Eleição em um Mundo Digitalizado: será que você foi influenciado?

Diante do novo mundo digital, uma disputa eleitoral não mais acontece apenas em comícios ou na televisão, ela se organiza fortemente nas plataformas digitais e em canais fechados no celular. São milhões de pessoas conectadas que cumprem imediatamente uma missão e a espalham para outros milhões como um raio, engajando outros tantos milhões.

Os chamados “partidos digitais” representam hoje uma alavanca fundamental para a campanha eleitoral de qualquer candidato que tenha a intenção de vencer uma eleição. Não há como negligenciar tal mobilização, porém, é preciso atenção redobrada, os algoritmos podem apresentar “instabilidades”.

No último dia 14 de outubro de 2026, a jornalista brasileira Dani Lima[1], em seu portal diário da plataforma Uol[2], denunciou ao vivo uma ação algorítmica perturbadora nas eleições presidenciais brasileiras. Segundo reportagem da jornalista, ilustrada com material retirado em tempo real de plataformas digitais, a Meta AI barrou imagens para ‘Lula 13’ e autorizou comandos para ‘Flávio 22’ (Fonte: Pulso Político com Daniela Lima)[3]

Ainda no decorrer da mesma reportagem, o jornalista João Paulo Charleaux[4] que participou da programação deste dia declarou:

 “Sim, aliás, viral, né? Inclusive o Google me ligou por causa disso num domingo. Eh, eu perguntei por declarações do Lula a respeito de crime organizado e terrorismo, me deu algumas declarações atribuídas a ele. Eu tentei precisar quando e em que lugar ele disse essas coisas. E a inteligência artificial do Google disse: “Essa declaração nunca foi feita por ele, eu inventei.” Então, eh, não é de agora que essas máquinas têm funcionado assim, né”

Na sequência, a jornalista Dani Lima mostrou outras tentativas, realizadas por outras pessoas, de criarem através da Meta AI cartazes de propaganda eleitoral dos atuais candidatos a Presidência da República e o resultado foi instável, havia casos em que apenas o candidato de número 22 era aceito pela plataforma, outros em que nenhum deles era aceito e casos em que os dois foram aceitos.

A situação torna-se mais grave quando combinamos os fatos aqui citados com o mecanismo das redes sociais de limitar seus usuários a bolhas de informação, oferecendo sempre mais daquilo que os fazem “adictos”. A presença da notícia “nua e crua” nem sempre importa, diante do enorme potencial de monetização que está em jogo.

Penso que chegamos ao ponto central: nossa percepção, atenção, foco e tempo não estão mais sendo conduzidos por nós, mas pelos algoritmos, que silenciosamente e com nosso consentimento, nos mostram um mundo totalmente ocluso e agradável aos nossos sentidos. Ousaria chamar essa nova forma de vida de “On-antissujeito” – aquele sujeito que está sempre online, conectado ao mundo, porém, apartado da humanidade que o rodeia.

“On-antissujeito”

Essa nova forma de vida está exposta ao fenômeno das Fake-News, ao número de likes, ao número de seguidores, ao fenômeno do engajamento ou ao fenômeno de tornar algo viral. Termos novos para denominar comportamentos antigos.

Afirmo que são antigos porque são alimentados por um mecanismo cerebral ancestral poderoso, o sistema dopaminérgico de recompensa. Trata-se de um circuito de estruturas cerebrais responsável por regular a motivação, a antecipação do prazer e o aprendizado associado a comportamentos essenciais para a sobrevivência. Dentro deste sistema, a validação social é para o cérebro humano uma demanda neurobiológica de sobrevivência, atuando no mesmo nível das demandas que processam os prazeres físicos, como comer ou receber uma quantia financeira.  

