“Quando uma mulher é injustiçada, todas nós sofremos!”: acerca de necessidade de reescritura das estórias (e da História) a partir das vozes femininas

Nascida na Bahia, mas crescida e estabelecida no Estado de Sergipe, a multiartista Everlane Moraes logo erigiu uma poderosa filmografia, formada por curtas-metragens intimistas e militantes e pela condução de produções televisivas associadas ao feminismo orgânico e à urgente difusão do discurso antirracista: em “Caixa D’Água: Qui-Lombo é Esse?” (2012), ela discute a importância da comunhão entre memórias familiares e requisição domiciliar, enquanto em “A Gente Acaba Aqui” (2021), ela reaproveita imagens de um funeral íntimo para tecer uma poderosa reflexão sobre as dores hipertrofiadas durante o confinamento pandêmico, para ficar em apenas duas de suas obras mais famosas. Seu novo curta-metragem, a animação “O Segredo Sagrado” (2026), recebeu um prêmio no Festival Olhar de Cinema, em Curitiba, e, em breve, constará da programação do Canal Brasil, dedicado à divulgação e preservação do cinema brasileiro.

Ao longo dos doze minutos deste curta-metragem, acompanhamos a explicação de uma contenda antiga entre duas tribos, cuja resolução definitiva pode acontecer a partir do compartilhamento do segredo titular, que conferirá imenso poder a quem for o portador do mesmo. Ocorre que este poder não pode ser capturado, mas, ao invés disso, escolhe quem o detém: um peixe místico realiza este procedimento de transmissão gnoseológica, que foi direcionado à filha de um dos líderes tribais, a princesa Sikán. Esta, apaixonada por um guerreiro, teria confidenciado a ele o tal segredo, que reage de maneira indignada, e a denuncia como traidora, desencadeando a sua condenação à morte, junto à instauração de uma noite eterna na aldeia. Ou, ao menos, esta foi a versão oficial, contada de geração em geração por muito tempo…

Numa estratégia narrativa brilhante, a diretora — traduzindo em imagens o roteiro de Tatiana Monge Herrera — substitui a narração masculina de Adyr Assumpção pela voz feminina de Meibe Rodrigues, afirmando que a condenação de Sikán, descrita acima, foi prescrita de maneira oportunista, sacrificando uma mulher enquanto bode expiatório para a malevolência e a beligerância dos homens. Somos apresentados, então, a uma nova versão do relato, em que esta princesa seria alvo de um complô elaborado por homens sedentos de poder. O segredo teria sido preservado por ela, mas pervertido por um guerreiro que observou o encontro entre Sikán e o peixe que a abençoou com uma altíssima responsabilidade, não admitida pelos homens de ambas as tribos em disputa. Infelizmente, isto metonimiza algo que segue acontecendo hoje em dia, em quaisquer sociedades.

Um dos projetos nos quais Everlane Moares esteve envolvida, como diretora, foi a minissérie de antologia “Histórias (Im)Possíveis”, exibida pela Rede Globo de Televisão entre março e novembro de 2023, e, ali, conduziu dois dos cinco episódios, que foram organizados em “falas” (Feminina, da Terra, de Orgulho, da Vida, e Negra). A originalidade deste projeto está na maneira como os enredos dos episódios apresentam dilemas morais, que obrigam o espectador a repensar o “senso comum”, ao introduzir inversões de expectativas, como a situação de uma patroa alegadamente compreensiva, que pede que a sua empregada doméstica desista dos estudos para continuar trabalhando em sua residência, ou a crise de uma roteirista negra, que contribui para um roteiro audiovisual em que os demais colaboradores são todos de pele clara. Isso reitera o quão sagaz é Everlane Moraes ao abordar as questões que, hoje, são minimizadas como identaristas, em tramas que eventualmente flertam com o melodrama, como acontece no ótimo curta-metragem que ela realizou em Cuba, “Aurora” (2017), sobre as reinterpretações das angústias de três mulheres de diferentes idades, num palco teatral abandonado.

Voltando a “O Segredo Sagrado”: filmado em um belíssimo preto-e-branco, com toques de sépia nos traços computadorizados, este curta-metragem translada para a perspectiva afro-americana o tipo de mitologia convencionalmente associada às anedotas bíblicas, inclusive no que tange à menção aos nomes dos patriarcas e seus parentes. Contando com equipe majoritariamente feminina, este filme fascina pelo modo como reconfigura os fatos, a partir da voz que assume a narração. Ao invés do deslumbramento, a diretora opta pela contestação e pela exortação da autocrítica espectatorial. Isso, num período em que a esposa de um ex-presidente golpista — cujos nomes não mencionamos neste texto para evitar o financiamento do agendamento midiático que estes facínoras desejam — simula a denúncia de uma agressão familiar para manter-se em evidência na corrida eleitoral em curso, neste ano de 2026. Algo que “O Segredo Sagrado” nos ensina: a desconfiar dos discursos de autoridade que se sustentam a partir da difusão de notícias e/ou fofocas sub-averiguadas. Saber diferenciar um de outro é algo proporcionado pela adesão à consciência crítica, abundante em toda a filmografia de Everlane Moraes. Fica aqui a nossa recomendação entusiasmada, portanto!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: disponível em: https://ocqclhzawyqhjwaiwvee.supabase.co/storage/v1/object/public/film-public-assets/2542d17f-dc1c-422d-b48d-5c5d9c14daf9/241a7314-d08e-4bff-8748-c652887beaf3/promo_photo_1776355335248_1.w1600.webp

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