A invenção de um novo Universo é sobremaneira distinta dos habituais caminhos da Arte, que poucos artistas logram alcança-la. Os grandes artistas todos criam uma linguagem própria, de tal modo que obra sua seja imediatamente reconhecida, outros, mais efetivos, codificam esta linguagem cifrando-a, onde seus símbolos ganham representatividade recorrente, impondo esses símbolos como metáforas nos sucessivos cenários que compõem. Destes, os mais dotados chegam a compor nesses cenários mensagens lúdicas, onde imediatamente o espectador se inclui e reconhece seu lugar. Outros, menos prováveis, usam esta linguagem como instrumento para sucessivas descobertas, e, ainda outros, muito especiais, instrumentalizam estas descobertas para forjarem imagens que têm o poder de liberar o instintivo do homem em verdades não convencionais, mas que guardam e engrandecem esse caráter lúdico, levando todos nós a jogarmos o jogo que nos é proposto.
Pela força da sua expressividade configuram manifestações rebeldes que se traduzem em tabuleiros, na acepção inglesa – boards, espaços ilustrados imediatamente reconhecíveis pelo interlocutor com quem estabelecem a conexão, ou seja, fazem com que ele de o passo seguinte, e que comece a jogar no tabuleiro apresentado, descodificando-o, revelando suas habilidades em fazê-lo, estabelecendo um vínculo definitivo e absoluto com a cena que lhe é apresentada, decifrando-a com sagacidade dentro do manejo prazeiroso que o artista apresenta a seu interlocutor através das cenas que cria. O dialogante sabe desde sempre que irá jogar, posto que sua intenção é instintiva e culturalmente voltada de parte a parte – sua, do artista e sua, do espectador – para que joguem o imprevisível jogo da arte, a que diz alguma coisa e a que encontra ressonância e entendimento em quem a ‘ouve’, vê, no caso. Na música este fenómeno é muito mais perceptível, podendo levar o ouvinte a dançar, a dormir, a gritar, ou a cantar, por exemplo.
Nas artes visuais se dá um diálogo interior silencioso, mas que o espectador-dialogante gostaria até que fosse verbalizado, dada a força da sintonia que se estabelece, e por toda interação que acontece, que é reveladora da capacidade de reconhecimento, entendimento, interpretação, e decifração, que manifesta o interlocutor, silenciosamente no caso. Estabelecida a conexão, o artista terá conseguido um ‘admirador’- jogador, que seguirá jogando nos diferentes cenários – tabuleiros – que o artista venha a criar. Nunca esquecendo que toda arte está fundamentada em seu universo reconhecível, por ter começado sendo representativa e portanto imediatamente identificável. Estamos aí com a dimensão da memória, e também como a quer Platão, isso nos leva a aprender, e o cérebro é sedento de aprendizagem, o que é em última análise recordar; identificar o que a alma já sabia, as verdades que já conhecia.
Entretanto toda arte é um ato de descoberta, mesmo que não descubra nada, a arte trabalha sempre neste sentido, refletindo o diapasão e a possibilidade de cada artista, por isso há grandes nomes e pequenos nomes. Aqueles que insinuaram caminhos, e nem por isso foram reconhecidos ou louvados; no entanto todos aqueles que rasgaram uma trilha na imensidão da árida planície do desconhecido, por menos significante que tenham sido, marcaram seu lugar na Arte. Uns descobrem um gesto, outros uma cor, outros ainda uma técnica, um simbolismo, etcétera, etcétera, e serão lembrados mediante o alcance de sua descoberta.
Da linguagem ao cenário, tudo é fruto de sua capacidade criativa, sua capacidade de comunicar, esta condição superior de ‘falar e ser ouvido’, rara e eventual competência, mais larga ou mais estreita, consoante a expressividade do sentimento de cada um e seu alcance.
Ultrapassando o ‘cenário’, há também os que criam universos completos, que contêm mais que a dialéctica expressa em toda uma linguagem cifrada, pois criam verdadeiros portais para liberações emocionais, cenários para estabelecer os diálogos tangíveis com cada espectador em sua particular sensibilidade. Mais ousados são os que buscam todo um universo alegórico, capaz de expressar mais que uma linguagem, mais que um cenário, mais que a conexão, e sim a imersão numa nova realidade, é realidade porque passa a existir desde o momento que o artista a expõe, mas é, e sempre será além, porque não é nem sonho, nem abstração, nem figuratividade, apesar de ser tudo isso. A forma de ver, o ato de descoberta, o reconhecível, já irreconhecível, quando o que era passou a ser algo mais, continuando a ser o que era, o que tinha sido, é toda uma fixação da matéria na implausível realidade criada como nova existência permanente, uma vez que exista.
Quando você, ao criar um universo, está muito em moda dizer paralelo, mas neste caso eu o adjetivo de NOVO, posto que inaudito, e que estará aqui mesmo e bem visível, portanto um novo universo visual, que não perde o senso de possibilidades ao dissolver a realidade, posto que esta existe em outro universo que não o seu, uma vez que no seu há o novo, aquilo que não havia e nunca houve, e que também não é sonho, como vários artistas soem representar em seus cenários diversos, mas sim pura fantasia, NOVO UNIVERSO FICCIONAL, onde estão representadas as suas possibilidades, tanto quanto sejam elas possíveis.
No caso de Joana Vasconcelos os universos que cria, por excederem toda imaginação, tornam-se MARAVILHA.