Chegamos ao final do ano de 2025 com os mesmos questionamentos que também nos atormentaram nos anos anteriores. Cadê o horizonte utópico? Cadê as propostas e alternativas no sentido de distribuir a riqueza, beneficiar a população pobre e preservar o meio ambiente? Por que ainda permitimos que grandes grupos de especuladores continuem lucrando com guerras, com armas, com pobreza e com degradação ambiental?
Aqui estão algumas manchetes que estamparam os principais veículos da imprensa brasileira em 2025:
- “Como as big techs estão se alinhando ao setor militar americano”. / “Titãs da tecnologia elogiam Trump e prometem investimentos bilionários nos EUA durante jantar privativo”. / “A pobreza repentina que faz com que milhões de pessoas nos EUA dependam de ajuda para não passar fome”. / “Plataformas vendem esperança de autonomia, mas entregam precarização do trabalho”. / “Meta baixou mais de 81 TB de livros piratas via torrent para treinar sua inteligência artificial”. / “Protestos contra política anti-imigração de Donald Trump se espalham pelos EUA”. / “Governo [Trump] dos Estados Unidos autorizou ações de inteligência em solo venezuelano, o que tem sido visto como tentativa de derrubar o regime de Nicolás Maduro”. / “Trump ameaça países alinhados ao Brics com tarifa adicional de 10%”. / “Deputados dos EUA acusam Trump de minar a democracia brasileira ao proteger Bolsonaro golpista e pedem fim de sanções”. / “Compra e venda de dólares no dia do anúncio do tarifaço de Trump ao Brasil dá sinais sobre uso de informações privilegiadas”. / “Trump merece impeachment por tarifas contra o Brasil, diz Nobel de Economia [Paul Krugman]”.
- “ONG europeia [ECCHR] apresenta denúncia contra TotalEnergies [multinacional francesa] por cumplicidade em crimes de guerra em Moçambique”. / “Vocês [ocidentais] meteram bandidos [da Frelimo no poder em Moçambique], aceitaram e homologaram bandidos, então agora não esperem que bandidos se comportem como o papa, diz Edson Cortez, director do CIP”.
- “Javier Bardem, Olivia Colman, Mark Ruffalo e outros 1500 atores e diretores anunciam boicote a instituições israelenses”. / “Em Cannes, Assange usa camiseta com nome de crianças palestinas mortas pela guerra de Israel”. / “Ex-atacante da seleção de futebol da Palestina, Suleiman Al-Obaid morreu nesta quarta-feira [06/8/2025] em Gaza”. / “Trump anuncia ataque dos EUA contra instalações nucleares do Irã”. / “A ordem mundial já foi muito vulnerada. A questão é saber se tentamos voltar à ordem antiga ou se construímos uma nova ordem sobre os escombros da velha, disse Celso Amorim [assessor para assuntos internacionais da Presidência da República]”.
- “Brazil offers America a lesson in democratic maturity”. / “Brasil é líder mundial contra fascismo e virou exemplo ao prender Bolsonaro, diz filósofo americano [Jason Stanley]”. / “Ainda Estou Aqui ganha Oscar de melhor filme internacional”. / “A democracia demonstrou que nenhum criminoso, mesmo fardado, mesmo com quatro estrelas no peito, ficará impune no Brasil”. / “Não é preciso esforço intelectual extraordinário para reconhecer que, quando o presidente da República e depois o ministro da Defesa convocam a cúpula militar para apresentar documento de formalização de golpe de Estado, o processo criminoso já está em curso”. / “PGR denuncia Bolsonaro e mais 33 por tentativa de golpe de Estado”.
- “Ipsos-Ipec: conservadorismo no Brasil recua em 2025”. / “80% dos brasileiros apoiam redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1, diz Datafolha”. / “AtlasIntel: 84% aprovam isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e 69,8% apoiam taxar alta renda”.
- “Cobrar mais impostos dos mais ricos eleva PIB e emprego, diz estudo da USP”. / “Limitarianismo, ou por que hiper-ricos são do mal. Filósofa [Ingrid Robeyns] propõe teto de US$ 10 milhões à riqueza individual para salvar o planeta”. / “Fortuna dos 1% mais ricos cresce mais de US$ 33,9 trilhões desde 2015 – valor suficiente para acabar com a pobreza 22 vezes”. / “Meritocracia é uma espécie de religião ou ideologia, diz Thomas Piketty”. / “Brasil é 5º país mais desigual do mundo, diz estudo [do World Inequality Lab] de Piketty”. / “Haddad anuncia apoio do Brics à taxação global de super-ricos”. / “Nós estamos defendendo que o rico que não paga imposto passe a pagar. Quem discorda disso?, diz Fernando Haddad”. / “O imposto mínimo de 10% [para ricos no Brasil] é sem dúvida um avanço em direção à justiça tributária, mas é muito insuficiente, inclusive pensando nos padrões internacionais de tributação dos mais ricos”. / “Elite brasileira está entre as que menos geram valor no mundo”. / “A estrutura tributária brasileira tem baixíssima efetividade na redução das desigualdades”. / “Menos de 2% das crianças pobres no Brasil atingem a renda dos mais ricos”. / “Câmara aprova com votação unânime projeto que amplia faixa de isenção do IR para R$ 5 mil”. / “Rombo das contas públicas não está na previdência, mas no Sistema da Dívida, explica Fattorelli”. / “Brasil deixa de investir em educação para pagar dívida ilegítima”. / “Alta da Selic prejudica a sociedade e só serve a agiotas, banqueiros e rentistas, diz Condsef”. / “Das dez maiores empresas do país, cinco são instituições financeiras. Influem diretamente em outros setores, nas decisões sobre emprego, demissões, produção e investimentos. Até as empresas públicas entram na roda financista”. / “Trabalhadores são resgatados em condições análogas à escravidão em colheita de laranja [em Buri] no interior de SP”. / “Reforma trabalhista aumentou informalidade e encolheu salários”. / “Governo de SP [do Tarcísio] é condenado por incentivar trabalho infantil”.
