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Bonecos Hiper-realistas e a Simulação da Parentalidade: Implicações Psicossociais e Éticas na Perspetiva da Enfermagem e Gestão em Saúde

Bonecos Hiper-realistas e a Simulação da Parentalidade: Implicações Psicossociais e Éticas na Perspetiva da Enfermagem e Gestão em Saúde

Resumo:

“Nem tudo o que se embala ao colo é um filho; às vezes é a dor vestida de ternura.”
Este artigo reflete sobre o fenómeno dos reborn dolls, bonecos hiper-realistas tratados por muitos adultos como bebés reais. Analisa-se a complexidade simbólica, emocional e ética desta prática, à luz da enfermagem e gestão em saúde. São convocadas evidências científicas e perspetivas interdisciplinares, promovendo uma abordagem crítica, empática e responsável.

Palavras-chave: Enfermagem, Saúde Mental, Reborn Dolls, Simbolismo Terapêutico, Gestão em Saúde, Antropologia do Cuidado, Bioética, Humanização dos Cuidados.

1. Introdução

“Há silêncios que falam mais alto que diagnósticos. E há gestos — como dar de comer a um boneco — que pedem escuta.”

O uso crescente de bonecos hiper-realistas em contextos não infantis — nomeadamente por adultos que os tratam como filhos — obriga os profissionais de saúde a interrogar os limites entre o simbólico, o terapêutico e o patológico. Este artigo propõe uma análise que cruza a prática da enfermagem com o pensamento crítico em saúde mental, sociologia e bioética. É importante compreender que estes comportamentos não surgem num vazio, mas sim como respostas emocionais a contextos de dor, perda ou mesmo carência afetiva. O reconhecimento destas dinâmicas é fundamental para uma intervenção humanizada e científica.

2. Fundamentação Científica e Abordagens Interpretativas

“Nos olhos de um boneco, pode habitar o reflexo de uma ausência. E nas suas roupas, o luto que não encontrou palavras.”

Estudos como os de St-Hilaire (2024) sugerem que reborn dolls podem desempenhar um papel de autorregulação emocional em pessoas que vivenciaram perdas, infertilidade ou traumas afetivos. Em investigações com populações geriátricas, Moyle et al. (2019) verificaram que bonecos realistas podem reduzir sintomas de ansiedade e agitação em pessoas com demência.

Contudo, há também quem alerte para riscos de fixação disfuncional e isolamento social, conforme descrito por Saltz (2008), quando os limites entre fantasia terapêutica e delírio simbólico não são claramente distinguidos. A complexidade da questão exige, portanto, uma resposta clínica informada e sensível.

Para além da literatura psicológica e psiquiátrica, também é pertinente integrar contributos da antropologia do cuidado, que analisa os comportamentos humanos que procuram simbolizar relações de apego, perda e pertença. Neste contexto, cuidar de um boneco não deve ser entendido apenas como um desvio, mas como uma expressão de subjetividade. O uso destes bonecos pode ser um reflexo de uma sociedade cada vez mais isolada, onde o afeto é delegado a objetos por ausência de vínculos humanos significativos. A globalização e o avanço tecnológico contribuíram, em parte, para o surgimento de novas formas de relação emocional, onde o simbólico e o virtual ganham protagonismo.

3. Perspetiva da Enfermagem

“Cuidar é ouvir o que não foi dito, tocar o que não se vê. E acolher o estranho com a mesma ternura com que se embala um recém-nascido.”

A enfermagem, mais do que técnica, é presença. A(o) enfermeira(o) que se depara com estas situações deve adotar uma escuta ativa, sensível e livre de preconceitos. Identificar sofrimento emocional, validar experiências e saber quando e como encaminhar são competências que exigem formação e empatia.

A intervenção de enfermagem nestes casos deve respeitar o princípio da individualização do cuidado, reconhecendo que cada pessoa manifesta as suas necessidades emocionais de forma distinta. Não se trata apenas de interpretar o gesto de cuidar de um boneco, mas de compreender o que este gesto representa para aquela pessoa.

