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Latim: a nossa Língua–Mãe

Latim: a nossa Língua–Mãe

Imaginem uma mãe que deu à luz várias filhas. Essas filhas cresceram todas na Europa. São mais ou menos parecidas umas com as outras, como quaisquer irmãs, e foram crescendo e evoluindo separadamente, em países diferentes. Depois, os seus descendentes foram emigrando, espalhando-se pelo mundo. A mãe deixara-lhes uma herança muito valiosa: a sua língua e cultura.

Esta poderia ser a imagem do que representa o Latim, a matriz da nossa língua, ou seja, a mãe do português, uma das suas línguas-filhas, a que se convencionou chamarem-se línguas românicas ou neolatinas. Assim, a língua portuguesa tem mais irmãs: o castelhano, o francês, o italiano, entre outras.

Até meados do século XX, em Portugal, era obrigatório na Escola aprender-se as regras da língua latina. Mais tarde, só quem ia para determinados cursos humanísticos como Filologia clássica ou românica, Direito, Teologia e pouco mais é que teriam que estudar latim, pois era inconcebível não o saber nessas áreas que tanto o utilizam. É difícil, um quebra-cabeças, um autêntico puzzle, dizia-se. Tanta declinação para decorar, tantos casos, tantos verbos! Tal como a tabuada, as equações, as fórmulas matemáticas… Chamavam-lhe, por isso, “a matemática das letras”. E, tal como esta, o latim desenvolve a capacidade de análise e o raciocínio lógico, ajudando ainda a utilizar corretamente a nossa língua, a compreender textos de grandes autores lusófonos, facilitando também a aprendizagem de línguas estrangeiras, mesmo as não latinas, como o inglês ou o alemão.

Peguemos no caso do alemão. Não sendo uma língua neolatina e, portanto, afastando-se mais das línguas românicas, o povo alemão, no entanto, sempre reconheceu a importância da língua latina, considerando-a uma boa “madrasta”, pois acham que a sua aprendizagem promove o seu desenvolvimento intelectual e a sua boa formação. Atualmente, 800 000 alunos estudam livremente o latim em escolas e universidades da Alemanha! É a 3ª. língua estrangeira mais estudada, depois do francês e do inglês!

Dizer que o latim é uma língua morta é uma falácia. Considerar que é algo que já só diz respeito a alguns, como os representantes da Igreja ou associá-lo a algo arcaico e em desuso é mentira. Imaginemos que a nossa mãe linguística se retirou para parte incerta. Mas as suas filhas, de vez em quando, revisitam-na, nem que seja para se recordarem das palavras que ela lhes ensinou para, a partir delas, formarem outras ou para as utilizar tal e qual a mãe lhes ensinara. Para o nosso maior poeta, Camões, a língua portuguesa era a que mais se assemelhava ao latim: “e na língua, na qual quando imagina, com pouca corrupção, crê que é a latina” (Lusíadas, I-33). Assim sendo, a língua portuguesa tem sido uma filha ingrata. Os portugueses têm-na esquecido, enquanto outros, bem mais bastardos, a respeitam e veneram.

Com efeito, o ensino do latim tem sido progressivamente abandonado em Portugal, tendo sido reduzido a uma disciplina de opção para quem segue Humanidades. E será só útil para os estudos humanísticos? Outra falácia e outra mentira. Além de expressões latinas inalteradas a que recorremos frequentemente no nosso discurso como: “persona non grata”, “alter ego”, “a priori”, “pro forma”, “per capita” ou a abreviaturas cuja origem é latina como etc. (= et caetera”, e outras coisas) ou P.S. (“post scriptum”, depois da escrita), é habitual ir buscar ao latim palavras para designar novos inventos ou novas tecnologias: “video” (vejo), “audio” (oiço), “media” (os meios, neste caso, de comunicação) ou os “multimedia” (muitos meios). Não esquecendo que grande parte do vocabulário de diversas áreas científicas tem raízes latinas: medicina, economia, botânica, geologia, biologia, etc.

O que estamos a fazer à nossa língua-mãe é o mesmo que estamos a fazer aos nossos ascendentes mais idosos, votando-os ao abandono. Para os autores clássicos latinos, como Cícero, a velhice era sinónimo de sabedoria. Não os lendo, estamos a afastar-nos das suas lições de humanismo de que andamos tão necessitados nos nossos dias. Para Jorge Luis Borges, a latinidade é o Ocidente. Avizinhando-se uma confrontação entre este e o gigante oriental que é a China, não seria útil reaprendermos com os nossos antepassados, verdadeiras raízes da nossa cultura europeia?

Eliminar o estudo do latim é, mais do que abandonar uma mãe que nos ensinou quase tudo, contribuir para o crescimento da iliteracia linguística, literária e cultural de todos nós e para o aumento dos maus-tratos de que a língua portuguesa tem vindo a sofrer progressivamente. Se uma filha cometer matricídio e se ainda lhe restar algum fundo humanista, sofrerá muito. Se tiver um rebate de consciência, talvez ainda vá a tempo de se redimir, tentando ressuscitá-la. Façamo-lo “pro bono publico”.

 

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