A pirâmide das necessidades de Maslow é uma das mais populares teorias da motivação humana, e é habitualmente reconhecida como uma das primeiras a trazer o tema da motivação para as ciências comportamentais, para a gestão, e para a economia. O modelo assenta em cinco níveis de necessidades, que independem de contextos culturais e temporais, ou seja, que são transversais a todos os seres humanos, ao longo de toda a sua existência. Maslow escreve em 1943 que os seres humanos são um animal constantemente em busca de algo: a perpetually wanting animal.
O que é menos sabido e menos conhecido, e menos ensinado e aplicado, mesmo entre os especialistas na área, é que a pirâmide tem um sexto nível, que o autor apresentou nos trabalhos publicados no final da sua vida. Trata-se das necessidades de auto-transcendência, que remetem para a procura da satisfação através de um ideal, uma causa, ou um bem comum. Ora, face às recentes inquietações da gestão e da economia, em desenvolver modelos mais sustentáveis e consonantes com os dilemas ambientais, o sexto nível de Maslow parece oferecer algumas pistas para compreender o atual rumo de mudanças.
Atente-se, primeiro, aos cinco níveis originais da pirâmide. Na base estão as necessidades fisiológicas, que compreendem as essenciais para a sobrevivência individual (fome, sede, respiração, sono), e para a continuidade da espécie (desejo sexual e comportamento maternal). Estas necessidades são partilhadas com todas as espécies animais, e são as mais marcantes para o comportamento. A sua influência é tal que Maslow elabora profusamente sobre a subordinação de todas as outras necessidades às fisiológicas, assim como define a cultura como um mecanismo adaptativo com várias funções, sendo que uma delas é controlar a frequência com que os seres humanos pensam em comer e em beber (1943, p. 374).
As necessidades fisiológicas são definidas como básicas, tal como os três níveis seguintes: segurança e proteção (boa-saúde, estabilidade e ordem), pertença e afeto (sociais), e estima (auto-estima, reconhecimento, apreciação e dignidade). A satisfação destas últimas cria pessoas auto-confiantes, com amor-próprio, e que sentem aportar valor e utilidade ao mundo. No topo da hierarquia encontram-se as necessidades de auto-atualização e auto-realização (crescimento, aproveitamento do potencial, e advir), e são exclusivas da espécie humana.
A pirâmide de cinco níveis foi adotada pela Psicologia e posteriormente pela economia, pelo marketing, etc. O sucesso dura até aos dias de hoje. Mas o que sucede quando alguém alcança a satisfação das necessidades do quinto nível? Ela deixa de estar motivada? Se de facto o ser humano é um animal numa busca constante, então deve existir algo acima desse nível.
A resposta veio com a publicação de um par de textos em 1967 e 1969, em que Maslow sugere as necessidades de auto-transcendência, cuja característica distintiva relativamente às restantes é o facto de irem além do interesse pessoal, e de estarem centradas no bem comum. Desejar um mundo justo, por exemplo, ultrapassa o mero interesse pessoal. Tal como a busca de estética, da beleza, da verdade, e da harmonia (que já haviam aparecido em 1943, mas não tinham sido classificadas em nenhum grupo). Por serem necessidades de ordem elevada, e de difícil alcance a todos, são também chamadas meta-necessidades.
O sexto nível completa a visão de Maslow, agregando as dimensões fisiológicas, emocionais, sociais, cognitivas, de crescimento individual, e espirituais. Mais do que uma teoria da motivação, a pirâmide dos seis níveis dá resposta à questão principal do existencialismo, “o que é ser humano?”, e fornece uma perspetiva holística da condição humana.
A última questão neste texto reside em saber em que medida é que as meta-necessidades se aplicam na gestão e economia modernas?
As necessidades de ordem superior aparentam explicar dois dos movimentos político-económico-sociais mais influentes dos últimos 20 anos: o desenvolvimento sustentável e a gestão responsável.
O primeiro enfatiza o progresso económico em harmonia com o meio ambiente e com a sociedade. A responsabilidade social corporativa surgiu na década de 80, mas a notoriedade chega com a publicação, em 2015, da agenda das Nações Unidas para o desenvolvimento sustentável, em que são propostos 17 objetivos para 2030, incluindo a erradicação da pobreza (objetivo #1) e a ação climática (#13).
A gestão responsável inclui três noções: i) gerir com ética e moralidade; ii) incentivar a responsabilidade social corporativa; e iii) colocar a sustentabilidade no centro da organização e da gestão. As universidades procuram estar na linha da frente desta tendência, abraçando entusiasticamente os princípios para uma educação em gestão responsável (os PRME).
Os dois movimentos têm em comum o estímulo à transcendência individual, e sugerem o equilíbrio com os ecossistemas e com o planeta. Pode assim concluir-se que estão alinhados com as meta-necessidades de Maslow, pelo que representam o nível mais elevado de sabedoria e nobreza altruística a que uma sociedade pode almejar. Resta agora mostrar a alguns políticos e gestores dos maiores e mais poderosos países e corporações mundiais que as suas decisões ainda se acham ao nível mais elementar da pirâmide, e que, portanto, as suas ações egoísticas e a defesa de lobbies e interesses instalados, são sinal de um retrocesso mental, não de um avanço intelectual. Mais, deverá ensinar-se que a manutenção do atual modelo de crescimento económico não conduz apenas à extinção dos ursos polares e do emporcalhamento dos oceanos; também levará irremediavelmente à hecatombe das espécies, incluindo a humana.
Operar ao sexto nível não é uma quimera. Um exemplo recente da tensão entre as necessidades básicas e as meta-necessidades chega de um tribunal britânico, que imediatamente antes da pandemia provocada pelo COVID-19, travou a construção de uma terceira pista no aeroporto de Heathrow. A razão evocada não poderia ser mais lapidar: outra pista permitiria um tráfego adicional de 700 aviões/dia, o que aumentaria as emissões de CO2, o que contribuiria para não alcançar as metas da contenção de temperatura definidas no Acordo de Paris.
Pensar e agir ao nível das meta-necessidades não só é possível, como se tornou imperioso. Sem saber, e muito à frente do seu tempo, Maslow elaborou um modelo de funcionamento humano que não pressupõe a destruição da Natureza. Talvez fosse tempo de redescobrir Maslow, e a necessidade de criar um modelo económico-social centrado nas necessidades de auto-transcendência.
(*) Este trabalho foi escrito em homenagem a Abraham H. Maslow, psicólogo americano e impulsor da corrente humanista. Em junho de 2020 cumpre-se meio século sobre o seu falecimento.
Referências
Maslow, A.H. (1969). The farther reaches of human nature. Journal of Transpersonal Psychology, 1(1), 1-9.
Maslow, A.H. (1967). A theory of metamotivation. Journal of Humanistic Psychology, 7, 93-127.
Maslow, A.H. (1943). A theory of human motivation. Psychological Review, 50, 370-396.



