EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish
EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish

CEGO É QUEM VÊ: a urgência de ensaiar sobre a cegueira humana

CEGO É QUEM VÊ: a urgência de ensaiar sobre a cegueira humana

“Cegos que, vendo, não veem”.

Com esta frase, o escritor português José de Sousa Saramago, premiado com o Nobel de Literatura de 1998, termina uma de suas obras intitulada “Ensaio sobre a Cegueira[1]”. No romance, Saramago mergulha no caos absoluto para questionar se somos, de fato, seres racionais ou se a civilização é apenas uma fina crosta prestes a quebrar.

A trama se dá de forma abrupta: um motorista, parado no semáforo, subitamente perde a visão. Diferente de uma cegueira comum, ele vê apenas um mar de leite, uma cegueira branca. Rapidamente, o mal se torna uma epidemia inexplicável e altamente contagiosa.

Para conter o surto, o governo adota medidas drásticas e ineficazes, confinando os primeiros “cegos” em um manicômio abandonado, sob vigilância militar. Entre os internados está a mulher do médico, a única personagem que, por razões desconhecidas, mantém a visão. É através dos olhos dela que testemunhamos a rápida degradação do ambiente.

O livro utiliza a cegueira física como uma metáfora para a cegueira moral e espiritual. Ao perderem o sentido que mais conecta o indivíduo ao mundo exterior e às convenções sociais, as personagens despencam em um estado primitivo.

Destaca-se:

  • A fragilidade das Instituições: Saramago mostra como o Estado falha e recorre à violência quando perde o controle. A organização social entra em colapso assim que a infraestrutura básica (higiene, alimentação, ordem) desaparece;
  • O Instinto de Sobrevivência vs. Ética: no confinamento, surgem grupos de “cegos maus” que usam a força para controlar a comida, chegando a exigir favores sexuais das mulheres. O livro não poupa o leitor do espanto e da crueldade, mostrando que a dignidade humana é um luxo que muitos descartam sob pressão;
  • A responsabilidade de ver: a mulher do médico carrega o fardo da visão. Ver a sujeira, o estupro e a morte a obriga a agir. Ela se torna o guia moral do grupo, provando que a solidariedade é a única ferramenta capaz de nos manter humanos.

A cegueira pelo excesso (O Mar de Leite)

Embora Saramago tenha escrito esta obra na década de 90, a metáfora da “cegueira branca” é assustadoramente aplicável à nossa alienação digital contemporânea. O paralelo não reside na falta de informação, mas justamente no excesso dela, que acaba por nos cegar para o que é essencial.

No livro, a cegueira não é treva, mas uma brancura luminosa e ofuscante. No mundo digital, vivemos algo semelhante: não sofremos por falta de luz (informação), mas por um excesso dela que nos impede de distinguir formas e verdades. O bombardeio de estímulos, algoritmos e notificações, cria uma névoa de dados onde tudo tem o mesmo peso, resultando em uma incapacidade de processar a realidade com profundidade.

Essa desumanização ecoa no fenômeno atual da perda de alteridade. No confinamento do manicômio descrito na obra, os personagens perdem a individualidade e passam a tratar o outro como obstáculo ou ferramenta. No mundo digital atual, a mediação pelas telas muitas vezes retira a humanidade do outro. Nas redes sociais, o debate dá lugar ao linchamento e à polarização. Quando deixamos de ver o rosto e a humanidade de quem está do outro lado da conexão, entramos na mesma cegueira moral que Saramago descreve: a indiferença absoluta pela dor alheia em prol do próprio interesse ou da própria bolha.

Sob essa ótica, a figura da mulher do médico emerge como um arquétipo do pensamento crítico contemporâneo, onde quem tenta manter um olhar crítico e analítico fora dos circuitos de eco digitais muitas vezes se sente como essa personagem, carregando o peso de enxergar as manipulações e a degradação do discurso público, enquanto a maioria parece imersa em uma simulação. Existe uma exaustão mental em tentar separar o que é real do que é fabricado.

A frase final do livro — Cegos que, vendo, não veem — define perfeitamente o paradoxo da era digital. Temos o mundo na palma da mão, mas muitas vezes estamos alienados do que acontece na nossa frente. A “cegueira branca” de hoje é a tela do smartphone: uma fonte de luz constante que, paradoxalmente, pode nos impedir de enxergar a nossa própria humanidade e a dos outros.

A Escola como espaço de cura da cegueira

Uma cegueira que pode ser curada com livros, bons livros, grandes autores, que devem sobreviver ao caos digital atual, como forma de resistência e cura.

Uma leitura densa, crítica e instigante, que se apresente em forma de livro, parece estar fora de moda. Na contramão, temos leituras “fluidas”, preocupadas com o “engajamento” e que se transformam rapidamente considerando o gosto do leitor no momento do clique. Esse movimento de leitura alienada da criticidade e normas literárias, reduz a cognição humana e prejudica o desenvolvimento pleno cerebral de nossas crianças, jovens e adultos. Muito além de uma tendência, é sem dúvida um movimento de alienação cultural, voltado para o lucro financeiro em detrimento do desenvolvimento intelectual humano.

Ler, atualmente, tornou-se um ato de resistência cognitiva. A adoção dos clássicos nas escolas não deve ser vista como um apego ao passado, mas como a oferta de um repertório sólido que permite ao estudante confrontar as ambiguidades do presente.

Diferente do texto fragmentado das redes sociais, o clássico exige o tempo da maturação e o exercício da empatia intelectual. Ao introduzirmos essas narrativas no currículo, oferecemos aos jovens mais do que conteúdo acadêmico; oferecemos lentes de aumento para as sutilezas da condição humana e para as manobras do poder que a ciência e a política, sozinhas, nem sempre conseguem traduzir.

Na esteira de boas leituras, a obra cuidadosa de Saramago nas escolas deixa de ser um exercício puramente literário para tornar-se uma necessidade pedagógica de sobrevivência. É no espaço educativo que precisamos promover o “ensaio” necessário para o entendimento de mundo, utilizando a literatura como ferramenta para desenvolver a percepção ética e o pensamento complexo. Ensinar a ler Saramago e tantos outros grandes escritores e escritoras é, em última análise, ensinar a decifrar as brancuras que nos ofuscam hoje; é capacitar as novas gerações a romperem com a alienação e a recuperarem a lucidez diante do caos informacional.

Somente através de uma educação que privilegie a alteridade e o olhar crítico poderemos esperar que os jovens de hoje não sejam apenas seres que “veem”, mas cidadãos que efetivamente compreendam e transformem a realidade.


[1] SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. Lisboa: Caminho, 1995.

Descarregar artigo em PDF:

Download PDF

Partilhar este artigo:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

TAGS

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

LOGIN

REGISTAR

[wpuf_profile type="registration" id="5754"]