Quando somos elogiados, incluídos ou validados (seja por um like nas redes sociais ou por um aceno de cabeça do chefe), o cérebro ativa o sistema dopaminérgico de recompensa. Inicia-se um ciclo vicioso; como a sensação é boa e o cérebro busca eficiência e economia de energia, ele cria um registro de que aquele comportamento social é seguro e positivo, gerando o impulso de repeti-lo mais vezes para buscar mais validação.

A combinação do sistema dopaminérgico de recompensa humano com os novos mecanismos de busca por adesão dos algoritmos, faz das diversas plataformas digitais um sucesso absoluto entre a humanidade. Logo, em um momento em que vivemos uma eleição tão polarizada, dominar a linguagem dos algoritmos parece ser fundamental para vencer.

Mas afinal, quem domina quem?

Durante a campanha eleitoral brasileira, um fenômeno algorítmico chamou atenção. Seguindo comandos específicos de grupos mobilizados online para atuar na estratégia digital de ambos os candidatos, milhões de pessoas publicavam determinados conteúdos simultaneamente. Isso formava ondas algorítmicas que o sistema interpretava como acontecimentos de grande repercussão, impulsionando-os de forma orgânica para outros milhões de usuários e furando a chamada bolha digital. Além disso, hashtags específicas foram criadas e, pelo volume de publicações em tempo real, conseguiam transpor barreiras e neutralizar as tags do adversário.

Fica a pergunta: quem domina quem? Os algoritmos dominam nossas vidas ou somos capazes de dominá-los?

Sem dúvida, esta pergunta norteará as novas discussões sobre o alcance da linguagem digital nessa nova era. Teríamos descoberto o caminho da revolução tecnológica a nosso favor?

Mas, antes de qualquer conclusão precipitada, é preciso lembrar que uma eleição presidencial deve ser algo muito maior do que mecanismos digitais comandados por inteligências artificiais. O Presidente da República pode, em instantes e sem nenhum equipamento eletrônico — tendo em mãos apenas papel e caneta —, mudar radicalmente os rumos de uma nação inteira, sem sequer olhar para uma rede social. Resta saber se isso ocorrerá pensando no benefício do povo brasileiro ou de seus próprios interesses.

Esse discernimento antecipado nós não temos, mas ainda podemos recorrer a métodos um tanto tradicionais para alcançá-lo. Podemos e devemos ler mais, ouvir o contraditório com atenção, estudar as questões geopolíticas globais, observar os interesses externos e os conflitos que surgem por toda parte; e então, só então, compreender qual é o papel do Brasil nesse cenário.

Por fim, diante de todas essas ferramentas e desafios, cabe a cada um de nós lembrar que a democracia se faz no cotidiano, mas se coroa na urna. É fundamental exercer o direito ao voto com consciência e responsabilidade, escolhendo caminhos que visem ao bem comum e ao desenvolvimento de toda a nação, e não apenas aos privilégios de uma parcela. Afinal, o futuro do país não depende apenas dos algoritmos ou da caneta, mas da escolha coletiva de um povo que decide olhar para o horizonte de mãos dadas.

O voto é secreto, único e só seu, exerça-o com consciência e livre-se do ódio, pois ele acabará com você, bem antes de exterminar toda uma nação.


[1] Daniela Lima é uma apresentadora, jornalista e podcaster brasileira. Entre 2020 e 2023, apresentou o telejornal CNN 360°, do canal de notícias CNN Brasil, onde ganhou projeção nacional.

Em 22 de junho de 2023, após pedir demissão da CNN Brasil, Daniela foi contratada pela GloboNews, onde estreou um mês depois no comando do Conexão GloboNews, permanecendo até agosto de 2025. Em 8 de setembro de 2025, foi anunciada como colunista do portal UOL.

[2] https://www.uol.com.br/

[3] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=inFd0sx4svc&list=PLbxMD0pc7Uzg&index=13 – Acesso em 15/10/2026.

[4] João Paulo Charleaux é um jornalista, escritor e analista político brasileiro, com mais de 25 anos de carreira dedicados à política internacional, direitos humanos e direito internacional humanitário.

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