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Hygge: A Arte do Cuidado Acolhedor

Hygge: A Arte do Cuidado Acolhedor

O conceito dinamarquês hygge transcende a mera noção de conforto físico, traduzindo-se em uma experiência integral de bem-estar emocional, relacional e ambiental. Trata-se de uma filosofia de vida que valoriza a presença, a autenticidade e a simplicidade como caminhos para a satisfação e a saúde. Num tempo em que a prática da enfermagem de reabilitação é crescentemente desafiada pela sobrecarga dos sistemas de saúde e pela prevalência de abordagens tecnicistas, o hygge surge como uma proposta inovadora, que integra ciência e sensibilidade na gestão e prestação de cuidados.

Conforme destaca Wiking (2023), o hygge é a prática deliberada de criar momentos significativos, baseados em segurança emocional, aconchego e pertencimento. Esta abordagem não se limita ao lar, mas estende-se aos espaços coletivos e institucionais, incluindo o ambiente hospitalar. Estudos escandinavos recentes demonstram que contextos permeados por elementos hygge, como iluminação suave, ambientes silenciosos, temperatura agradável e relações de confiança, são capazes de reduzir os níveis de cortisol, aumentar a sensação de bem-estar e melhorar significativamente a experiência dos clientes (Pedersen & Rasmussen, 2024). Esta evidência sugere que o ambiente terapêutico, muitas vezes negligenciado como fator secundário, exerce papel crucial no processo de cura.

Na perspetiva da saúde coletiva, a Organização Mundial da Saúde (2024) reconhece que o bem-estar emocional está diretamente relacionado à adesão terapêutica, à recuperação clínica e à qualidade de vida. Isto implica que estratégias de humanização, como aquelas inspiradas pelo hygge, não devem ser vistas como complementares, mas como constitutivas de uma prática clínica eficaz. No âmbito da enfermagem de reabilitação, esta abordagem  alinha-se com os princípios do cuidado centrado na pessoa e da reabilitação holística, conforme defendido por Costa, Henriques e Sousa (2024), para quem a recuperação é tanto técnica quanto emocional.

A presente análise baseia-se numa reflexão qualitativa de natureza interpretativa, sustentada por uma revisão narrativa da literatura publicada entre 2023 e 2025. Foram consultadas bases de dados como ScienceDirect, Wiley Online Library e SpringerLink, priorizando-se artigos relacionados a ambientes terapêuticos, bem-estar emocional, inovação em cuidados de saúde e práticas de enfermagem de reabilitação. A análise interpretativa da fala hermeneutica permitiu apreender o hygge como uma experiência vivida e adaptável, revelando-se pertinente no contexto assistencial e gerencial da enfermagem.

O hygge, enquanto manifestação da harmonia entre corpo, mente e ambiente, propõe uma redefinição do paradigma de bem-estar. Inspirando-se na ideia do “suficiente”, opõe-se à lógica da escassez ou do excesso, sugerindo que o cuidado eficaz pode estar presente em gestos simples, como uma escuta empática, uma pausa para o silêncio ou um ambiente luminoso e acolhedor. Tal como defende Antonovsky (2024), saúde é a coerência entre o que sentimos, fazemos e acreditamos, e o hygge pode ser interpretado como esta coerência encarnada no cotidiano do cuidado.

No plano institucional, o hygge transforma-se também em ferramenta de gestão. Em vez de compreender a liderança como mera técnica administrativa, propõe-se um modelo de liderança emocional, no qual a qualidade das relações interpessoais influência diretamente a produtividade e a sustentabilidade do trabalho em saúde. Segundo Wlodarczyk (2024), equipes que operam em ambientes emocionalmente seguros são mais resilientes, cooperativas e comprometidas com a excelência assistencial. Neste sentido, integrar o hygge à gestão do cuidado significa promover espaços de trabalho saudáveis, baseados no respeito mútuo, na colaboração e na valorização da presença.

A inovação, por sua vez, não precisa ser ruidosa ou exclusivamente tecnológica. O hygge se apresenta como uma inovação silenciosa, mas transformadora, capaz de alterar radicalmente a experiência terapêutica por meio de intervenções sutis e eficazes. Em enfermagem de reabilitação, estas inovações incluem a introdução de iluminação adaptativa, música ambiental, técnicas de mindfulness, jardinagem terapêutica e rituais de autocuidado integrados à rotina clínica. Estudos como os de Oliveira e Henriques (2025) demonstram que estas práticas aumentam a motivação dos clientes, reduzem os sintomas de ansiedade e fadiga e promovem uma recuperação mais integrada e significativa.

