Reflexões sobre a solidão, a autossuperação e a ética silenciosa de quem vai à frente.
Por Élvio Camacho, Universidade da Madeira / CITUR, ISAL


Desde cedo nos contam a fábula da lebre e da tartaruga. Uma história simples, quase infantil, sobre velocidade, persistência e humildade. Ensina-se que a lebre perdeu por arrogância e que a tartaruga venceu por consistência. Mas e se olhássemos para essa fábula com olhos de adulto? E se, mais do que uma corrida, ali estivesse um retrato simbólico da liderança — e do seu fardo invisível?
A lebre, veloz, determinada, naturalmente à frente, cedo se viu sozinha. Sem adversários à altura, sem metas claras além da linha de chegada, deixou-se adormecer — não por cansaço, mas por vazio. A corrida deixou de ser um desafio. Não havia quem ultrapassar, não havia estímulo externo. E quando se perde o confronto com o outro, só resta o confronto consigo próprio — e esse é o mais exigente de todos.
“O que é difícil, por isso mesmo atrai o homem superior.” (Nietzsche, 2006, p. 76)
A lebre como metáfora da liderança
Nesta leitura, a lebre não representa apenas a vaidade, mas sim o fardo silencioso de quem lidera. De quem vai à frente sem ter a quem seguir. De quem, por estar adiantado, precisa criar os seus próprios limites, inventar novas metas, construir o caminho enquanto o percorre. Esta lebre não é um símbolo de fragilidade, mas de um paradoxo: é simultaneamente forte e vulnerável. Forte por ultrapassar os demais, vulnerável por ter de lidar com a ausência de confronto, de feedback, de comparação — elementos que alimentam o progresso humano.
Ao contrário do que se pensa, a liderança não se alimenta apenas de força, mas também de um propósito vivo. Sem este, até os mais talentosos adormecem. A lebre tornou-se líder por natureza, mas falhou por falta de propósito. Porque liderar não é apenas chegar primeiro. É continuar a correr mesmo quando ninguém está a ver. É resistir à tentação de parar quando tudo parece já conquistado. É ser fiel ao movimento quando o aplauso se cala.
Enquanto isso, a tartaruga representa o ritmo dos que seguem. Confia no trilho, olha para o chão e avança. Não precisa de criar o caminho — apenas de o percorrer. O seu mérito está na persistência, não na invenção. E por isso mesmo, quando a lebre falha, a tartaruga vence. A tartaruga não precisa reinventar o sentido da corrida, apenas cumpri-la. Mas não por isso é menos digna — apenas responde a outra lógica: a da constância, da rotina, da fidelidade ao pequeno passo.
A dicotomia aqui não é entre certo e errado, mas entre dois modos de estar: um criador, outro executor. A liderança é criadora por excelência. E o criador, como sabemos desde os tempos mitológicos, paga sempre um preço.
A disciplina de quem vai na frente
Há uma beleza na liderança que raramente é visível para quem apenas observa de fora. Não se trata apenas de guiar, inspirar ou decidir. Liderar é, acima de tudo, manter-se em movimento quando todos os outros ainda estão a chegar. É sustentar o ritmo quando não há ninguém a puxar por nós. É viver sem espelho à frente, sem referências. E é justamente essa ausência que exige um tipo especial de disciplina: a autossuperação constante.
“O homem está condenado a ser livre.” (Sartre, 1987, p. 29)
O líder vive essa liberdade não como privilégio, mas como condenação — no sentido sartriano. A ausência de referências transforma cada passo numa escolha ética, num risco. A liderança exige decisão sem garantias, ação sem validação. E é essa liberdade que pesa. O verdadeiro líder caminha sem mapas. O seu território é inédito, suas decisões são originais. Não tem competidores à vista. O seu maior risco é a estagnação. Quando se está na dianteira, o perigo não vem dos outros — vem do próprio comodismo. Da sensação enganadora de já ter feito o suficiente. De se ter destacado, de já ter vencido.
