Terça-feira, meio da tarde. À espera do bilheteiro da sala Platinum, um casal conversa. Em voz suave, inaudível a quem se avizinha, falam de vinhos. Ela prefere os chilenos; ele, os argentinos. A ambos desagradam os nacionais. Cúmplices, deixam cintilar à mão direita discreto anel de compromisso. Mudam de rumo a prosa, sem mais. Falam agora de trabalho. Processos, despachos, projetos, pareceres. Lembram da merecida estabilidade profissional e financeira conquistada após anos de árdua batalha em universidades e cursos preparatórios. Comungam cordato sorriso. Aguardam o abrir da bilheteria.
Às suas costas, enfileiram-se três jovens ruidosos. Ele, botas de bico, roupa justíssima, estrangeira. Elas, superlativamente tudo: perfumadas, esticadas, coloridas, elevadas. Chegam pelo corredor cantando algo incomunicável ao gosto musical do casal à frente. Riem, abraçam-se e entoam outra canção, desta vez conhecida, tema da novela. Sem pressa, aguardam.
Juntam-se à bicha umas adolescentes com uniforme escolar e conversa em inglês; um casal grisalho, vestido à italiana; e um homem só, acompanhado por um aparelho celular.
A bilheteria é aberta. No início da fila, o casal saca cartão de crédito – Platinum como a sala de cinema – e carteiras de estudante. Gostam de idiomas, explicam. Estão agora no alemão. Compram a entrada e saem. Logo atrás, uma das moças superlativas espanta-se com o preço do ingresso. Quer discutir:
– Como assim? Isso é cinema, meu filho, não é o circo de soleil, não. Que absurdo! Um roubo!
O bilheteiro então explica tratar-se de uma sala V.I.P., cujo conforto diferenciado justificaria o preço também diferenciado. Os bilhetes são vendidos.
Já no lounge, a jovem pergunta:
– Será que tem vodka Absolut?
– Onde? Retruca o amigo.
– Aqui, ué! Onde mais?
– Aqui?! No cinema?! Tá doida?!
– Aqui não é VIP? Então, se é VIP é pra ter Absolut. No mínimo uma Ice!
O casal que principiara a fila da bilheteria, agora à frente da fila de entrada, cala-se para ouvir a conversa. Parece-lhe pitoresca.
– É VIP, mas não tem bebida não, sua doida! É cinema, esqueceu?
– E que VIP é esse que não tem bebida? Só serve pra ser caro, é? VIP não quer dizer open bar? Se não tem bebida, como é que pode ser VIP?
O casal entreolha-se. Esconde o sorriso. Nada diz.
Uma das colegiais mais atrás pragueja entre dentes:
– Ô peãozada! Credo! Até na sala V.I.P. a gente tem que cruzar com esse povo!
A colega emenda baixinho, quase dançando:
– Gentalha, gentalha!
Três delas riem. Uma quarta as censura. Calam-se.
O rapaz retruca:
– VIP não é open bar não, doida!
– E é o quê, então, moço? Todo camarote VIP que eu vou tem open bar . Eu achava que VIP era open bar , não é não?
– Sei lá o que quer dizer esse tal de VIP. Procura aí no Google.
O casal grisalho, perfumado à francesa, critica o baixo nível educacional de hoje em dia. A culpa é do computador, diz ela. Ele discorda, acha que é coisa de comunista. Recordam o internato. Menino separado de menina, roupa de goma, palmatória. Piano e francês para as moças, exército para os rapazes. As missas dominicais, assistidas de camarote em roupa de festa junto à família. Praças, flertes, amigos. Bons tempos, concordam. Tempos perdidos, lamentam.
O homem solitário, imperceptível, entretém-se ao celular.
A sala é aberta. Entram todos.
– Achou? Grita o rapaz, como se a escuridão lhe houvesse afetado a audição.
– No Google diz que VIP é uma coisa em inglês. Tu sabe inglês? Responde a moça, em voz estridente.
– Eu não. E tu?
– Nem eu.
A terceira jovem interfere:
– VIP não é quem pode pagar?
– E eu é que sei? Responde o amigo.
– Psiu!!! Repreende uma voz anônima, perdida no breu.
Uma das moças pensa em retrucar, dizer “psiu é a mãe!” ou coisa parecida. Desiste. Ocupa seu assento.
Da sala negra, nada mais se escuta, apenas o som do reclame e o estalar da pipoca fresca. Igualadas na densa noite artificial do cinema de poltronas caríssimas, aquelas poucas – todavia tão importantes pessoas –, assistem em uníssona mudez à película que principia.
(Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles)



