Uma estratégia bem-sucedida do Capitalismo, através da imposição do agendamento midiático e da progressiva instagramização de nosso dia a dia, é o convencimento de que as escolhas que precisamos fazer, em situações corriqueiras, são quase sempre reduzidas a opções dicotômicas e que o tédio surge como inevitabilidade. É nessa conjuntura que a instauração dos anseios de consumo é aplicada, bem como a conformação em relação à avassaladora estandardização dos produtos artísticos contemporâneos — mesmo quando apresentados como “alternativos”. Tal como se fosse algo proveniente de um Deus que pode nem sequer existir, aceita-se que a depressão converta-se num modismo ambivalente: para alguns “influenciadores”, é chique estar sob o jugo perene da melancolia. A sensação de vazio é assaz rentável!
É neste sentido que um filme tão divertido e criativo como “Memória da Princesa Mumbi” (2025, de Damien Hauser) traz uma reflexão pertinente sobre apanágios da contemporaneidade, sobretudo no que diz respeito ao uso indiscriminado das ferramentas de Inteligência Artificial, que, obviamente, surrupiam os traços autorais dos indivíduos, ao imitá-los algoritmicamente. Analisemos como isso ocorre na trama…
O filme inicia-se como um falso documentário, em que um realizador cinematográfico de nome Kuve (Ibrahim Joseph), que alega ter nascido aos prantos em 2072, apaixona-se pela jovem mulher que converter-se-á na princesa do título, Mumbi (Shandra Apondi), que veio ao mundo com um largo sorriso no rosto, um ano depois do nascimento de Kuve. Neste período em que ambos os personagens nasceram, na metade final do século XXI, o planeta está sob a égide uma guerra devastadora, entre os defensores das neotecnologias e os conservadores retrofuturistas. O cenário para o enredo é o reino fictício de Umata — que faz referência nomenclatural a uma plataforma de Inteligência Artificial, justamente —, onde as pessoas vivem em casas construídas sobre palafitas, em ambientes agrestes, sob constante depressão emocional.
Duas décadas após o seu nascimento, Kuve está realizando um documentário sobre a era conhecida como a Grande Depressão — ou seja, quando ocorreu o auge da guerra supracitada —, ao lado de seu amigo suíço Demian (interpretado pelo próprio diretor). Ao buscar uma moça que sirva como narradora para esse projeto, ele aproxima-se de Mumbi, que é contrária ao automatismo tecnológico e rejeita terminantemente os recursos de reconstituição artificial dos espaços e situações que, paradoxalmente, são abundantes no filme. Uma maneira de contornar esta submissão tecnocrática: a assunção procedimental, efetivada através de um letreiro no canto esquerdo da tela. Kuve, entretanto, é convencido por Mumbi a converter o seu roteiro num filme ficcional, pois, ao entrevistar as pessoas de Umata, estas declaram-se encantadas pelos empolgantes “filmes de antigamente” (os anos da década de 2020, em que ora vivemos). Daí, Kuve e Demian engendram seqüências musicais, cômicas e de ação. Porém, Mumbi é prometida em casamento a um príncipe de nome Príncipe (Samson Waithaka), e desaparece repentinamente. Levará cinco anos até que o diretor reencontre a sua musa…
A partir de uma premissa tão pitoresca e entulhada de conotações metalingüísticas, o diretor — de ascendência queniana, mas radicado na Suíça — faz uma homenagem efusiva às suas origens familiares, situando as emulações mnemônicas do presente num contexto futurista, em que há um marcante acidente envolvendo uma nave terrestre e a Lua. Quando Kuve depara-se, casualmente, com Mumbi, agora casada e entristecida, ao realizar testes para um novo filme, o amor de outrora é revitalizado, e ele passa a investigar as razões para a sua infelicidade indisfarçável. Surpreendentemente, Kuve e Príncipe tornam-se grandes amigos, o que faz com que Mumbi enfatize o quanto eles são interligados pela testosterona. E, aos poucos, esta homenagem à própria magia do cinema torna-se um receituário sobre quão saudável é a poesia dos instantes fortuitos de existência, de modo que Kuve perceberá que “as lágrimas não são apenas de tristeza, elas podem ser também associadas à felicidade”. Incomodamo-nos com a adesão amplificada aos recursos tecnológicos (e usurpadores de identidade) que tanto Mumbi quanto o discurso fílmico criticam, mas sentimo-nos motivados, após a sessão, a olhar para a tela desligada e permitir que as idéias de concepção fluam. Por mais que pareça mimetizar as fórmulas de superproduções hollywoodianas (em dado momento, por exemplo, Damien torna-se um realizador de sucesso, reaproveitando e deturpando as imagens captadas por Kuve), “Memória da Princesa Mumbi” expõe uma maneira mui peculiar de enxergar as relações entre os indivíduos, enfatizando a organicidade dos sentimentos elementares. No Brasil, este foi um dos títulos exibidos na Mostra de Cinemas Africanos, que proporcionou sessões e debates gratuitos em algumas cidades, durante este mês de setembro de 2026. Deixamos, aqui, uma recomendação enfática a esta tragicômica produção de ficção científica: é preciso lidar frontalmente com as contradições que nos são ofertadas como únicas opções de escolha perante importantes decisões políticas e afetivas. Que o digam as concessões a que precisaremos nos submeter nas eleições vindouras. Eis o que será tematizado na coluna da semana seguinte. Tudo está relacionado!
Wesley Pereira de Castro.
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