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Um “insulto à humanidade” e aos portugueses num domingo de Páscoa

Um “insulto à humanidade” e aos portugueses num domingo de Páscoa

No último domingo de Páscoa, o mundo foi sobressaltado por uma tragédia indescritível por ataques cometidos no Sri Lanka por homens-bomba contra três igrejas e três hotéis de luxo, nos quais morreram 253 pessoas. Deste número, decorreram outros trágicos: o homem mais rico da Dinamarca perdeu três dos seus quatro filhos; um português de 30 anos faleceu, quando estava em lua de mel com a mulher. E ainda houve consequências políticas: o Presidente do Sri Lanka pediu a demissão do chefe da polícia e do secretário da Defesa, devido à falha da comunicação dos alertas. “Um insulto à humanidade”, considerou-o o líder católico daquele país.

O jornalista Vitório Rosário Cardoso sintetizou o facto através de uma frase lapidar: “É quase indissociável desde o século XVI na Ásia marítima a questão de se ser católico e de se ser Português porque afirmando-se católico no Oriente era o mesmo que dizer ser-se Português”[1].

Com efeito, o antigo Ceilão português era um território no atual Sri Lanka, o que representa um período daquele País entre 1505 a 1658. Os portugueses encontraram primeiramente o Reino de Kotte, com quem assinaram um tratado. Em 1565 a capital do Ceilão Português foi transferida de Kotte para Colombo. A introdução do cristianismo pelos portugueses promoveu atritos com o povo cingalês, povo de tez mais escura e, a partir de certa altura, Portugal não pôde “mais contar com eles, devido ao factor distância, deixaram de falar a língua portuguesa tal como a conhecemos preservando o crioulo português e a Fé Católica que lhes formatam e reforçam a alma da portugalidade inexpugnável”, conclui o mesmo jornalista.

Na verdade, ataques cirúrgicos como estes visam atingir toda uma comunidade luso-descendente católica. E Portugal e os Portugueses estão, desde o século XV, repartidos pelos cinco continentes, sendo a nossa cultura universalista. Portugal, o nosso governo e até o nosso povo ter-se-ão esquecido do que resta do nosso império do oriente. Mas a semana santa naquele sítio do mundo é um momento de exaltação da fé católica e de afirmação da portugalidade. Por isso, naquele domingo, fomos atacados enquanto Portugueses e enquanto País católico que somos.

O actual Sri Lanka, antiga ilha de Ceilão, tem mais de português do que aquilo que parece. Lembremo-nos que logo no início d’Os Lusíadas, Camões refere a ilha da Taprobana, nome que os antigos gregos atribuíram àquela ilha. O atual governo daquele país tem um ministro de nome Fernando e outro de apelido Perera (variante de Pereira). E ainda há ali muitos Almeida, Costa e Fonseka…

Saímos de Ceilão no século XVII e, no entanto, algumas famílias ainda usam, em casa, um crioulo português que já quase desapareceu, sob o peso das duas línguas oficiais, o cingalês e o tâmil, e ainda do inglês. Já ninguém escreve esse crioulo português mas ainda há umas dezenas de pessoas que o falam[2]. Apesar de ser um dos muitos crioulos de base portuguesa espalhados pelo mundo, aqui, refere ainda Marco Neves, “a língua surgiu não só no seio das famílias mistas, como também das conversas entre as crianças e os escravos que para lá levámos. Uma língua falada por portugueses e cingaleses, com séculos de História. Está, no entanto, e ao contrário de outros crioulos, a desaparecer”[3].

Ora, mesmo a língua mais falada na ilha, o cingalês, tem mais de uma centena de palavras de origem portuguesa e há muitos outros vestígios portugueses além dos apelidos: a música, algumas tradições e a religião de uma minoria, que foi atacada no último domingo de Páscoa, como um insulto a todos nós.


[1] Vitório Rosário Cardoso, “Terroristas atacaram a geografia humana de Portugal no mundo”, jornal Público, 26/04/2019.

[2] Marco Neves, “Uma língua à portuguesa no Sri Lanka?”, blogue Certas Palavras, 28/04/2019.

[3] Ibidem.

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