- “No ataque ao BC, o país corre risco. No caso Master não houve só desequilíbrio entre ativos e passivo. Houve crime, isso torna mais graves as pressões políticas e jurídicas”. / “CDBs irreais e carteiras de crédito falsas: entenda o que está por trás da liquidação do Banco Master”. / “Faria Lima está contaminada pelo crime organizado, diz Receita Federal”. / “PCC [facção criminosa] controla ao menos 40 fundos de investimentos com patrimônio de mais de R$ 30 bilhões, diz Receita Federal”. / “Operação [Carbono] teve como alvo atuação do PCC [facção criminosa] no mercado financeiro e no setor de combustíveis; crime extrapola tráfico de drogas e avança em negócios legais que precisam de fiscalização, apontam especialistas em segurança pública”. / “Órgãos de controle miram desvios em contratos de gestão de saúde, que movimentam R$ 30 bi por ano”.
- “Justiça tem de estar no centro dos acordos climáticos, diz Mariana Mazzucato”. / “COP 30: países anunciam investimentos para fundo de florestas tropicais”. / “Cidades brasileiras têm ignorado uma solução simples e econômica para lidar com a crise climática: a arborização”. / “PL do licenciamento: Senado desmantela segurança ambiental e social do país”. / “PL da Devastação não é uma derrota do governo, é uma derrota da humanidade”. / “Como o governo Lula colaborou para aprovar o PL da Devastação”. / “Degradação na Amazônia Legal bate recorde e cresce 482% em 2025”. / “Assassinatos em série e impasse jurídico: a longa espera pela demarcação de terras indígenas no sul da Bahia”. / “Polícia aponta homicídio em caso de indígenas encontradas carbonizadas em MS”. / “Greenpeace flagra 130 balsas no Rio Madeira e aponta atividade garimpeira descontrolada na região”. / “Mineração contamina o povo Xikrin com metais pesados”. / “Prometido para este ano, projeto de delimitação se arrasta há quase três décadas e é travado agora por falta de recursos; povo Kawahiva está sob risco de extinção”.
- “Fracassos de Derrite provam que direita [brasileira] sabe muito menos sobre segurança pública do que diz”. / “Rio não evitou avanço de facções com operações policiais e impulsionou milícias, diz estudo [do Geni-UFF]”. / “Ação policial no RJ: Há indícios de execuções, diz deputado Otoni de Paula”. / “PF: Suspeito de integrar [a facção criminosa] CV esteve com secretário de Castro [governador do RJ]”. / “Ao mandar prender Bacellar [presidente da Alerj], Alexandre de Moraes afirmou haver fortes indícios de sua participação em uma organização criminosa”. / “Execução de Ngange Mbaye [senegalês] nas ruas do Brás foi a terceira morte de um imigrante africano em ações da Polícia Militar de São Paulo em menos de um ano”. / “Homem morre na praça da Sé, em SP, após noite fria”. / “Sem território fixo, Cracolândia continua na centro de São Paulo”. / “PM-SP mata morador em operação na Favela do Moinho, e vizinhos falam em execução”. / “Pesquisas do LabCidade [FAU-USP] revelam fraude nas Habitações de Interesse Social em SP”.
- “Só 14% dos professores do país dizem se sentir valorizados pela sociedade”. / “Sem direitos trabalhistas, professores temporários já são metade dos docentes nas redes estaduais”. / “Justiça de SP suspende contratação de PMs para atuar em escolas cívico-militares”. / “Justiça proíbe Tarcísio de dispensar professores durante licença médica”. / “Pesquisadores mostram que investimento de quase 500 milhões em plataformas educacionais feito por Tarcísio e Feder não contribuiu com a aprendizagem dos estudantes da rede estadual”. / “Funcionária de escola infantil foi prensada por PMs armados após pai contestar desenho de matriz africana, dizem testemunhas”. / “Pais, alunos e representantes de sindicatos protestam contra policiais que entraram em escola para intimidar educadores por causa de uma atividade sobre a mitologia dos orixás”. / “Seis estados descumprem a carga horária mínima do Ensino Médio, aponta estudo [da Rede Escola Pública e Universidade]”. / “Nós estrangeiros ficamos impressionados com o quanto as universidades brasileiras fazem com tão pouco”. / “Academia Brasileira de Ciências diz que governo Lula está desmontando universidades”. / “Congresso corta verba de universidades federais, que terão quase R$ 400 milhões a menos”. / “SBPC [Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência] e ABC [Academia Brasileira de Ciências] lamentam os cortes orçamentários presentes na LOA [Lei Orçamentária Anual] 2026”.
