A humanização do ser humano é um pleonasmo. Um pleonasmo infelizmente necessário.
Será o homem apenas carne e sangue, ou existe no ser humano algo mais?
A dimensão teocrática – exposta neste texto – vê no trabalho um processo de humanização que através das suas características e funções profissionais devem estar ao serviço da humanidade, fazendo assim das profissões, processos humanizantes através das quais as competências humanas podem ser virtuosas.
A humanização do ser humano através do trabalho, é uma práctica milenar, necessária, e humanizante.
Segundo Adam Grant, professor da Wharton School, o mais natural é que, enquanto humanos, tenhamos dificuldade em encontrar satisfação nas nossas tarefas profissionais.
É reservado a um grupo limitado o emparelhamento entre funções profissionais e deleites pessoais.
Por outras palavras, é fácil entender que músicos, actores, artistas, fazem o que gostam e são remunerados profissionalmente pelo seu oficio, que apesar de remunerado exerce uma satisfação muito superior às tarefas em si mesmas. E para os outros comuns mortais que povoam empresas e organizações?
A noção de que devemos viver dos frutos do nosso trabalho permeia a história dos últimos 2000 anos, com maior enfâse após a recente abolição do trabalho forçado e não remunerado.
O trabalho, o livre e não forçado, é humanizante por que pressupõe competências, envolvimento, e desenvolvimento, apenas reservados à espécie humana.
No mundo contemporâneo é cada vez mais difícil perceber como a vida profissional pode satisfazer simultaneamente necessidades materiais e pessoais.
Os grandes pensadores tentaram resolver esta questão recorrendo a fórmulas que englobariam toda a humanidade numa forma única e organizada.
Talvez a mais famosa seja a proposta de Platão através da qual uma sociedade deveria organizar-se por tipos de ofícios que simultaneamente separariam, e talvez desumanizariam, os cidadãos.
A classe dos magistrados composta pelos sábios e magistrados garantiria o governo da sociedade.
A classe dos militares garantiria a segurança. E a classe económica composta por latifundiários, comerciantes e empreendedores garantiria os bens necessários para a satisfação das necessidades materiais.
No modelo platónico, até certo ponto, o papel de todas as classes, em todos os seus ofícios, é servir a sociedade. Contudo, alguns apesar de servirem, seriam mais servidos do que outros.
O desafio de estarmos satisfeitos com a nossa função na sociedade e ao mesmo tempo com a remuneração decorrente dessas funções é uma provocação à nossa humanidade.
Nesse sentido, no mundo contemporâneo, uma visão teocrática pode transformar-se num insulto indesejado, mesmo que humanamente sensato.
Talvez seja melhor terminar este texto com uma questão, e não com constatações soberbas.
Será o homem apenas carne ou existem em nós, e no trabalho algo transcendental?


