“Se tu gostaste deste filme, conte para um amigo. Se não tiveres amigos, conte para um estranho”!

“Se tu gostaste deste filme, conte para um amigo. Se não tiveres amigos, conte para um estranho”!

Desde antes de sua estréia no Festival Internacional de Cinema de Cannes, em 06 de julho de 2021, o musical “Annette” (2021, de Leos Carax) tornou-se um dos assuntos mais comentados entre os cinéfilos mundiais. As expectativas concernentes à excelência do filme eram altíssimas, o que foi confirmado pelas resenhas mui elogiosas e pelo prêmio de Melhor Direção recebido no supracitado festival. No dia 20 de agosto do mesmo ano, este longa-metragem foi disponibilizado no serviço de ‘streaming’ Amazon Prime Video. E, ainda que suas imagens grandiosas combinem melhor com uma sala de cinema, o filme causou embasbacamento imediato entre quem pôde conferi-lo. É uma obra autoral que justifica mais de uma revisão!

Baseado num argumento dos irmãos músicos Russell e Ron Mael – que formam a dupla Sparks, também responsável pelas canções e trilha musical – este filme explicita todas as suas intenções na faixa de abertura, “So May We Start”, em que somos apresentados não apenas aos personagens, mas também ao fatalismo inevitável de seus destinos relacionais. Os acordes de teclado são viciantes e a musicalidade capta a nossa afeição em poucos segundos. Pena que a garantia da letra quanto à ausência de tabus não é confirmada, visto que o filme opta por uma narrativa compreensivamente julgamental…

Nesta abertura, o próprio diretor Leos Carax faz a convocatória cênica, ao lado de sua filha Nastya, para quem dedica o filme. Marion Cotillard interpreta uma cantora de ópera, chamada Ann, que apaixona-se perdidamente por um cômico polemista, a despeito de seus comportamentos socialmente iracundos. Magistralmente vivificado por Adam Driver, este comediante – de nome Henry McHenry – é famoso (ou melhor, infame) por causa de suas apresentações provocadoras, em que ofende ostensivamente a platéia. Mesmo alegando não ser tão bonito – em relação ao qual, devemos discordar –, confirma-se extremamente sedutor entre as mulheres de vários países, sobretudo por ser “bêbado e rico”. Suas piadas, agressivas e de duplo sentido, antecipam as suas atitudes criminosas, que trazem à tona uma importante discussão sobre toxicidade matrimonial e feminicídio.

Apelidado de “o macaco de Deus”, Henry reage com desconfiança ao sucesso de sua esposa, sobretudo quando o casamento entre eles é anunciado midiaticamente como a união entre “a bela e o bastardo”. No palco, ele gaba-se de “matar a platéia”; ela, por sua vez, “morre todas as noites”, salvando quem a assiste. Até que Ann gesta a personagem-título, e uma guinada enredística permite que continuemos enfeitiçados pelas canções onipresentes da dupla de compositores: as marionetes são controladas de maneira inaudita!

Em verdade, tanto o roteiro quanto as letras das canções eventualmente destacam-se por um apelo quase simplista: em sua urgência pela denúncia dos maus tratos contras as mulheres e a exploração do talento infantil, os dois músicos compõem versos redundantes, que repetem uma determinada frase várias vezes. Além disso, há também inserções de encenações telejornalísticas, a fim de comunicar algumas decisões tomadas pelo casal. O recado é transmitido com efetividade: o diálogo cantado no desfecho é pungente no modo direto com que é recitado!

Além do casal protagonista, um terceiro vértice actancial desempenha um papel importante na trama, o maestro vivido por Simon Helberg, terminantemente apaixonado por Ann. Numa seqüência primorosa, ele confessa algumas situações para a audiência, enquanto interrompe a si mesmo, três vezes, a fim de conduzir uma orquestra, cujas notas inundam a tela com sublimidade. Como a maior parte dos musicais, este filme impressiona pela opulência da ‘mise-en-scène’!

A canção mais recorrente no filme, “We Love Each Other So Much”, é cantarolada num impressionante momento de intimidade erótica, sendo que Adam Driver e Marion Cottilard a dignificam durante a prática de sexo oral. Será a deixa para que os pesadelos de vingança instalem-se a posteriori. A dupla central manifesta um entrosamento perfeito entre si, por mais delicadas que sejam as derivações deste relacionamento…

O diretor Leos Carax é um dos xodós da revista Cahiers du Cinèma, sendo entusiasticamente citado nas listas de melhores filmes do ano. Seus trabalhos – geralmente protagonizados por seu ator-fetiche, o mui versátil Denis Lavant – demonstram um apreço genuíno pelos marginais e pelas efusões passionais das periferias parisienses. Dentre as suas melhores obras, destacamos “Sangue Ruim” (1986), “Os Amantes de Pont-Neuf” (1991) e o acachapante “Holy Motors” (2012). “Annette” é o seu primeiro filme falado/cantando em inglês, mas o domínio do espetáculo é comparado ao esplendor de suas obras anteriores. Os prêmios que ele recebeu por esta realização são merecidíssimos!

Em razão de este filme mais recente priorizar os rompantes de emoção audiovisual e não necessariamente as surpresas enredísticas, convém evitar descrições prolongadas do que ocorre com os personagens. Entretanto, os louvores eufóricos são inevitáveis, reiterando aquilo que é sugerido pela procissão de profissionais que trambalharam no filme, e que serviu como título deste artigo. A experiência de assistir a “Annette”, por mais dolorosa que seja nalguns instantes, devolve aos espectadores a ansiedade pela volta da freqüência às salas de cinema. Pena que os casos cada vez mais numerosos da variante Delta do CoronaVírus perigam interromper a aguardada normalidade das atividades urbanas. Fica o anseio, portanto: este filme deve ser (re)visto numa tela grande!

Wesley Pereira de Castro.

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