“We’re going where no one has gone before. There’s no model to follow, nothing to copy. That is what makes this so exciting.” — Richard Branson (QuoteFancy)
É por isso que, como aponta Bourantas (2008), quem lidera não lidera multidões, mas dilemas. A liderança é um campo de tensão permanente entre a inércia do sucesso passado e a exigência do novo. O dilema não é técnico, mas existencial: “continuar porquê?”
A solidão como ferramenta de autoconhecimento
A solidão do líder é estrutural, mas pode ser convertida em potência — se for acolhida, não temida. Estudos contemporâneos apontam que a solitude — quando escolhida conscientemente — é catalisadora de autenticidade, consciência ética e maturidade decisional (Akrivou et al., 2011). O líder, ao contrário do seguidor, precisa cultivar essa solidão não como isolamento, mas como espaço fértil para o autoconhecimento.
“You will not always be strong, but you can always be brave.” (Simone Biles, 2016)
“A solitude fortalece o autoconhecimento e é essencial para o desenvolvimento da liderança autêntica.” (Kardasi, 2016)
Esta solitude oferece uma espécie de espelho sem distorção, onde o líder vê a si mesmo, longe das expectativas externas. É nesse espaço que se forma a disciplina da lebre que não quer adormecer: inventar motivos, mesmo sem estímulo externo. Redefinir objetivos, mesmo sem ameaça. Encontrar sentido no próprio ato de continuar. A motivação deixa de ser o outro e passa a ser a fidelidade ao próprio ideal. Não se trata de vencer alguém, mas de não ser vencido pela inércia.
“Torna-te quem tu és.” (Nietzsche, 2006, p. 270)
A liderança autêntica nasce dessa tensão: entre aquilo que se é e aquilo que se pode vir a ser. O caminho, então, deixa de ser linear — torna-se circular, espiralado, introspectivo.
Liderar sem aplausos
Muitos confundem liderança com sucesso. Com visibilidade. Com aclamação. Mas há um tipo de liderança mais profundo, mais exigente — aquele que se vive em silêncio. O líder verdadeiro não corre para mostrar, corre porque não sabe viver de outra forma. Precisa do movimento para se manter vivo. E como não há ninguém para o desafiar, cria os seus próprios obstáculos. Reinventa o propósito. Porque sabe que, sem isso, adormece como a lebre. E quem dorme, perde — não para os outros, mas para si.
“I really think a champion is defined not by their wins but by how they can recover when they fall.” (Serena Williams, 2025)
“A solidão é mediadora entre a busca interior e o florescimento da liderança ética.” (Bourantas, 2008)
Essa é a tragédia de muitos que lideram: são admirados por fora, mas vivem esgotados por dentro. São aplaudidos na meta, mas desconhecidos no caminho. O reconhecimento externo não basta. E muitas vezes, é uma ilusão que encobre o esvaziamento interno. O seguidor pode pausar. Pode adaptar-se. Pode descansar nos passos de quem vai à frente. Mas o líder não tem esse luxo. A sua pausa é o risco de ser ultrapassado pela sua própria versão — aquela que sonhava mais, acreditava mais, lutava mais.
“O líder autêntico precisa sustentar-se por motivação interna, não por aplauso externo.” (Levesque-Côté, 2020)
Neste sentido, a liderança é uma forma elevada de coerência pessoal. Não se sustenta por méritos técnicos, mas por profundidade moral.
O risco de perder-se no topo
Liderar é uma forma de solidão. E quem lidera precisa de saber porquê. Precisa de ter dentro de si uma razão mais forte do que o cansaço, mais firme do que o reconhecimento. Caso contrário, como a lebre, cairá no sono da complacência. E esse sono é traiçoeiro porque se parece com descanso, mas é abandono. A liderança sem propósito é uma emboscada. Seduz com o poder, mas consome com o vazio.
“Change will not come if we wait for some other person, or if we wait for some other time. We are the ones we’ve been waiting for. We are the change that we seek.” (Barack Obama, 2025)
Por isso, mais do que treinar a velocidade, o verdadeiro líder precisa de treinar o silêncio. O tempo. A resistência ao tédio. A coragem de continuar mesmo quando ninguém o desafia. Liderar não é apenas ação — é resistência interior.
