Por conta dos desempenhos chamativos de produções recentes como “Ainda Estou Aqui” (2024, de Walter Salles) e “O Agente Secreto” (2025, de Kléber Mendonça Filho) em eventos como o Festival de Cinema de Veneza, Festival de Cannes, Globo de Ouro e Oscar, os veículos midiáticos brasileiros adotaram uma “futebolização” da crítica, em que os filmes, antes de serem lançados, são averiguados pelo potencial de receberem prêmios e/ou indicações em competições cinematográficas. Ainda que isto seja historicamente justificado, enquanto chamarizes de públicos, há uma suspeitosa seletividade acerca de quais premiações são destacadas nas manchetes das notícias. Por que não foi suficientemente divulgado o mérito obtido pelo longa-metragem pernambucano “A Margem do Rio” (2026, de Matheus Farias & Enock Carvalho), que recebeu o Prêmio do Júri, no Festival de Locarno, na Suíça?
Devido ao impacto noticioso do Oscar de Filme Internacional recebido pelo Brasil, em 2025, a lista de pré-selecionados a uma possível indicação nesta mesma categoria, em edições vindouras do prêmio estadunidense, é divulgada como se estivéssemos a acompanhar uma lista de convocados para jogar uma partida em defesa da Seleção Brasileira de Futebol. Seria muito interessante se isso, de fato, motivasse o público em geral a conferir mais filmes brasileiros, porém tal incremento de audiência ocorre sob o viés meramente competitivo – e, atualmente, sob a égide da polarização político-partidária. Cadê a torcida organizada dirigindo-se, em massa, às salas de cinema, para acompanhar a estréia de “Nosso Segredo” (2026, de Grace Passô)?
Recebedor dos troféus de Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte na quinquagésima quarta edição do Festival de Cinema de Gramado, “Nosso Segredo” adapta uma peça teatral escrita pela própria diretora, “Amores Surdos”, cuja sinopse literária é a seguinte: “narra o cotidiano de uma família aparentemente comum. No entanto, suas relações, por mais amorosas e afetivas que sejam, traduzem uma distância insuperável na falta de comunicação que impede uma compreensão mútua entre os personagens. Cria-se um abismo no seio familiar que só diante de uma ameaça maior – simbolizada na morte ou no Grande Bicho – poderá ser rompido”. Trata-se de um roteiro que alinhava com sutileza os cotidianos entrelaçados de vários integrantes de uma mesma família, no qual o pai está ausente e em que, conforme indicado pelo titulo, há um segredo entre eles…
Numa seqüência de abertura que demarca com precisão o estilo da diretora – estreante em longas-metragens, mas com longa trajetória dramatúrgica –, um passageiro idoso interpretado pelo músico Mateus Aleluia presenteia o motorista de aplicativo interpretado por Robert Frank com um CD, alegando gravar coletâneas de canções, em seu dia-a-dia. Ele direciona a este motorista, de nome Gilson, algumas reflexões sobre a relação entre idade e trabalho, além de lhe interrogar acerca de algo que aconteceu numa faixa de pedestres. É uma frase vaga, mas suficiente para fisgar a atenção e apreensão do motorista, que acena de modo cordial para funcionários do serviço de coleta urbana de lixo, antes de voltar para a sua residência. Lá, o garotinho Tutu (Efraim Santos) deixa de ir para a escola por estar doente, e passeia pelos cômodos da casa carregando frutas, a fim de levá-las para alguém a quem ele apelida de “Pretinha”. Sua mãe, Suely (Ju Colombo), o flagra quando ele derruba uma melancia, e percebe que lama escorre das paredes. Qual será o segredo que aquela família esconde?
À medida que o filme avança, testemunhamos os pequenos dramas dos familiares, como uma súbita crise matrimonial envolvendo Sidney (Juan Queiroz) e Grazi (Jéssica Gaspar) ou o modo ríspido como Tutu trata Lêda (Gláucia Vandeveld), uma vizinha que é amiga de sua tia Anamélia (Marisa Revert). Comumente interrogando os seus parentes sobre a injustiça existente no mundo, o pequeno Tutu revela um comportamento assaz melancólico, que desemboca na constatação surpreendente de que “Pretinha faz mal apenas a pessoas brancas”. O que teria maltratado tanto aquelas pessoas, além do falecimento ainda tão dolorido do patriarca da família, que deixou um áudio de WhatsApp, listando alguns materiais de construção, que é recitado por todos eles, em conjunto, como se fosse uma prece. A fotografia perscrutadora de Wilssa Esser e a trilha musical quase onipresente de Amaro Freitas agem como personagens acessórios da trama, no modo como demonstram que há sempre algo escondido, nalgum lugar, ou algum sentimento refreado, transladado através de notas musicais que aceleram. Não obstante ter participado de uma seção competitiva destinada a realizadores estreantes, no Festival de Cinema de Berlim, “Nosso Segredo” não foi devidamente compreendido em sua passagem internacional, em razão de uma atmosfera de pesadelo deveras peculiar, sobretudo na maneira como lida, simbolicamente, com os traumas do racismo. Tudo indica que este não será o filme escolhido pela comissão responsável pela pré-seleção de possíveis indicados ao Oscar, mas é um filme extremamente sensível, que merece ser conferido e debatido pelos espectadores brasileiros (e mundiais). Façamos a nossa parte, nesta divulgação.
Wesley Pereira de Castro.
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