Essas manchetes nos dão muitos motivos para lamentações. A tendência segue sendo a da acumulação da riqueza mundial nas mãos de pouquíssimos indivíduos: a “fortuna dos 1% mais ricos cresceu mais de 33,9 trilhões de dólares desde 2015”. Aumento da concentração da riqueza, aumento da desigualdade, aumento da pobreza, aumento dos desvios de riqueza para paraísos fiscais, aumento das fraudes fiscais, ampliação da precarização do trabalho, predomínio da financeirização, predomínio das corporações transnacionais, aumento dos gastos públicos com armamentos e aumento das guerras setoriais, aumento da degradação ambiental, aumento das violações dos direitos humanos, aumento dos refugiados, redução do bem-estar das populações pobres, aumento da gentrificação e aumento da criminalização da pobreza, aumento da ansiedade e da depressão, redução dos investimentos públicos em seguridade social, etc.
Cadê as iniciativas por parte dos nossos governantes para mudar esse cenário? Temos visto muita gente omissa, gente que participa dos governos mas não tem compromisso com a causa das pessoas mais vulneráveis, gente que diz defender minorias mas não tem coragem de enfrentar os interesses dos grandes grupos econômicos. Muito triste.
Os mais pessimistas dirão imprudentemente que as populações têm os governantes que elas merecem. Mas isto é enganoso. As populações do mundo mostram-se mais conscientes a respeito das interferências danosas do poder econômico sobre as políticas públicas. Por exemplo, a população brasileira é majoritariamente favorável às medidas para reduzir as desigualdades sociais: 80% dos brasileiros apoiam redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, 84% aprovam isenção do Imposto de Renda para trabalhadores pobres, e 70% apoiam taxar renda dos bilionários.
Apesar de todas as pressões do poder econômico sobre o sistema político, sobre o judiciário e sobre a opinião pública em geral, as populações mostram-se insatisfeitas e cansadas com toda a ladainha neoliberal e privatista que vem sendo continuamente propagada.
Espera-se que a opinião pública dê menos espaço aos intelectuais e colunistas pessimistas, ressentidos e catastrofistas, e dê muito mais espaço para intelectuais que estão pensando efetivamente no bem comum. Por exemplo: Ingrid Robeyns, Mariana Mazzucato, Thomas Piketty, Trebor Scholz, Peter Phillips, Angus Deaton, Ladislau Dowbor, Maria Lúcia Fattorelli, entre outros e outras.
Sigamos com a esperança de construir um mundo mais justo.
Uma saudação especial para as pessoas inspiradoras e talentosas que nos deixaram neste ano de 2025: Assata Shakur, Jijukè Karajá, Orivaldo Koremazoka, Mãe Elzita Vieira, Mãe Carmen de Oliveira Silva, Washington Dias, Edson Moreira, Wanda Chase, Clara Charf, Marly dos Santos, José Mujica, Valentin Mudimbe, Jane Goodall, Bernard Charlot, Sergio Miceli, Clayton de Souza Rodrigues, Niède Guidon, Heloísa Teixeira, Roberto Kant de Lima, Norberto Luiz Guarinello, Luiz Roberto Alves, José Afonso da Silva, Alasdair MacIntyre, Luís Fernando Veríssimo, Mario Vargas Llosa, Ozzy Osbourne, Roberta Flack, Marianne Faithfull, Nana Caymmi, Ângela Rô Rô, Cristina Buarque, Arlindo Cruz, Haroldo Costa, Jards Macalé, Jimmy Cliff, Diane Keaton, Brigitte Bardot, Presley Chweneyagae, Wlamir Marques, Wanda dos Santos, Shewarge Alene, Jean-Jacques Wallis, Souleymane Cissé, David Lynch, Rob Reiner, Cacá Diegues, Silvio Tendler, Luís Stadelmann, Joseph Ballong, Emmanuel Alabi, Jorge Mario Bergoglio (Papa Francisco), entre outros e outras.
* Crédito da imagem: Mugshot of Assata Shakur, FBI, U.S. Government, 1982.
Referências:
Dowbor, L. Os desafios da revolução digital: libertar o conhecimento para o bem comum. São Paulo: Elefante, 2025.
Ghiraldelli, P. Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades. São Paulo: Cefa Editorial, 2025.
Leite, M. “Limitarianismo, ou por que hiper-ricos são do mal.” Folha de S. Paulo, São Paulo, 12 jan. 2025.
Zem, R. “Fortuna do 1% mais rico poderia acabar com a pobreza 22 vezes, aponta estudo.” G1 Economia, São Paulo, 26 jun. 2025.




Uma resposta
Li e fiquei deprimida… Difícil manter a chama acesa