Adriana Maria Giubertti[1]
Brasília, capital do Brasil, amanhece chuvosa no dia 04 de outubro de 2026. O Distrito Federal, como todos os estados brasileiros, prepara-se para votar no primeiro turno para Presidente da República e Governadores. Serão votados também Deputados Federais e Estaduais e Senadores da República.
Os automóveis começam a circular pela cidade buscando estacionamento perto das grandes zonas eleitorais. Em uma movimentação anormal para um domingo de manhã, já se criaram filas de eleitores nos locais de votação, cujo início é às 8 horas. Muitos querem garantir seu voto logo cedo. Outros querem apenas livrar-se da obrigação. Enorme quantidade de papel de propaganda política no chão e rostos indecifráveis por todo lado.
Hoje, disputam à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva, candidato que se eleito, emplaca a sua quarta vitória; e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro – hoje condenado e preso – candidatando-se ao seu primeiro governo.
Grande é a expectativa dos eleitores da esquerda brasileira. Pesquisas de opinião, algumas duvidosas, trazem incertezas. O imprevisto impera. Esta eleição, tanto quanto a anterior, consolida um modelo de dualidade de candidatos diferente de décadas passadas, não se configurando como duas propostas que encontram-se na competição. Hoje, existe uma proposta de governo trazida pelo PT, Partido dos Trabalhadores, em oposição à uma postura extremamente conservadora, mas principalmente, de antissistema, trazida pelo PL, Partido Liberal, impregnado pelo movimento bolsonarista.
Marcos Nobre[2], historiador brasileiro, expõe em seu livro “Limites da Democracia: de junho de 2013 ao governo Bolsonaro”, que o termo polarização não se aplica mais às eleições brasileiras a partir de 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro. Nos anos anteriores, nem PT, nem PSDB, principal partido da direita das eleições daquele período, ameaçaram a democracia. Ali sim se configurava dois polos. Já a eleição de Bolsonaro transformou o país em uma situação de emergência desrespeitosa permanente, trazendo enquanto desafio de seu governo a destruição das instituições democráticas.
Em uma campanha sem maiores surpresas, a não ser denúncias de orgias, propinas e escândalos financeiros atribuídos ao candidato da direita, Flávio Bolsonaro esqueceu de estudar seu próprio plano de governo apresentado ao TSE, mostrando-se extremamente despreparado e gaguejante em debates e entrevistas. Porém, nos bastidores, a família Bolsonaro promete, sem titubear, um desmonte do Estado, a entrega de riquezas nacionais aos Estados Unidos da América e uma promessa de subserviência eterna.
Já Luiz Inácio Lula da Silva, com uma imagem mais preservada e sempre defendendo o seu projeto de país, iniciado desde seu primeiro governo, mostra-se confiante, coerente e loquaz nas suas aparições públicas. Parece ao segmento da esquerda ser Lula o candidato mais provável de levar vantagem no primeiro turno das eleições para Presidente, mesmo estando ciente de que, cerceado pelo Congresso Nacional e com um governo de coalizão cada vez mais estrangulador, deve conseguir ampliar minimamente suas políticas sociais.
Às 17 horas, pelo horário de Brasília, sem maiores contratempos, votação encerrada, a apuração é iniciada. Flávio Bolsonaro larga na frente e lidera a contagem de votos. Para decepção da esquerda brasileira, assim permanece até o final do processo, apesar das denúncias, da falta de coerência e de ausência de propostas concretas que beneficiem a sociedade brasileira. 47,03% para Flávio Bolsonaro e 45,16% para Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar da pequena diferença e de um segundo turno garantido, marcado para 25 de outubro, o estrago é enorme.
No que se refere às eleições para Deputados Estaduais, Federais e Senadores, o partido do candidato Flávio Bolsonaro ganha um espaço decisivo para a condução do jogo político. Além disso, O PL foi o partido que elegeu mais governadores no primeiro turno das eleições de 2026.
Agora, um Congresso Nacional ainda mais conservador se constituiu no dia de hoje. O PL consolidou na Câmara dos Deputados a maior bancada, elegendo 81 deputados federais de um total parcial apurado, projetando chegar a 121 parlamentares na próxima legislatura e superando as previsões iniciais. O PT figurou em segundo lugar, com 47 eleitos. Partidos menores de esquerda praticamente desapareceram.
No Senado Federal, o PL deve alcançar 28 das 81 cadeiras a partir de fevereiro de 2027, quase o dobro da representação anterior, assegurando mais de um terço da Casa. O PT manteve 9 assentos.
Tal cenário impõe forte resistência no Legislativo para o próximo mandato presidencial, limitando a base de apoio de um eventual governo Lula ou fortalecendo a pauta de oposição caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno.
É previsto também um conflito de Poderes, pois a guinada conservadora aumenta a pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), elevando debates sobre pedidos de impeachment de ministros e revisões de condenações na esfera judicial, inclusive e provavelmente, do Bolsonaro pai e outros golpistas de Estado já condenados e cumprindo pena.
No que se refere à pautas econômicas e ambientais, vence as de desregulamentação, flexibilização do licenciamento ambiental e resistência a reformas fiscais e pautas identitárias ou ecológicas da esquerda.
As pautas sociais estão todas em xeque.
Um futuro incerto e sombrio espera o Brasil. Mesmo sendo Lula eleito no segundo turno, o que é extremamente improvável, não se prevê governabilidade. Com a possível eleição de Flávio Bolsonaro para Presidente, será o fim de uma era em busca de melhores condições de vida para o segmento mais pobre da população, de uma tentativa do reconhecimento das minorias e de direitos humanos mais consolidados.
Conforme decisão da sociedade brasileira, que permaneçam as Bets, manutenção da jornada 6×1, entrega de riquezas nacionais, fake News e divulgação de realidades paralelas como verdadeiras, liberação irrestrita e imoral de mensagens digitais, e demais estragos à nossa soberania. O povo escolheu. Que assim seja.
Foto sem direitos autorais retirado do site https://www.istockphoto.com/pt/foto/dark-overcast-sky-with-heavy-rain-and-lightning-intense-weather-phenomenon
[1] Historiadora e Socióloga, Mestre e Doutora pela Universidade de Brasília, UnB
[2] NOBRE, Marcos. Limites da democracia: de junho de 2013 ao governo Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2022.