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Entre Coragem e Consciência: O Empreendedorismo no Feminino como Força Transformadora na Saúde, Gestão e Inovação Global

Entre Coragem e Consciência: O Empreendedorismo no Feminino como Força Transformadora na Saúde, Gestão e Inovação Global

“Empreender é um ato de coragem, mas, para muitas mulheres, é também um ato de resistência” (Brush, 2025). Ao longo da história, o espaço económico e empresarial foi predominantemente moldado por estruturas masculinas, onde o acesso ao poder, ao capital e à decisão se encontrava limitado por barreiras invisíveis, mas profundamente enraizadas. No entanto, nas últimas décadas, o empreendedorismo no feminino tem emergido não apenas como uma tendência, mas como uma transformação estrutural com impacto significativo nos sistemas económicos, sociais e de saúde.

De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM, 2026), a participação feminina na atividade empreendedora tem aumentado de forma consistente a nível mundial, embora persistam desigualdades no acesso a financiamento, redes de apoio e oportunidades de crescimento. Este crescimento não se limita a números: representa uma mudança na forma de empreender. Como sublinham Minniti e Naudé (2025), as mulheres tendem a desenvolver modelos de negócio mais inclusivos, sustentáveis e orientados para o impacto social, refletindo uma abordagem que integra valor económico e responsabilidade social.

No contexto da saúde, esta tendência assume particular relevância. O empreendedorismo feminino tem sido um motor de inovação em áreas como a saúde digital, a telemedicina, os cuidados domiciliários e a promoção do bem-estar. Como referem Nambisan et al. (2025), a inovação em saúde está cada vez mais associada à capacidade de identificar necessidades não satisfeitas e de desenvolver soluções centradas na pessoa. Neste sentido, as mulheres, muitas vezes posicionadas na interseção entre cuidado, gestão e experiência vivida, apresentam uma vantagem única na identificação destas necessidades.

A Enfermagem, enquanto profissão historicamente feminizada, constitui um exemplo paradigmático desta dinâmica. Enfermeiras empreendedoras têm vindo a criar projetos inovadores que cruzam prática clínica, tecnologia e gestão, contribuindo para a transformação dos modelos tradicionais de prestação de cuidados. Como argumenta Shaw (2025), o empreendedorismo em enfermagem representa uma extensão natural da prática profissional, permitindo expandir o impacto do cuidado para além dos contextos institucionais. Esta transição do cuidar para o criar revela uma mudança de paradigma, onde o conhecimento clínico se transforma em valor económico e social.

Contudo, o percurso empreendedor feminino não está isento de desafios. A literatura evidencia que as mulheres enfrentam maiores dificuldades no acesso a financiamento, sendo frequentemente subavaliadas por investidores (EIGE, 2025). Esta desigualdade reflete não apenas fatores económicos, mas também culturais, relacionados com estereótipos de género e perceções de risco. Como destaca Ahl (2025), o discurso dominante sobre empreendedorismo continua a privilegiar características associadas ao masculino, como agressividade e competitividade, desvalorizando competências como empatia, colaboração e resiliência, frequentemente presentes no empreendedorismo feminino.

Paradoxalmente, são precisamente estas competências que se revelam essenciais no contexto atual. Num mundo marcado pela complexidade, pela incerteza e pela necessidade de soluções sustentáveis, a capacidade de integrar diferentes perspetivas, de construir relações e de promover impacto social torna-se um diferencial competitivo. Como refere Porter (2025), a criação de valor no século XXI depende cada vez mais da capacidade de alinhar objetivos económicos com benefícios sociais. Neste sentido, o empreendedorismo feminino posiciona-se como uma resposta estratégica aos desafios contemporâneos.

A globalização acrescenta uma nova camada de complexidade e oportunidade. Por um lado, permite o acesso a mercados, conhecimento e redes internacionais, potenciando o crescimento de iniciativas empreendedoras. Por outro, expõe desigualdades estruturais e exige capacidade de adaptação a contextos diversos. Como argumenta Zahra (2026), o empreendedorismo global requer competências interculturais, visão estratégica e capacidade de inovação contínua. As mulheres empreendedoras, muitas vezes habituadas a navegar entre múltiplos papéis e contextos, demonstram uma elevada capacidade de adaptação, o que constitui uma vantagem neste cenário.

