essenciais100 %~98 %
Satisfação com a qualidade dos cuidados58 %64 %
Gasto total em saúde per capita (USD PPP)5 2125 967
Despesa em saúde (% do PIB)10,2 %9,3 %
Médicos por 1 000 habitantes5,83,9
Enfermeiros por 1 000 habitantes7,69,2
Admissões hospitalares evitáveis (por 100 000 hab.)236473
Mortalidade aos 30 dias pós-enfarte agudo do miocárdio7,1 %6,5 %
Fonte: Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD), Health at a Glance: Europe 2024; Health at a Glance 2025.

O quadro sintetiza os principais indicadores comparativos de desempenho do sistema de saúde português face à média dos países da OCDE, permitindo uma leitura integrada dos resultados populacionais, da cobertura, do financiamento e da capacidade assistencial.

Em síntese, o balanço do sistema de saúde português em 2024/2025 evidencia um desempenho globalmente competitivo em vários indicadores internacionais, nomeadamente na esperança de vida, na cobertura universal e na prevenção de internamentos evitáveis. Contudo, persistem desafios estruturais relevantes relacionados com a sustentabilidade financeira, a satisfação dos utentes, a adequação da força de trabalho em enfermagem e o investimento insuficiente em prevenção. Estes resultados reforçam a necessidade de políticas públicas orientadas para o reforço dos cuidados de proximidade, da prevenção e do investimento estratégico em recursos humanos, em consonância com as recomendações dos principais organismos internacionais de saúde.

Referências Bibliográficas

Conselho das Finanças Públicas. (2024). Evolução do desempenho do Serviço Nacional de Saúde em 2024. CFP.

Organisation for Economic Co-operation and Development. (2024). Health at a glance: Europe 2024. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/health_glance_eur-2024-en

Organisation for Economic Co-operation and Development. (2025). Health at a glance 2025. OECD Publishing.

World Health Organization. (2020). State of the world’s nursing 2020: Investing in education, jobs and leadership. WHO.

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