“A estrada que não leva a lugar nenhum é a que leva a si mesmo.” (Camus, 1942)
“A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.” (Proust, 1990)
Estas frases ressoam com o espírito da liderança madura: aquela que se volta para dentro para poder continuar a abrir caminhos fora.
Conclusão — Correr por fidelidade ao movimento
Liderar é manter o passo quando o caminho é inédito, quando não há garantias nem plateia. É sustentar a marcha mesmo sem público. É tornar-se espelho para si mesmo — e suportar o que se vê (Silard & Wright, 2020). Porque há um tipo de vitória que só o silêncio reconhece: a de continuar sem ter a quem seguir.
“I’ve missed more than 9000 shots in my career. I’ve lost almost 300 games.
26 times, I’ve been trusted to take the game-winning shot and missed. I’ve failed over and over and over again in my life. And that is why I succeed.” — Michael Jordan
Liderar é, portanto, falhar com consciência, persistir com propósito, e continuar mesmo quando ninguém exige que continues. A lebre, mais do que símbolo de pressa, torna-se aqui símbolo de vigília: daquele que não pode dormir porque sabe que seu maior adversário é o silêncio interior. E é nesse silêncio que se escuta o chamado mais difícil de todos — o de continuar.
Talvez este texto seja, afinal, sobre nós. Sobre a necessidade de continuar a criar desafios mesmo quando não somos obrigados a fazê-lo. Sobre correr sem ter quem seguir. Sobre encontrar sentido no ato de liderar, não pela competição, mas pela fidelidade à nossa própria inquietação. Porque há em nós uma lebre que recusa adormecer, mesmo quando todos dizem que já ganhamos.
Referências
- Akrivou, K., Bourantas, D., Mo, S., & Papalois, E. (2011). The sound of silence – A space for morality? The role of solitude for ethical decision making. Journal of Business Ethics, 102(1), 119–133. https://doi.org/10.1007/s10551-011-0803-3
- Bourantas, D. (2008). The leader’s call of solitude. https://consensus.app/papers/the-leader-’-s-call-of-solitude-solitude-as-a-mechanism-for-bourantas/7549b47c4caf5cdbbbf666cc2f92689d
- Camus, A. (1942). O mito de Sísifo. Paris: Gallimard.
- Kardasi, K. (2016). Solitude and leadership: Psychological perspectives on authentic leadership. https://doi.org/10.12681/eadd/44020
- Levesque-Côté, J. (2020). Authentic leadership and motivation. https://consensus.app/papers/running-head-authentic-leadership-and-motivation-levesque-côté/56a827de7a4351cc8df22386136c907c
- Nietzsche, F. (2006). Assim falou Zaratustra (E. M. de Oliveira, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras.
- Proust, M. (1990). Em busca do tempo perdido. Rio de Janeiro: Globo.
- Sartre, J.-P. (1987). O existencialismo é um humanismo. Lisboa: Presença.
- Silard, A., & Wright, S. (2020). The price of wearing the crown: Effects of loneliness on leaders. Leadership, 16(3), 389–410. https://doi.org/10.1177/1742715019893828
- Simone Biles. (2016). Courage to Soar: A Body in Motion, a Life in Balance. Zondervan.
- Richard Branson. (n.d.). Quote. https://quotefancy.com/quote/898970
- Serena Williams. (n.d.). Quote. https://www.linkedin.com/pulse/15-quotes-from-serena-williams-ignite-fighter-within-you-deshmukh-qp3af
- Cristiano Ronaldo. (n.d.). Quote. https://www.brainyquote.com/quotes/cristiano_ronaldo_745020
- Barack Obama. (n.d.). Quote. https://www.goodreads.com/author/quotes/6356.Barack_Obama
- Michael Jordan. (n.d.). Quote. https://www.goodreads.com/quotes/17430



