Inclusão Digital ou Adestramento de Tela? O alerta de Paulo Freire para a Escola do Século XXI

Imagine que hoje, neste exato momento, você, leitor ou leitora, tivesse que escolher uma escola para matricular seus filhos. O principal critério seria o investimento em novas tecnologias ou o método pedagógico da escola?

Imagino que o melhor dos mundos seria uma escola que se dedicasse aos dois critérios. Mas seria isso possível?

Cada vez mais nos deparamos com a presença das novas tecnologias em nossa vida diária; seja para registrar uma informação, usar um transporte público, acompanhar o noticiário ou apenas se divertir. A questão central parece ser a forma como nos comportamos diante dessas novas ferramentas.

Nosso comportamento diante do novo, daquilo que nos desafia, sempre foi uma base importante para os estudos desenvolvidos na área educacional. Vários pesquisadores ao redor do mundo dedicaram anos de pesquisa tentando desvendar formas de provocar a curiosidade dos alunos e manter sua atenção a longo prazo.

Entre os pesquisadores com resultados surpreendentes diante desse dilema pedagógico, escolho com orgulho para embasar este texto, o educador brasileiro Paulo Freire, que se estivesse vivo completaria neste mês de setembro 105 anos.

Nascido na cidade do Recife, Estado de Pernambuco, dedicou sua vida à defesa de uma Educação libertadora, que provocasse a curiosidade, que fizesse sentido ao aprendente e o auxiliasse na construção de um pensamento crítico sobre o mundo onde vive.

Mesmo com as mudanças culturais, sociais, políticas e pedagógicas, Paulo Freire se mantem plenamente atualizado com as novas questões que surgem, como é o caso da era digital.

Tudo é uma questão de “narrativa”

Você pode pensar que estou brincando, mas não estou, toda essa movimentação que temos hoje em torno das redes sociais, seu caráter altamente hipnotizante baseado no trabalho dos algoritmos, nada mais é do que oferecer ao usuário mais e mais daquilo que parece fazer sentido para ele. A diferença é que as redes sociais não educam, mas sim, causam dependência. Mas o princípio parece ser o mesmo daquele que impulsionou nossos pesquisadores da área educacional: nosso comportamento diante do novo, daquilo que nos desafia.

Pobre Paulo Freire, se estivesse vivo talvez estivesse muito irritado!

Foto de  Paulo Freire
Crédito: Reprodução

Vivemos um tempo às avessas, onde o contexto parece ser moldado pelas narrativas. A cada minuto surge alguém em alguma mídia social explicando um discurso, um acontecimento ou apenas o trecho de uma fala alheia embasado na sua própria “narrativa”. O problema parece morar no comportamento daquele que consome esta informação, que não a olha criticamente, que não a confronta com outras bases de dados, que não é capaz de questionar aquilo que presencia. Talvez estejamos vivendo uma espécie de comportamento de alienação social, caracterizado pelo “estado em que os indivíduos perdem o senso crítico, a autonomia e a conexão com a realidade coletiva, tornando-se passivos diante das estruturas políticas e econômicas”.[1]

A incorporação de novas tecnologias no ambiente escolar, por si só, é insuficiente para atender às demandas da dinâmica social contemporânea; é preciso ir além. Vivemos um momento de transição pedagógica em que os princípios educacionais fundamentais devem prevalecer sobre as ferramentas tecnológicas, e não o contrário.

Será que ainda há tempo para mudanças?

A questão que parece se perder nessa transição é a de que Educação não se resolve com a simples inclusão de novas tecnologias ao ambiente educativo, mas sim, com um trabalho árduo de construção cognitiva crítica, para que o educando possa identificar os mecanismos nocivos de adicção tecnológica, presentes em vários ambientes digitais. Está aí a importância de auxiliar pessoas a pensarem criticamente sobre o mundo.

E quando se fala em “auxiliar pessoas”, podemos pensar na relação entre professor e aluno enquanto via dupla de aprendizagem:  

[…] ensinar e aprender se vão dando de tal maneira que quem ensina aprende, de um lado, porque reconhece um conhecimento antes aprendido e, de outro, porque observando a maneira como a curiosidade do aluno aprendiz trabalha […] o ensinante se ajuda a descobrir incertezas, acertos, equívocos.

(FREIRE, 1993, p.27)[2]

Este trecho revela a possibilidade de uma aprendizagem constante, sem barreiras sociais ou hierárquicas, apenas se valendo da capacidade cognitiva de cada sujeito, quando liberto das amarras impostas por uma sociedade com tendência autoritária ou extremamente licenciosa.  

