Usuário contumaz das redes sociais, o realizador Douglas Henrique comentou, recentemente, que o historiador e pré-candidato a Deputado Federal pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) Jones Manoel ainda não assistira ao seu curta-metragem “Os Arcos Dourados de Olinda” (2025), mas que ele seria cobrado quanto a isto, em breve. Poderia ser um ‘tweet’ meramente chistoso, mas há uma interessante continuidade de projeto neste pedido, visto que o filme ora resenhado traz valiosas demonstrações de como a organização popular pode enfrentar – e, no caso, derrotar – estratagemas de infiltração do poderio imperialista com gênese estadunidense.
Vencedor da edição 2026 do Festival É Tudo Verdade, na categoria curta-metragem, e laureado e indicado a diversos certames cinematográficos, inclusive internacionais, “Os Arcos Dourados de Olinda” possui uma exposição de argumentos francamente inspirada no clássico “Ilha das Flores” (1989, de Jorge Furtado): começa com uma demonstração enciclopédica de como, durante o período da Guerra Fria, o mundo estava dividido entre dois blocos políticos bem delimitados, um capitalista e outro comunista, representados pelos EUA (Estados Unidos da América) e pela URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), respectivamente. Com o declínio de um destes blocos, o outro encontrou a metonímia ideal de penetração ideológica: a inauguração de uma franquia da loja de hambúrgueres McDonald’s, que provocou filas imensas, na cidade de Moscou, em 31 de janeiro de 1990.
Explicando, de maneira bem-humorada, como o que foi identificado neologisticamente como “mcdonaldização” serviu para obnubilar traços culturais característicos de algumas regiões, e substituindo-os pelos arremedos vendáveis do ‘american way of life’, a narração a cargo do ator Giordano Castro aterriza no Brasil, onde em 2000, na cidade de Olinda, no Estado de Pernambuco, uma filial da supracitada loja de hambúrgueres estava prestes a ser inaugurada. Justamente quando, no panorama eleitoral, havia uma acirrada disputada entre a prefeita Jacilda Urquisa, vinculada à direita e buscando a reeleição, e a deputada assumidamente comunista Luciana Santos, que, afinal, logrou-se vencedora. O que acontece no desfecho de ambas as campanhas – a eleitoral propriamente dita e tentativa de substituição dos pratos com jerimum pelo ‘fast food’, conforme aventado pela imprensa local – possuí um viés celebratório, no que tange à vitória da esquerda festiva, pois, pela primeira vez no mundo, dois anos após a inauguração, uma cidade conseguiu fazer com que uma filial do McDonald’s falisse…
Servindo-se de algumas hipérboles elogiosas que corroboram o tipo de bazófia comumente associado aos pernambucanos, o filme é organizado através de um minucioso trabalho de pesquisa, que contextualiza as inusitadas de implantação geográfica da filial em questão, utilizando, para tal, alguns trocadilhos oportunos, como a abundância de blocos carnavalescos na famosa cidade de Olinda. Neste sentido, alguns paralelismos podem ser traçados em relação ao panorama político brasileiro atual, em que uma tática comum de deslegitimação de seus oponentes, por parte dos candidatos de direita, é a divulgação do suposto ateísmo de outrem, visto que, mesmo sendo um país laico, o Brasil é assaz influenciado pelos ditames religiosos. Numa das situações mostradas no filme, após ser acusada de “não acreditar em Deus”, Luciana Santos foi acolhida por líderes evangélicos, que a levaram para os palanques e garantiram, assim, o apoio desta comunidade de votantes. Como contornar este desfaio, atualmente, quando há uma filiação acachapante entre o neopentecostalismo e o bolsonarismo? Quem viu o documentário “Apocalipse nos Trópicos” (2024, de Petra Costa) lembra como isto ocorre, em viés traiçoeiro, já que o retratado pastor Silas Malafaia chegou a referendar um das candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva e, hoje, surta em apoio irrestrito aos desmandos do clã criminoso que esteve no poder entre 2018 e 2022.
Dentre os inúmeros méritos fílmicos de “Os Arcos Dourados de Olinda”, destacamos a excelente montagem, que desmistifica a aparência continuamente alegre dos funcionários do McDonald’s, que eram forçados a sorrir enquanto exerciam atividades incompatíveis com os empregos para os quais foram inicialmente contratados, além de serem induzidos a consumir, enquanto bônus, os mesmos produtos que preparavam e vendiam, insalubres, que, enquanto meros consumidores, talvez lhes fossem inacessíveis, pois os preços destes sanduíches eram incondizentes, no que tange às condições socioeconômicas dos moradores de onde a filial foi instalada. Outro momento impagável do curta-metragem é quando se reaproveita uma reportagem com o vocalista de uma das melhores bandas do mundo (para combinar com os superlativos adjetivos da obra), a extinta Textículos de Mary, e este enumera as práticas sexuais ocorridas nas cercanias de um hotel de luxo rebaixado à condição de ‘flat’. Na letra de “Serviço de Utilidade Pública”, Chupeta e sua Gangue listam os diversos locais em que praticaram sexo oral, ao ar livre, incluindo o endereço onde estava a hamburgueria em questão: “[Avenida] José Augusto Moreira, atrás do [hotel] Quatro Rodas”. Trata-se de um humor combativo que converte em hino de vitória (e gozo) uma condição identitária, rechaçada pelos detratores. Que consigamos multiplicar estes exemplos em 2026, nas eleições presidenciais e governamentais que ocorrerão a partir de outubro. Fica o anseio pelo grito de guerra, contido no refrão da canção: “chupei a sua glande”!
Wesley Pereira de Castro.
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