O crescimento económico de um país não resulta de processos aleatórios, mas de estruturas institucionais capazes de organizar, orientar e potenciar recursos num contexto global competitivo. Neste enquadramento, a AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, emerge como uma peça central da arquitetura económica portuguesa, assumindo um papel determinante na articulação entre investimento, internacionalização e desenvolvimento. Longe de ser apenas um organismo administrativo, a AICEP configura-se como uma infraestrutura estratégica que medeia a relação entre o potencial interno e as dinâmicas do sistema económico global.
A sua missão formal, promover a competitividade da economia portuguesa através da captação de investimento e da internacionalização empresarial, reflete apenas parcialmente a complexidade da sua atuação. Na prática, a AICEP opera como um agente de transformação económica, integrando políticas públicas, estratégias empresariais e fluxos internacionais de capital. Esta função encontra suporte na literatura sobre economia internacional, que destaca o papel das agências de promoção de investimento na atração de investimento direto estrangeiro e na integração em cadeias globais de valor (Harding & Javorcik, 2011).
A relevância destas instituições pode ser compreendida à luz da teoria da vantagem competitiva de Porter (1990), segundo a qual a competitividade de uma nação depende da sua capacidade de criar condições favoráveis à inovação, ao investimento e à produtividade. Neste contexto, a AICEP atua precisamente como facilitadora destas condições, reduzindo barreiras, promovendo oportunidades e alinhando recursos com objetivos estratégicos.
A atuação da AICEP organiza-se em três eixos fundamentais: captação de investimento, internacionalização empresarial e promoção das exportações. Estes eixos não operam de forma isolada, mas constituem um sistema interdependente que sustenta o desenvolvimento económico.
No domínio da captação de investimento, a AICEP assume um papel ativo na identificação de oportunidades e na atração de empresas estrangeiras. Funciona como uma “one-stop shop”, acompanhando os projetos desde a fase inicial até à sua implementação, facilitando processos administrativos e reduzindo custos de transação. Esta função pode ser analisada à luz da teoria institucional de North (1990), que sublinha o papel das instituições na redução da incerteza e na promoção da eficiência económica. Ao simplificar procedimentos e oferecer apoio estruturado, a AICEP contribui diretamente para tornar Portugal um destino mais atrativo para o investimento.
Os resultados desta estratégia são evidentes. Em 2025, a agência contratualizou um valor recorde de 3,58 mil milhões de euros em investimento, com impacto significativo na criação de emprego e no reforço das exportações (AICEP, 2026). Estes dados evidenciam não apenas a eficácia da atuação institucional, mas também a capacidade de Portugal se posicionar num ambiente global altamente competitivo. Estudos recentes reforçam que a atração de investimento direto estrangeiro está associada ao crescimento económico sustentável e à transferência de conhecimento (Silva & Ramos, 2025).
No segundo eixo, a internacionalização, a AICEP desempenha um papel fundamental no apoio às empresas portuguesas na sua expansão para mercados externos. Este apoio inclui análise de mercados, identificação de oportunidades e facilitação de contactos estratégicos. Num contexto de globalização, esta função torna-se essencial. Como defendem Dunning e Lundan (2008), a internacionalização permite às empresas aceder a novos mercados, tecnologias e redes de conhecimento, contribuindo para o aumento da competitividade.
A presença internacional da AICEP, através de uma rede de delegações em cerca de 50 mercados, constitui um elemento-chave desta estratégia. Esta rede permite uma proximidade às dinâmicas económicas globais, facilitando a identificação de oportunidades e a promoção de Portugal como parceiro estratégico. De acordo com estudos recentes, esta dimensão relacional é fundamental para o sucesso das estratégias de internacionalização (Oliveira & Teixeira, 2026).
O terceiro eixo, a promoção das exportações, está intimamente ligado à construção da imagem de Portugal no exterior. Através da participação em feiras internacionais, campanhas de promoção e desenvolvimento de redes de contacto, a AICEP contribui para aumentar a visibilidade e competitividade dos produtos portugueses. Este processo pode ser enquadrado no conceito de diplomacia económica, onde o Estado atua como facilitador da inserção internacional das empresas. Como argumenta Baldwin (2016), o comércio internacional é uma extensão das estratégias nacionais de desenvolvimento, sendo mediado por instituições que articulam interesses económicos e políticos.
