Ainda que não seja o mote principal defendido nesta coluna, às vezes, precisamos evadir-nos através de um filme, que nos permita algum idílio em meio às atrocidades noticiadas diuturnamente. O caso devastador dos adolescentes sulistas que espancaram um cachorro até a morte, numa região praiana, é uma destas situações que exigem que encontremos alguma exortação à beleza e/ou convocação à esperança num filme. É para isso que servem os enredos infantis — os melhores, ao menos.
Estreado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em outubro de 2025, reprisado numa seção destinada às crianças, na Mostra de Cinema de Tiradentes, e selecionado para participar do Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2026, o longa-metragem “Papaya” (2025, de Priscilla Kellen) encanta-nos pelo modo como estende uma situação bastante simples — a trajetória de uma semente de mamão, do instante em que cai no chão até a sua reencarnação enquanto inseto alado –, a fim de denunciar os efeitos destrutivos do agronegócio e valorizar os esforços individuais na persecução de um sonho.
Estruturado de maneira geométrica, com círculos e triângulos abundantes, além da ênfase nas cores dos vegetais apresentados, “Papaya” inicia-se de maneira abstrata, com vários formatos superpostos, até que identifiquemos uma sementinha mamando nas tetas internas de uma fruta. De repente, notamos que esta sementinha é uma dentre dezenas, no interior de um mamão. Barulhos irrompem do lado de fora, de modo que logo percebemos que este mamão está sendo perfurado por um pássaro faminto. Nossa sementinha protagonista (dublada por Aretha Garcia, que imita os grunhidos de estupefação de um bebê, maravilhado e assustado perante o mundo que descobre) cai no chão, e começa a criar raízes. Mas ainda não é o momento para ela converter-se em mamoeiro…
Esta sementinha peralta, a quem chamaremos Papaya (conforme o título indica), testemunhará o fascínio das movimentações naturais do ecossistema em que vive, mas ela será conduzida até um local em que as plantas são colhidas precocemente, inoculadas por substâncias que aceleram um desenvolvimento artificial e etiquetadas como meros objetos vendáveis. No afã por escapar deste processo, Papaya é confundida com detritos e atirada num depósito de lixo, onde percebe uma fauna totalmente distinta daquela que promove a polinização, em seu habitat natal. No meio da sujeira, uma ciranda de baratas, ratos e escorpiões. Eis um percurso de amadurecimento que não subestima a inteligência das crianças na platéia nem frustra as expectativas narrativas e discursivas dos adultos: o desfecho é primoroso, em sua organicidade quase surrealista da fecundação na natureza. Papaya realiza um sonho ao voltar para o ambiente onde estivera inicialmente: emocionada, a mamãe-mamoeiro chora!
Embalado pela trilha musical de Talita del Collado, que conta com a participação de Tulipa Ruiz numa canção, este filme dura menos de setenta e cinco minutos e não precisa de diálogos para transmitir a sua mensagem: a realizadora, que é também roteirista e diretora de arte, serve-se de múltiplas técnicas de animação — incluindo a colagem — para contar uma estória que é edificante mas também denuncista, acerca de um tipo de agricultura que provoca a devastação ambiental e subaproveita os nutrientes dos alimentos ultraprocessados. Papaya zanza por vários contextos de urbanização forçada, sendo obrigada a realçar a sua graciosidade pueril, de modo a concretizar o sonho de voar e estar em constante movimento. O estilo do co-produtor e supervisor técnico Alê Abreu — que dirigiu o ótimo “O Menino e o Mundo” (2013) — é reconhecido como influência assumida da diretora, que já trabalhou com ele em mais de uma oportunidade. Muito bonito que o filme consiga nos emocionar legitimamente, fazendo-nos crer na comunhão entre seres vivos (vide o balé das libélulas nascentes ou o treino de vôo das joaninhas), em contraponto a eventos tão cruéis como aquele citado no primeiro parágrafo. Já que este é o primeiro longa-metragem da diretora, é apenas o início de uma carreira promissora de estímulos transformadores para o público, que reage de maneira efusiva ao filme. Voa, mamãozinho, voa!
Wesley Pereira de Castro
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