Passei por ti.
Fui apenas mais uma entre
milhares que o fazem diariamente.
Todos passam e nem te olham.
Porque não te olham eles,
homem? Que mal lhes fizeste tu?
Talvez não te saúdem porque, para
eles, não és ninguém.
És apenas mais um mendigo que habita as ruas da cidade
e pertences ao lado escuro da noite,
àquele lado que ninguém quer ver.
Mas sabes, pensando bem, acho
que não te olham apenas porque
não têm coragem para verem, em
ti, aquilo que um dia todos
podemos vir a ser.
E é tão ténue a linha que separa a
tua vida miserável da nossa
vidinha, aparentemente,
confortável.
Não nasceste mendigo, não te
tornaste mendigo por opção.
Como ser humano que és, não
devias ter que viver nessa
condição.
Se estás só e se vives
abandonado, acredita, não foste o
único a falhar. A sociedade em teu redor
também falhou. E a
sociedade somos nós.
Por isso, a culpa pela condição em que
sobrevives é minha, é nossa.
O mínimo que posso e devo fazer
é olhar-te nos olhos, de igual para
igual, pois não és mais nem
menos do que eu.
E, caso não tenha mais nada para
te oferecer, posso oferecer-te um sorriso.
Não um sorriso de pena, mas
um sorriso de esperança.
Espero, por isso, que numa destas
muitas gélidas noites de inverno
nos voltemos a cruzar para que te
possa dizer que, pelo menos para
mim, tu não és invisível, desejando
que no aconchegado das minhas
palavras de fé e de integração, tu
possas adormecer com o meu
sorriso gravado no coração.
Ana Martins
Imagem (Mampu) de uso gratuito em Pixabay