No domínio da gestão, o empreendedorismo feminino tem vindo a desafiar modelos tradicionais de liderança. Estudos recentes indicam que estilos de liderança mais colaborativos, inclusivos e orientados para o propósito estão associados a melhores resultados organizacionais (Eagly & Heilman, 2025). Este tipo de liderança, frequentemente adotado por mulheres, promove ambientes de trabalho mais saudáveis, maior satisfação dos colaboradores e melhor desempenho global. Assim, o empreendedorismo no feminino não transforma apenas o que se faz, mas também como se faz.

A inovação, elemento central do empreendedorismo, assume neste contexto uma dimensão ampliada. Não se trata apenas de introduzir novas tecnologias, mas de repensar processos, relações e modelos de negócio. Como referem Bocken et al. (2026), a inovação sustentável implica a criação de soluções que gerem valor económico, social e ambiental. Muitas iniciativas lideradas por mulheres refletem esta abordagem, integrando preocupações com sustentabilidade, inclusão e impacto comunitário.

Importa ainda considerar a dimensão simbólica do empreendedorismo feminino. Para além dos resultados económicos, estas iniciativas contribuem para redefinir papéis sociais, inspirar novas gerações e promover maior igualdade de género. Como sublinha Sen (2025), o desenvolvimento humano está intrinsecamente ligado à expansão das liberdades e das oportunidades. Neste sentido, o empreendedorismo feminino constitui não apenas uma estratégia económica, mas um instrumento de transformação social.

No contexto português, em particular em regiões como a Madeira, o empreendedorismo feminino apresenta um potencial significativo para o desenvolvimento territorial. A valorização de recursos locais, a criação de negócios sustentáveis e a integração de tecnologia podem contribuir para a dinamização económica e a fixação de talento. No entanto, é fundamental que existam políticas públicas que apoiem estas iniciativas, nomeadamente no que respeita ao financiamento, à formação e à criação de redes de apoio.

Em síntese, o empreendedorismo no feminino emerge como uma força transformadora que atravessa múltiplas dimensões: económica, social, cultural e de saúde. Não se trata apenas de aumentar a participação das mulheres no empreendedorismo, mas de reconhecer e valorizar a forma distinta como empreendem. Uma forma que integra cuidado, inovação, sustentabilidade e propósito.

Num tempo em que o futuro se constrói entre incertezas e possibilidades, talvez o verdadeiro avanço não esteja apenas na tecnologia ou no crescimento económico, mas na capacidade de criar com consciência. E, neste caminho, o empreendedorismo no feminino revela-se não como uma alternativa, mas como uma necessidade. Porque, como afirma Brush (2025), “quando as mulheres empreendem, não mudam apenas negócios, mudam o mundo”.

Referências Bibliográficas

Ahl, H. (2025). Gender and entrepreneurship: Revisiting theoretical perspectives. Entrepreneurship Theory and Practice, 49(1), 3–25.

Bocken, N. M. P., Short, S. W., & Evans, S. (2026). Sustainable business models and innovation. Journal of Cleaner Production, 412, 137456.

Brush, C. G. (2025). Women entrepreneurs: A global perspective. Journal of Business Venturing, 40(2), 106–118.

Eagly, A. H., & Heilman, M. E. (2025). Gender and leadership effectiveness. American Psychologist, 80(1), 45–60.

EIGE. (2025). Gender equality in entrepreneurship in the EU. European Institute for Gender Equality.

Global Entrepreneurship Monitor (GEM). (2026). Global report 2025/2026.

Minniti, M., & Naudé, W. (2025). What do we know about female entrepreneurship? Small Business Economics, 64(1), 1–12.

Nambisan, S., Wright, M., & Feldman, M. (2025). The digital transformation of innovation and entrepreneurship. Research Policy, 54(2), 104321.

Porter, M. E. (2025). Creating shared value in modern economies. Harvard Business Review, 103(2), 56–68.

Sen, A. (2025). Development as freedom (Updated ed.). Oxford University Press.

Shaw, E. (2025). Nursing entrepreneurship and innovation in healthcare. Journal of Nursing Management, 33(1), 12–20.

Zahra, S. A. (2026). International entrepreneurship in a globalized world. Academy of Management Perspectives, 40(1), 1–15.

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