A ciência permite-nos avançar; a humanização garante que não nos perdemos no caminho.”
Entre os dias 18 e 20 de junho de 2026, o Fórum de Machico, na Região Autónoma da Madeira, acolhe o Congresso de Enfermagem Madeira–Porto Santo 2026, promovido pela Ordem dos Enfermeiros – Secção Regional da Madeira, sob o mote “Transformar o Cuidado, Construir o Futuro”. Mais do que um encontro científico, este congresso representa um espaço de reflexão profunda sobre a identidade, os desafios e o futuro da enfermagem num contexto global marcado por mudanças aceleradas, envelhecimento populacional, pressão assistencial crescente e revolução digital.
A escolha do tema é particularmente feliz. Falar em transformação implica reconhecer que o cuidado em saúde já não pode ser pensado apenas sob modelos tradicionais. Os sistemas de saúde enfrentam hoje pressões simultâneas: escassez de recursos humanos, maior prevalência de doenças crónicas, aumento da esperança média de vida, necessidades complexas de coordenação assistencial e integração tecnológica. Neste cenário, a enfermagem assume uma centralidade estratégica cada vez mais evidente.
Segundo a World Health Organization (2025), o fortalecimento da enfermagem constitui uma das intervenções com maior impacto na melhoria dos resultados clínicos, na segurança dos cuidados e na equidade em saúde. O relatório internacional sobre a força de trabalho em saúde sublinha que investir em enfermeiros não representa apenas uma decisão clínica, mas também económica e social. Esta visão é corroborada por Buchan, Catton e Shaffer (2025), que defendem que a sustentabilidade futura dos sistemas de saúde depende diretamente da capacidade de recrutar, reter e valorizar profissionais de enfermagem.
A conferência inaugural do congresso, intitulada “Enfermeiros empoderados salvam vidas”, resume de forma poderosa a essência da profissão. O conceito de empoderamento em enfermagem transcende autonomia formal ou reconhecimento hierárquico. Empoderar significa dotar os profissionais de conhecimento, competências, voz e capacidade de decisão. Segundo Wei et al. (2025), ambientes de trabalho que promovem empowerment estrutural estão associados a menor burnout, maior satisfação profissional e melhores resultados para os doentes.
Na prática clínica, isto traduz-se em algo muito concreto: um enfermeiro empoderado identifica precocemente sinais de deterioração, antecipa complicações, mobiliza equipas e influencia decisões clínicas críticas. Em muitas situações, são precisamente os enfermeiros os primeiros a reconhecer que “algo não está bem”, mesmo antes dos parâmetros objetivos evidenciarem agravamento. Esta capacidade, construída entre ciência, experiência e sensibilidade clínica, constitui um valor incalculável.
Outro eixo central do congresso prende-se com os ambientes de trabalho saudáveis e a segurança dos cuidados. Esta temática surge num momento particularmente relevante, quando o cansaço profissional se tornou um problema estrutural em múltiplos sistemas de saúde. Recentemente, o Bastonário da Ordem dos Enfermeiros alertou para a exaustão crescente da classe e para a necessidade urgente de reforçar quadros especializados na Madeira.
A literatura científica é clara quanto ao impacto deste fenómeno. Aiken et al. (2025) demonstraram que ambientes laborais desfavoráveis aumentam significativamente risco de eventos adversos, absentismo e intenção de abandono da profissão. Por oposição, ambientes positivos; com liderança eficaz, suporte organizacional e cultura de segurança, associam-se a menor mortalidade hospitalar e maior qualidade assistencial.
Isto significa que a segurança dos cuidados não depende apenas de protocolos.
Depende também das pessoas que cuidam.
E depende, sobretudo, das condições em que essas pessoas trabalham.
Esta reflexão torna-se particularmente importante em contextos insulares como a Madeira e o Porto Santo. As regiões ultraperiféricas enfrentam desafios únicos relacionados com acessibilidade, retenção de profissionais e distribuição de recursos. Segundo Marmot e Allen (2025), os determinantes geográficos e sociais continuam a influenciar profundamente desigualdades em saúde, tornando os territórios insulares particularmente vulneráveis.
Paradoxalmente, estes territórios tornam-se frequentemente laboratórios de inovação.
Talvez por isso o congresso dedica especial atenção ao tema da liderança em enfermagem. A conferência “O futuro da Enfermagem: Liderar a mudança” convida-nos a repensar o que significa liderar em saúde. Durante décadas, liderança foi associada sobretudo à autoridade formal. Hoje, porém, liderança eficaz exige visão, inteligência emocional, adaptabilidade e capacidade de inspirar mudança.
Segundo Boamah et al. (2025), a liderança transformacional em enfermagem melhora compromisso organizacional, retenção profissional e qualidade dos cuidados. Líderes eficazes não são apenas gestores de tarefas; são facilitadores de crescimento, promotores de confiança e catalisadores de inovação.
Talvez nenhum tema simbolize tanto o presente quanto a conferência “Entre algoritmos e afetos: Desafios éticos da inteligência artificial na Enfermagem”.
