Uma reflexão sobre o que permanece quando tudo parece suspenso
Há músicas que não escolhemos, encontram-nos. Chegam sem aviso, mas com uma estranha familiaridade: como se já soubéssemos habitá-las antes mesmo de as escutar. Talvez, quem sabe, haja nelas um ritmo que não se impõe, mas sustém; uma espécie de chão invisível onde o corpo reconhece o caminho antes do pensamento.
Talvez a valsa seja o nome mais próximo que encontro para esse movimento. Não pela sua forma exata, nem pelo compasso que a define, mas pela sensação que deixa: esse equilíbrio raro entre ordem e vertigem. No piano, uma mão marca o tempo, a outra abre espaço… e, nesse intervalo, algo em nós se solta. E, nesse hiato, perco-me.
Uma história sem palavras
Imagino sempre duas figuras que se aproximam sem pressa. Não se conhecem totalmente, mas reconhecem-se no instante em que o primeiro dá um passo. Há um acordo, não escrito: “Eu guio, tu confias”. Ainda assim, quem guia também se entrega. Quem confia também conduz. É uma conversa onde ninguém fala e, ainda assim, tudo é dito.
A cada volta, algo se transforma (nem que seja eu)
A cada deslizar, algo se perde (e algo se encontra).
Há músicas que nos deixam leves, como se o mundo coubesse inteiro num abraço em movimento. Outras trazem uma doçura mais densa, não porque falhem, mas porque lembram que até a beleza é transitória. E há aquelas em que o tempo deixa de ser medida e passa a ser apenas presença, uma sugestão, não uma regra.
Mas é no piano que encontro este lugar com mais nitidez.
Porque o piano não acompanha, ele presencia.
Tem uma presença que não invade, mas envolve.
O piano chama a nossa atenção, como quem toca levemente no ombro e nos convida a olhar para dentro. E, ao mesmo tempo, acolhe-nos como alguém que ama sem urgência, sem exigência, unicamente verdade. As notas caem, o pedal prolonga cada instante, como se dissesse “Fica mais um pouco”. E eu fico.
No piano, a música deixa de ser apenas som. Torna-se memória, promessa, confissão. É um lugar, no espaço-tempo, onde existo sem pressa, sem máscara, sem medo. Um lugar onde o previsível não impressiona, mas liberta.
E, nesses lugares, perco-me.
Sim, perco-me, mas não desapareço.
Há um ritmo que me devolve a mim mesmo. Um movimento que não preciso de compreender para reconhecer. Aceito, então, que há coisas que só se revelam quando sentidas. Que, às vezes, a vida precisa apenas de um compasso, não necessariamente medido, mas vivido, para fazer sentido.
Gosto destas músicas porque me lembram que tudo pode ser mais suave.
Porque me permitem sonhar acordado.
Porque, no fundo, cada volta é sempre uma forma de regressar.
E talvez seja isso:
em cada música, ou em tudo o que dela resta, há sempre alguém ou algo que nos toca.
Há encontros que não terminam, transformam-se.
O que estava a ouvir:
Valzer d’Inverno – Andrea Vanzo
Cordelia – Juan Arenosa
Van Gogh – Virginio Aiello
My Love – Ludo Pimenta
Ballerina – Yehezkel Raz
Idea 15 – Gibran Alcocer
Laura + S Dance – Mirko Dukanovic
When we dance – SilenceMan