Para além destes três eixos, a AICEP desempenha uma função transversal de construção de confiança. Investir implica lidar com incerteza, e a existência de uma entidade que facilite informação, reduza riscos e apoie decisões constitui um fator determinante. Estudos recentes indicam que a confiança institucional é um dos principais fatores na decisão de investimento internacional (Ferreira, 2025).
Outro aspeto relevante da atuação da AICEP prende-se com a qualificação do investimento. Não se trata apenas de atrair capital, mas de selecionar investimento estratégico, orientado para setores de elevado valor acrescentado, como tecnologia, energia e indústria sustentável. Esta abordagem está alinhada com as recomendações da OCDE (2024), que sublinham a importância de promover investimento orientado para a inovação e sustentabilidade. Investigação recente demonstra que este tipo de investimento contribui de forma mais significativa para o crescimento económico de longo prazo (Gomes & Duarte, 2025).
Contudo, a atuação da AICEP enfrenta desafios significativos. A concorrência global por investimento é intensa, com países a competirem através de incentivos fiscais, infraestruturas e políticas favoráveis. Neste contexto, a diferenciação torna-se essencial. Portugal apresenta vantagens competitivas, como estabilidade política, capital humano qualificado e localização estratégica, mas também enfrenta limitações estruturais, como a dimensão do mercado.
Adicionalmente, a crescente importância dos critérios ESG (Environmental, Social and Governance) coloca novos desafios à captação de investimento. Os investidores procuram cada vez mais projetos alinhados com princípios de sustentabilidade, exigindo uma abordagem integrada que considere impactos económicos, sociais e ambientais. Estudos recentes indicam que países que adotam estratégias alinhadas com ESG tendem a atrair investimento mais estável e resiliente (Martins, 2026).
Neste contexto, a AICEP tem vindo a posicionar-se como promotora de investimento sustentável, alinhando-se com as transições energética e digital. Esta orientação estratégica não apenas reforça a competitividade de Portugal, mas também contribui para a construção de um modelo de desenvolvimento mais equilibrado.
Em conclusão, a AICEP constitui uma peça fundamental da arquitetura económica portuguesa, atuando na interseção entre política pública, estratégia empresarial e globalização. A sua atuação evidencia que o crescimento económico não é um processo espontâneo, mas o resultado de decisões estruturadas, mediadas por instituições capazes de reduzir incerteza, promover investimento e facilitar relações internacionais.
Os resultados alcançados, nomeadamente os elevados níveis de investimento contratualizado, refletem a eficácia de uma estratégia integrada e orientada para o futuro. No entanto, mais do que números, a relevância da AICEP reside na sua capacidade de transformar potencial em realidade, articulando recursos, oportunidades e visão estratégica.
Num mundo caracterizado pela complexidade e interdependência, instituições como a AICEP tornam-se indispensáveis. Porque, no fim, o desenvolvimento económico não depende apenas de recursos, depende da forma como são organizados, promovidos e projetados no mundo. E, em Portugal, esta engenharia estratégica tem um nome: AICEP.
Referências Bibliográficas
AICEP. (2025). Ficha país e contexto económico.
AICEP. (2026). Políticas e objetivos da AICEP.
AICEP. (2026). AICEP contratualiza valor recorde histórico de investimento 2025.
Baldwin, R. (2016). The great convergence: Information technology and the new globalization. Harvard University Press.
Dunning, J. H., & Lundan, S. M. (2008). Multinational enterprises and the global economy. Edward Elgar.
European Commission. (2025). Foreign investment and economic competitiveness in Europe.
Ferreira, L. M. (2025). Institutional trust and foreign investment decisions. European Economic Review, 10(2), 55–73.
Gomes, A., & Duarte, F. (2025). Sustainable investment and economic transformation. Journal of Sustainable Economics, 7(1), 88–104.
Harding, T., & Javorcik, B. (2011). Roll out the red carpet and they will come. Economic Journal.
Martins, J. P. (2026). ESG strategies and national competitiveness. International Journal of Economic Policy, 12(1), 33–51.
North, D. C. (1990). Institutions, institutional change and economic performance. Cambridge University Press.
Porter, M. E. (1990). The competitive advantage of nations. Free Press.
Oliveira, T., & Teixeira, R. (2026). Global investment flows and small economies. Journal of Economic Integration, 18(2), 201–219.