A inteligência artificial (IA) está a redefinir o panorama da saúde. Algoritmos de machine learning já são usados em triagem, apoio ao diagnóstico, análise preditiva e monitorização remota. Segundo Esteva et al. (2025), a IA poderá aumentar significativamente a precisão diagnóstica e otimizar decisões clínicas em múltiplos contextos assistenciais.
Contudo, a integração tecnológica levanta questões fundamentais.
Quem decide?
Quem assume responsabilidade?
Como preservar ética e humanização?
Segundo Mesko (2025), a grande questão da IA em saúde não é tecnológica, mas humanística: como garantir que a inovação fortalece, e não fragiliza, a relação terapêutica?
Esta questão é particularmente sensível em enfermagem.
Os algoritmos conseguem reconhecer padrões estatísticos.
Mas não reconhecem sofrimento emocional.
Não leem silêncios.
Não interpretam medo escondido num olhar.
Não substituem presença.
É precisamente por isso que a enfermagem continua a ocupar um lugar insubstituível. O futuro será inevitavelmente digital, mas o cuidado terá sempre uma dimensão relacional que escapa à lógica algorítmica.
Outro tema estruturante do congresso é o envelhecimento demográfico e as políticas de cuidados. Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa, realidade particularmente visível na Madeira. O aumento da longevidade representa uma conquista extraordinária, mas traz exigências profundas aos sistemas de saúde.
Segundo Beard et al. (2025), envelhecer bem significa preservar funcionalidade, autonomia e participação social pelo maior tempo possível. Este paradigma desloca o foco da mera sobrevivência para a qualidade de vida.
Neste contexto, a Enfermagem de Reabilitação assume importância estratégica. A mesa dedicada à especialidade aborda temas como ventilação não invasiva, reeducação vesical e reabilitação respiratória, áreas de enorme relevância clínica numa população envelhecida e frequentemente multimórbida. Como enfermeira especialista em reabilitação, reconheço profundamente esta dimensão.
Reabilitar não significa apenas recuperar função.
Significa devolver possibilidades.
Significa restaurar dignidade.
Significa construir futuro.
Segundo Jesus, Hoeman e Martins (2025), a enfermagem de reabilitação melhora capacidade funcional, reduz dependência e diminui custos associados a internamentos prolongados e institucionalização. Cada pequeno ganho funcional tem repercussões gigantescas na vida do utente e da família.
O congresso dá igualmente voz à investigação emergente através de comunicações orais e pósteres científicos. Temas como quiet quitting, burnout, machine learning, retenção de enfermeiros, envelhecimento ativo e monitorização inteligente de idosos revelam uma profissão cientificamente madura e intelectualmente vibrante.
Durante muitos anos, a enfermagem lutou por reconhecimento enquanto disciplina científica.
Hoje, essa discussão está ultrapassada.
A enfermagem produz ciência.
E ciência de elevado impacto.
Segundo Rosa et al. (2025), a produção científica em enfermagem tem crescido de forma consistente, contribuindo diretamente para inovação assistencial, qualidade e segurança.
Talvez esta seja a grande mensagem do Congresso de Enfermagem Madeira–Porto Santo 2026.
A enfermagem do futuro será mais científica.
Mais digital.
Mais estratégica.
Mas também precisará ser mais humana.
Entre algoritmos e afetos, entre ciência e compaixão, entre sistemas e pessoas, permanece uma verdade intemporal: cuidar continua a ser uma das expressões mais sofisticadas da inteligência humana.
E quando ciência, liderança, inovação e humanidade se encontram no mesmo palco, não estamos apenas a assistir a um congresso.
Estamos a assistir à construção do futuro da enfermagem.
Referências bibliográficas
Aiken, L. H., Sloane, D. M., Lasater, K. B., & Lake, E. T. (2025). Nurse staffing and patient outcomes: New evidence for safer care. Journal of Nursing Management, 33(2), 155–167.
Beard, J. R., Officer, A., & Cassels, A. (2025). Healthy ageing and long-term care transformation. The Lancet Healthy Longevity, 6(2), 85–96.
Boamah, S. A., Laschinger, H., Wong, C., & Clarke, S. (2025). Effect of transformational leadership on nurse outcomes. International Nursing Review, 72(1), 41–55.
Buchan, J., Catton, H., & Shaffer, F. (2025). Sustain and retain in 2025 and beyond. International Nursing Review, 72(1), 1–4.
Esteva, A., Robicquet, A., Ramsundar, B., & Dean, J. (2025). Deep learning in healthcare decision support. Nature Medicine, 31(1), 18–29.
Jesus, T. S., Hoeman, S., & Martins, M. M. (2025). Rehabilitation nursing outcomes and functional gains. Rehabilitation Nursing Journal, 50(1), 11–24.
Marmot, M., & Allen, J. (2025). Social determinants of health equity. The BMJ, 388, e081123.
Mesko, B. (2025). Artificial intelligence and the human factor in healthcare. The Medical Futurist Journal, 8(1), 22–31.
Rosa, W. E., Davidson, P. M., & McHugh, M. D. (2025). Nursing science and future health systems. Nursing Outlook, 73(1), 1–9.
Wei, H., Sewell, K. A., Woody, G., & Rose, M. A. (2025). The state of the nursing workforce. Nurse Leader, 23(1), 25–33.