O papel do enfermeiro de reabilitação neste processo é essencial. Ele atua como mediador entre o rigor técnico e a presença afetiva, encarnando a ideia de que cuidar é também confortar. Ao incorporar o hygge à sua prática, este profissional torna-se mais atento às microdemandas do cliente, o gesto, o olhar, o tempo de escuta, que, embora intangíveis, possuem impacto terapêutico mensurável. Como afirma Watson (2023), o toque é a primeira linguagem do cuidado, e o hygge convida o enfermeiro a resgatar essa linguagem com intencionalidade e gentileza. Um estudo longitudinal conduzido por Ferreira, Oliveira e Ramos (2025) revela que ambientes terapêuticos que estimulam sensações de calma e pertença reduzem as taxas de readmissão hospitalar em até 22%, ao mesmo tempo em que melhoram os indicadores funcionais dos clientes.

Além disto, o hygge propõe uma ética do cuidado orientada para o futuro. Num cenário em que a tecnologia avança rapidamente, há o risco de a eficiência desumanizar a assistência. O hygge resgata o valor da presença e da emoção, propondo que toda inovação deve ser pautada pelo compromisso com o bem-estar humano. A verdadeira transformação tecnológica não está em substituir o cuidado, mas em potencializá-lo por meio da sensibilidade e da escuta. A formação de profissionais de saúde, neste contexto, deve incluir não apenas competências técnicas, mas também habilidades relacionais, emocionais e ambientais. Ao ser incluído na educação em enfermagem e gestão, o hygge pode inspirar uma nova geração de cuidadores conscientes do impacto do ambiente e da emoção na saúde e na qualidade da assistência.

Portanto, ao refletir sobre o papel do hygge na enfermagem de reabilitação, reconhece-se nele uma ferramenta terapêutica e gerencial valiosa, capaz de transformar o cuidado em uma prática mais humanizada, eficaz e sustentável. O hygge não é um luxo escandinavo importado, mas uma resposta ética e prática às exigências de um sistema de saúde que precisa, cada vez mais, de cuidado com sentido. Ao cultivar ambientes de serenidade, promover a escuta, respeitar o tempo do outro e valorizar o vínculo, o enfermeiro torna-se agente de cura não apenas do corpo, mas também da subjetividade.

Conclui-se, assim, que integrar o hygge na prática clínica é um ato de resistência à desumanização e uma escolha por um cuidado com alma. Ao invés de apenas intervir, o profissional passa a acompanhar; em vez de apenas prescrever, ele também acolhe. Como bem sintetiza Wiking (2023), “felicidade não é um destino, é o modo como percorremos o caminho”, e o hygge, neste percurso, pode ser a lanterna que ilumina a jornada do cuidado com calor, delicadeza e profundidade.

Referências Bibliográficas

Andersson, K., Larsen, M., & Nielsen, H. (2025). Healing environments and patient satisfaction in Scandinavian rehabilitation units. Journal of Holistic Nursing, 43(2), 178–190.

Antonovsky, A. (2024). Sense of coherence revisited: Resilience and well-being in the 21st century. Scandinavian Journal of Public Health, 52(1), 15–28.

Costa, P., Henriques, F., & Sousa, M. (2024). Humanização e reabilitação: O papel do enfermeiro na recuperação funcional. Revista Portuguesa de Enfermagem de Reabilitação, 7(1), 25–39.

Ferreira, J., Oliveira, D., & Ramos, L. (2025). Design emocional em unidades de reabilitação: Impactos funcionais e psicológicos. International Journal of Nursing Practice, 31(3), e15489.

Oliveira, M., & Henriques, S. (2025). Therapeutic environments and patient comfort: The future of integrative care. Nursing Innovation Journal, 12(4), 211–225.

Pedersen, L., & Rasmussen, P. (2024). The hygge effect: Environmental psychology and happiness in Denmark. Scandinavian Journal of Psychology, 65(2), 101–117.

Watson, J. (2023). Human caring theory: The science of love and healing. Watson Caring Science Institute.

Wiking, M. (2023). The little book of hygge: The Danish way to live well. Penguin Life.

World Health Organization. (2024). Health and well-being in the European Region: Progress report 2024. WHO Regional Office for Europe.

Wlodarczyk, D. (2024). Emotional leadership in healthcare organizations: Creating positive cultures of care. Health Management Review, 19(1), 44–58.

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