“Minha vida nunca foi assunto de jornal. Até a última quinta-feira”… Quando é o próximo episódio?

Piscou-se um dos olhos e, de repente, já passa da segunda quinzena de agosto. Em conversas cotidianas, uma pauta recorrente – e transversal – é a de que o tempo está acelerado, que não apenas o ritmo da vida cotidiana tornou-se muito mais rápido, como as empolgações se sobrepõem e são substituídas avidamente. E isto não é casual: quando os críticos de internet dedicam-se a redigir demoradas análises sobre ‘trailers’ de filmes que estrearão somente daqui a alguns meses, é a prova definitiva de que o agendamento midiático que serve ao Capitalismo atingiu o seu ponto máximo de influência. Já assistiram ao novo lançamento genérico da plataforma Netflix? Já maratonaram a nova temporada de alguma série?

As perguntas supracitadas surgem recorrentemente nesta coluna, enquanto contra-exemplo espectatorial. Nas redes sociais, as respostas são afirmativas, abundam as publicações avaliativas de caráter quantitativo. Ousemos ir na contramão desta tendência? Lembram da telessérie “Desperate Housewives”, criada pelo roteirista Marc Cherry, cujo primeiro episódio foi exibido em 03 de outubro de 2004? A crítica especializada ficou entusiasmada, a audiência era enorme, mais de sessenta prêmios foram entregues, ao longo de oito temporadas… Quem ainda fala sobre esta série, hoje em dia?

Em 2007, uma versão brasileira do seriado foi produzida, mas durou apenas uma temporada, pois não fez o mesmo sucesso. Por motivos compreensíveis, aliás: a estrutura televisiva norte-americana é mui exitosa ao convencer os seus devotos a rejeitar algumas imitações locais, não obstante exortar os ‘spin-offs’. O título original não é traduzido: poderia, muito bem, converter-se em “Donas de Casa Desesperadas”, conforme a translação literal, mas ‘in English’ é chique. Nenhuma decisão é gratuita ou fortuita na indústria do entretenimento!

Para quem nunca viu a série, o que pode ser depreendido a partir da audiência única ao episódio inicial? Primeiro, que o roteiro é muito criativo, em sua oscilação, em iguais medidas, entre drama e comédia; segundo, que a trilha de Danny Elfman, na abertura, antecipa o tom sardônico dos episódios; terceiro, que o elenco feminino é primoroso. A série tornou-se um fenômeno cultural, no início do século XXI. Esperava-se com ansiedade pelo episódio da semana posterior, enquanto os eventos recém-exibidos estimulavam as conversas entre amigos, as teorias especulativas sobre os ganchos tramáticos deixados em aberto, entre um episódio e outro. Segredos familiares eram desenterrados e expostos o tempo inteiro. A hipocrisia da felicidade de “comercial de detergente” era descortinada. Adultérios, frustrações, advertências sobre o mal-estar feminino e reflexões sobre o desejo eram recorrentes. Por que deixou-se de conversar sobre esta série?

Logo na abertura, sabemos que a narradora Mary Alice Young (Brenda Strong) suicidou-se: aparentemente felicíssima e bem-sucedida no casamento, ela atira na própria cabeça, repentinamente, por algum motivo. Suas quatro melhores amigas comparecem ao funeral, cada uma delas trazendo comida. É quando conhecemos os dramas destas mulheres, igualmente protagonistas: Susan (Teri Hatcher) é divorciada e, depois de muito tempo em celibato, interessa-se por um novo vizinho, que é encanador; Lynette (Felicity Huffman) é uma ex-executiva que, após engravidar várias vezes, vive sufocada pelas travessuras e hiperatividade de seus filhos; Gabrielle (Eva Longoria) é uma jovem modelo, casada com um homem possessivo, que tem um caso com o seu jardineiro; e Bree Van de Kamp (Marcia Cross) age como uma esposa impecável, mas é atacada por seu marido e seus filhos por ser refinada em excesso, “perfeita demais”. As cenas dos cotidianos de cada uma delas são revezadas, sob os comentários oniscientes da amiga falecida. Mistérios são anunciados, para manter o espectador em constante suspensão, mas o que é mostrado é suficiente para nos fazer rir e chorar. As falácias típicas do ‘american way of life’ são escorraçadas, de uma maneira que, logicamente, também serve para legitimá-lo: a ideologia é sagaz ao fazer com que a zombaria converta-se em mote de referendação. Comentar as palhaçadas intencionais da família Bolsonaro é garantir que eles estejam em constante evidência midiática e, assim, penetrem no subconsciente dos votantes que demonstram-se insatisfeitos com a continuidade do lulismo. Um produto norte-americano lançado há mais de duas décadas serve para comentar a situação política do Brasil hodierno? O esquema é o mesmo desde o estabelecimento de Hollywood enquanto concentração de volições produtivas e implantação de convenções transformadas em regras que introjetavam a autocensura. Num texto, a escolha do objeto pode ser um mero pretexto para discutirmos outras questões urgentes, escamoteadas na lógica da diversão. O desespero das donas-de-casa e dos engravatados que provêm os víveres domésticos é garantia de comemoração para quem acredita que um controle remoto pode ser utilizado como títere político. Recado transmitido? O segundo episódio da primeira temporada de “Desperate Housewives” faz menção a algo que acontece nas entrelinhas. Será que é bom? Não vimos ainda…

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em: https://www.imdb.com/pt/title/tt0558720/mediaviewer/rm940939264/?ref_=tt_ov_i

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