Ainda hoje, eu posso?

O mundo corre lá fora,
mas aqui posso respirar.
O pensamento demora,
sem pressa de chegar.

Depois, talvez, melhora.
Posso sonhar, recomeçar.
Lá fora, a pressa devora,
mas cá dentro, posso parar.

O tempo é breve e escasso,
não se compra, não se guarda.
Se vou noutro compasso,
Serei eu uma fachada?

Não posso ser só um reflexo,
de algo que eu não sou.
Prefiro um traço complexo,
do que um molde que se apagou.

Prefiro a minha demora,
ao destino prometido.
O tempo que me devora,
também tem me construído.

Serei eu dúvida, ou certeza,
não cabe a mim decidir.
Mas viver com nobreza,
basta-me para sentir.

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