Para além disto, importa reforçar a articulação com as equipas de saúde mental, nomeadamente enfermeiros de saúde mental, psicólogos e psiquiatras, de forma a garantir um acompanhamento holístico. A intervenção deve ser fundamentada na empatia clínica e na competência cultural. É também relevante que os currículos de formação em enfermagem contemplem unidades curriculares que abordem estas novas expressões do sofrimento e da identidade, preparando os futuros profissionais para a diversidade humana.

4. Perspetiva da Gestão em Saúde

“Gerir é organizar recursos, sim. Mas também é reconhecer a singularidade de cada rosto que entra pela porta do centro de saúde/hospital com um boneco ao colo.”

A gestão em saúde deve responder com inteligência emocional e política institucional adequada. Devem existir protocolos éticos, formação contínua e articulação com redes de apoio psicológico, respeitando sempre a autonomia do utente. Estes casos exigem cuidado e não burocracia cega.

A liderança clínica deve ainda promover momentos de reflexão com as equipas, permitindo que estas partilhem dúvidas, emoções e estratégias de intervenção. Este tipo de situação, por mais singular que seja, pode tornar-se um caso pedagógico relevante no desenvolvimento de competências relacionais e éticas.

Importa também integrar esta problemática nas políticas de humanização dos cuidados, reconhecendo que o cuidar não se faz apenas em torno de diagnósticos biomédicos, mas também na escuta da dor existencial. A gestão deve criar espaços institucionais seguros onde possa-se acolher a diferença, construir pontes interdisciplinares e fomentar uma cultura de cuidado inclusiva.

5. Considerações Éticas

“Nem tudo o que é estranho é doença. Às vezes é só dor com roupa de bebé e nome inventado.”

A ética exige prudência, não julgamento. Segundo Beauchamp & Childress (2013), os princípios da beneficência e respeito pela autonomia devem guiar qualquer intervenção. O profissional de saúde deve reconhecer quando um comportamento é um pedido de ajuda, e não uma excentricidade.

A utilização de bonecos como forma de expressão emocional não pode ser automaticamente classificada como patológica. É essencial considerar a cultura, história de vida e contexto social da pessoa, para que a resposta seja verdadeiramente centrada na pessoa. Adicionalmente, é importante refletir sobre o papel do profissional de saúde enquanto agente facilitador de sentidos. Ou seja, não cabe apenas intervir, mas ajudar a pessoa a reinterpretar as suas ações de forma a promover bem-estar e autoconsciência.

6. Conclusão

“Cuidar é também reconhecer que nem sempre a dor escolhe formas racionais para expressar-se. Às vezes, chora baixinho nos braços de um boneco que não respira.”

Os bonecos hiper-realistas representam mais do que um fenómeno social curioso. São espelhos emocionais que interpelam os limites do cuidado humano. A enfermagem e a gestão em saúde devem acolher esta realidade com espírito científico, empatia e responsabilidade.

É fundamental continuar a investigar este fenómeno com metodologias interdisciplinares e abordagens qualitativas que deem voz às pessoas envolvidas. Só assim poder-se-á promover uma saúde verdadeiramente centrada na dignidade humana. Em última instância, trata-se de alargar os limites do cuidado, reconhecendo novas linguagens do sofrimento e da esperança. É na fronteira entre o real e o simbólico que a enfermagem e a gestão podem afirmar-se como ciências do humano, do ético e do sensível.

Referências Bibliográficas

Beauchamp, T. L., & Childress, J. F. (2013). Principles of Biomedical Ethics (7th ed.). Oxford University Press.

Moyle, W., Murfield, J., Jones, C., Beattie, E., Draper, B., & Ownsworth, T. (2019). Can lifelike baby dolls reduce symptoms of anxiety, agitation, or aggression for people with dementia in long-term care? Aging & Mental Health, 23(10), 1442–1450. https://doi.org/10.1080/13607863.2018.1498447

St-Hilaire, E. (2024). The Therapeutic Power of Synthetic Relationships with Dolls. American Journal of Play, 16(2-3), 288–313. https://files.eric.ed.gov/fulltext/EJ1452631.pdf

Saltz, G. (2008). Fake babies ease women’s anxiety, sadness. Today.com. https://www.today.com/health/fake-babies-ease-womens-anxiety-sadness-wbna26989812

The Guardian. (2020). ‘People don’t get it’: inside the world of hyper-realistic baby doll collectors. https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2020/feb/26/reborn-doll-baby-lifelike-collecting-women

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