É justamente nesse ponto que o pensamento de Freire se transforma em um antídoto urgente. Para o autor de Pedagogia do Oprimido[3], o conhecimento autêntico nunca se dissocia da realidade vivida nem se reduz a uma mera transferência de informações. É aqui que reside o abismo entre o ecossistema digital e a verdadeira Educação: enquanto os algoritmos das redes sociais nos aprisionam em bolhas de conforto cognitivo, alimentando nossa atenção com aquilo que reforça nossos vieses, a Educação freireana propõe o exato oposto. Ela desacomoda. O saber com sentido para Freire é aquele que emerge da leitura crítica do mundo, que parte do contexto do educando para problematizá-lo, jamais para anestesiá-lo.

Quando assistimos à corrida desenfreada pela inserção de dispositivos eletrônicos e plataformas corporativas nas salas de aula, muitas vezes sem a retaguarda de uma reflexão pedagógica sólida, corremos o risco de cair na armadilha do tecnicismo. A ferramenta passa a ocupar o lugar do pensamento; o meio digital converte-se no próprio fim da escolarização. Em vez de formar cidadãos capazes de intervir criticamente em seu tempo, corre-se o risco de produzir gerações de hábeis operadores de softwares, vulneráveis à manipulação algorítmica e à mercantilização da atenção.

Fonte: Canal UM BRASIL[4]

Contra essa tendência de esvaziamento humano, a atualidade de Paulo Freire nos convoca a resgatar a centralidade da práxis[5]. As novas tecnologias são bem-vindas, mas desde que submetidas ao crivo da emancipação humana. Elas devem servir para ampliar o diálogo e a pesquisa, e nunca para substituir o ato político de pensar junto. Afinal, nenhuma inteligência artificial, por mais avançada que seja, é capaz de substituir a alegria e o risco de construir o conhecimento na relação dialógica com o outro. É por isso que, aos 105 anos de seu legado, Freire continua nos olhando nos olhos, perguntando a quem educa: a tecnologia está a serviço da nossa liberdade ou da nossa domesticação?

A promessa de Política Pública inovadora

É preciso ir além do fascínio superficial e desmascarar o discurso que embala muitas das políticas públicas atuais para a Educação. O que assistimos com frequência é uma “inclusão marketeira”, movida menos por um projeto legítimo de emancipação social e mais por interesses corporativos e de marketing político. Sob o slogan sedutor da “modernização tecnológica” e da “escola do futuro”, governos e grandes corporações tecnológicas fecham contratos milionários para entupir as salas de aula de dispositivos, lousas digitais e plataformas diversas, como se a simples presença do acesso à internet fosse capaz de curar as mazelas históricas de nossa Educação Pública.

Para Paulo Freire, no entanto, a verdadeira inclusão nunca foi sinônimo de mero acesso passivo a artefatos, mas sim de conscientização. A digitalização acrítica da escola, reduzida à distribuição de aparelhos e pacotes de aplicativos, converte-se em uma nova vertente da educação “bancária”. O aluno deixa de ser o depositário de conteúdos tradicionais para se tornar o receptor de estímulos algorítmicos e o gerador de dados para o mercado[6]. Promete-se inclusão, mas entrega-se adestramento digital. O letramento instrumental substitui o letramento político, formando indivíduos aptos a consumir tecnologia, mas incapazes de questionar as estruturas de poder que a sustentam.

Reduzir a inovação pedagógica à compra de pacotes tecnológicos é ignorar que a opressão digital não se combate com mais tecnologia, mas sim com práticas pedagógicas emancipatórias. Quando a política pública se rende ao mercado, a escola corre o risco de perder o seu sentido fundante: deixar de ser o espaço de encontro, diálogo e construção da autonomia para se transformar em um mero mercado consumidor de inovações descartáveis.

Contra essa lógica mercantilista, o legado de Paulo Freire nos recorda que nenhuma tecnologia tem valor pedagógico em si mesma; ela só é revolucionária se estiver a serviço da liberdade, da justiça social e da humanização dos sujeitos.


[1] Fonte: Senado Federal – BR – Disponível em: https://adm.senado.leg.br/vcb/vocab/index.php?tema=2048&/alienacao-social – Acesso em 02/09/2026.

[2] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1993.

[3] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1993.

[4] https://www.instagram.com/canalumbrasil?igsi=eWlmbnp5cW5oNTd0

[5] A práxis para Paulo Freire é a união constante entre a ação e a reflexão dos seres humanos sobre o mundo para transformá-lo

[6] Saiba mais em: https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/18266/1/PreocupacaoPrivacidadeConfianca.pdf – Acesso em 03/09/2026.

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